Repórter Historiador

Caminhos do Imperador - parte III

 

O casal imperial em Florianópolis
   
  Florianópolis se transformou para a chegada de D Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina. A região central foi decorada com arcos da ordem toscana (romana) instalados pelos comerciantes, os funcionários da Alfândega e os “artistas” (trabalhadores especializados) – no adro da Catedral, dois no trapiche da Alfândega, outro no Paço da Câmara e em frente à Assembléia Legislativa.
As barraquinhas de venda de pescados e de outros alimentos, instaladas junto à praia, no final da praça 15, foram deslocadas para as imediações do forte Santa Bárbara – o retorno ou não ao antigo local, após a visita, levaria à formação dos primeiros dois partidos políticos do Estado. Por determinação da Câmara, foram “limpas, e asseadas”, todas as ruas, e “caiadas, e pintadas as frentes de todas as casas, procurando neste objetivo rivalizar o cidadão da mais medíocre com o da maior fortuna”.
Os integrantes da 1ª Legião da Guarda Nacional começaram os exercícios no dia 5 de outubro de 1845, uma semana antes da chegada do casal imperial. Formada por “lavradores, e homens trabalhadores, pouco abastados", e nenhum deixou de comparecer, “não obstante mesmo a distância de suas residências a algumas léguas da Capital”. A expectativa e a angústia se misturavam, todos aguardando a chegada do grande dia.

Expectativa


 Dia 11 de outubro de 1845. A chegada do Augusto Par foi uma espécie de encenação. Primeiro foi anunciado pelo “mastro dos sinais”, instalado provavelmente no Morro da Cruz, a chegada do vapor Brasileiro. “A praça, e o trapiche, foram logo apinhados de gente de todas as classes”, os conhecidos curiosos. As 10 horas o vapor Imperatriz fundeou em frente a cidade, na Baía Sul, com a notícia de que a comitiva imperial estava próximo a barra Norte.
Por volta das 11 horas, foi dado o sinal da chegada da fragata Brasileira. Tudo isso aumentava a expectativa e as pessoas procuravam se posicionar nas partes mais altas, na esperança de vislumbrar as embarcações. As 11h30, o vapor Imperatriz se reúne à esquadra imperial. Mas quem esperava uma rápida aparição, se decepcionou: às 14h30, uma embarcação com as principais autoridades locais partiu ao encontro da esquadra imperial, fundeada entre as ilhas de Ratones, na Baía Norte.
As autoridades regressaram às 21 horas, com a notícia de que D. Pedro II e D. Teresa Cristina só desembarcariam no dia seguinte. “Nenhuma noite foi tão longa para os catarinenses”, diz o cronista de "O Relator Catarinense". Na manhã seguinte, bem cedo, a praça começou a lotar. As janelas das casas em volta estavam “guarnecidas de senhoras ricamente vestidas”. A praça 15, rodeada de bandeiras colocadas em mastros a distâncias regulares.

A chegada


 Manhã do dia 12 de outubro de 1845. O trapiche da Alfândega estava “decentemente ornado”, com tapetes estendidos, “e bordado de bandeiras flutuantes de todas as nações”, sendo logo ocupado por “pessoas do comércio, chefes das repartições públicas, e seus empregados, oficiais avulsos e reformados do Exército”, e as autoridades eclesiásticas. Os vereadores das Câmaras de Laguna e Desterro, estavam “trajados à Corte” – capas de seda e chapéus emplumados de arminho. Também presentes o corpo consular e os integrantes do 1º Batalhão da Guarda Nacional e da Companhia de Inválidos da 1ª Linha, formando alas entre o trapiche e a porta da Catedral.
 Por volta das 11 horas teve início a parada militar, tendo à frente a Legião de Música da fragata Constituição, que chegara na véspera. “As 11h30, o vapor Imperatriz fundeia no Porto. As autoridades vão até o navio receber o casal imperial. Uma salva da Brigada de Artilharia da 1ª Legião da Guarda nacional marcou o momento, enquanto girândolas (baterias de fogos de artifício) atadas na porta do Paço da Câmara “anunciaram aos catarinenses que o monarca brasileiro desembarcava no trapiche”, em meio a estrondos, “não cessantes vivas”, abraços fraternais de “puro júbilo”, “lágrimas espontâneas da mais sincera alegria”.
Uma vez em terra, foram conduzidos debaixo de pálio até a Câmara e a Catedral, através das alas militares, acompanhados por centenas de pessoas e recebendo “chuvas de flores”. Na Catedral, Te Deum, com música composta por João Francisco de Souza Coutinho, executada por um coro formado por funcionários públicos e oficiais da Guarda Nacional. Terminado o ato religioso, seguiram ao Palácio, onde houve beija-mão. A Guarda Nacional desfilou em continência, observada da sacada pelo Imperador. Em seguida o casal se recolheu para o descanso.

 

 “Imperator Secundos Petrus”,
Protetor do Hospital de Caridade

  A visita mais importante foi feita ao Hospital de Caridade, cercada de protocolos e encenações. Inicialmente circulou a informação de que o Imperador estaria determinado lançar a primeira pedra do novo Hospital de Caridade “antes de sua retirada desta cidade”, tendo em vista ser o “único estabelecimento de tal natureza” em Santa Catarina.
O passo seguinte foi visitar a Igreja Menino Deus e o próprio Caridade, às 10 horas do dia 14 de outubro de 1845. Na chegada, o casal foi recebido “debaixo do pálio no princípio da extensa ladeira”, pelo provedor e os irmãos da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, em procissão. Ao chegar, os dois foram acomodados num “camarim, que se lhes tinha preparado com a decência possível”, tendo lugar um Te Deum Laudamus “cantado pelos padres Jesuítas em missão nesta cidade”.
Depois eles visitaram a Capela, as enfermarias do Hospital “sempre acompanhados da Irmandade, e do numeroso concurso de senhoras, e de homens, que enchiam a igreja”. Ao deixar o local, foi entregue ao provedor, por ordem do Imperador, a quantia de 10 contos de réis, mais 1,2 contos da Imperatriz, destinados à construção de um novo hospital – o edifício do existente se achava em ruínas. Aos pobres que o abordaram, D. Pedro II também deu esmolas.

 Conduzido sob o pálio pela Irmandade de volta ao Palácio, o casal ficou emocionado: das janelas, as pessoas os aclamavam, obrigando o cortejo a fazer diversas paradas, “por que muitas senhoras não satisfeitas de lançarem flores das janelas, saíram à rua a fazê-lo de mais perto”. O casal parava para receber “mais esta prova de amor”.
A encenação prosseguiu. No mesmo dia, a Capela do Menino Deus foi visitada pelo bispo capelão mor Conde de Irajá. No dia seguinte, o provedor e os irmãos foram ao Palácio agradecer a visita e a esmola. O Imperador foi declarado “Protetor da Santa Casa de Caridade desta Capital”.
O título precisava ser aceito, fazia parte do protocolo e das formalidades. Feito isso, “...as paredes de tão Santo Estabelecimento, como por magia, se erguerão dos cimentos, e os seus tetos chamarão a que ali se recolham os desvalidos e um e de outro sexo para lhes oferecer, se um leito de dor, ao mesmo tempo um leito de lenitivo, assim como chamarão os infelizes inocentes, condenados à privação das carícias maternais, que lhe sejam proporcionados os meios de sua criação, a fim de serem um dia súditos úteis de V. M. I.”.

O “aceito”

 Nove dias depois, em 23 de outubro de 1845, D. Pedro II anuncia que aceita o título de Protetor do Hospital de Caridade e determina “lançar ele mesmo a primeira pedra fundamental do novo hospital”. Em conseqüência, o provedor da Irmandade, então secretário do Governo da Província, João Francisco de Souza Coutinho, “deu as devidas providências para esse ato soleníssimo”.
Às 16 horas do mesmo dia, “estava feita a cava do alicerce”, na linha lateral da atual Capela do Senhor Jesus dos Passos. As paredes da cava estavam forradas de cortinas de damasco e uma esteira de tapetes formava um “caminho espaçoso da porta principal do templo do Menino Deus ao lugar em que se descia” até o local da pedra. “O adro do templo se achava adornado de bandeiras, e um imenso povo o ocupava, bem como toda a extensa ladeira, desde a rua do Menino Deus”.

 Pouco depois das 16h30 os sinos repicaram,  anunciando a chegada do casal. “Partiu então a Irmandade em grande número de irmãos”, tendo à frente o Senador pela Província, o coronel José da Silva Mafra, e o deputado Jerônimo Coelho, “ambos com as vestes da Irmandade”. Ao encontrar com o Imperador e a Imperatriz, “tiveram todos os irmãos a ventura de beijar-lhe as Mãos Imperiais”.
Seguiram debaixo do pálio até a Capela, onde o bispo capelão o aguardava “em vestes pontificiais”. Em seguida foi feita a benção da pedra fundamental que, “levada em procissão, foi colocada na cava do alicerce com as cerimônias usadas em tais solenidades”. Terminado o ato, o casal foi novamente conduzido sob o pálio até o Palácio. No trajeto, tanto na ida quanto na volta, D. Pedro e D. Teresa Cristina “tiveram” que “incomodar-se com a aluvião de senhoras, que de todas as casas saiam a lançar-lhes flores, e a beijarem suas Augustas Mãos”.

Conteúdo

 Na pedra fundamental, na abertura do alicerce, foram depositados: uma medalha de ouro com a seguinte inscrição: “Pro charitate IMPERATOR SECUNDUS PETRUS hane Petram posuit anno Domini MDCCCXLV”; outra moeda de prata com os nomes do provedor (João Francisco de Sousa Coutinho), escrivão (João Narcizo da Silveira) e tesoureiro (Alexandre Martins Jacques) de 23 de outubro de 1845; e três moedas – uma de ouro de 10 mil réis (valor da Lei) da era de 1832, outra de prata de 1.200 réis (valor de Lei), da era de 1834, outra de cobre de 40 réis punçada, da era de 1832.



Corpo-a-corpo com o povo

A pé

 No final da tarde do dia 15, por volta das 17 horas e acompanhado por comitiva, o casal fez o primeiro passeio a pé pelo Centro da cidade. Saindo do Palácio, iniciaram pela rua Tenente Silveira (do Governador), depois a rua Deodoro (do Ouvidor), chegando então a principal rua da cidade, a Felipe Schmidt (do Senado), indo desfrutar da visão que se tinha da chácara de Estanislao Antônio da Conceição. Continuou o passeio pela rua Conselheiro Mafra (do Príncipe), até a praça 15 (Barão de Laguna), rua João Pinto (Augusta), chegando até a rua do Menino Deus – de todas a única que conserva a denominação existente em 1845.

 O passeio incluiu o Campo do Manejo, área militar onde foi erguido mais tarde o Instituto Estadual de Educação, retornando ao Palácio, “onde se recolheram quase noite”, pela rua Fernando Machado (do Vigário). Durante todo o passeio, o Imperador e a Imperatriz, foram “acompanhados de uma multidão de pessoas de todas as classes”, recebendo vivas permanentes das pessoas nas janelas e flores.
“A noite, a cidade ficou iluminada – “acenderam-se todos os arcos e colunas” e todas as casas “se iluminaram à profia”, junto com o “esplêndido luar". Além disso, “Inúmeras girândolas subiram ao ar desde que anoiteceu” e, junto ao arco do comércio, “diversos fogos de vistas se atacaram”, e tocou a banda da fragata Constituição.

A cavalo

 No dia 16, após suspender uma visita à Lagoa por causa das chuvas, D. Pedro e D. Teresa Cristina visitaram a Alfândega, o Armazém de Marinha, as obras da Casa para arrecadação de artigos bélicos, a Tesouraria da Província, a Provedoria da Fazenda, e a Tipografia Provincial, todos na área central.
Na Provedoria da Fazenda quis saber detalhes da receita e os impostos cobrados. Na Tipografia, “entreteve-se por algum tempo em ver compor, e imprimir”. Depois voltou ao Palácio. Às 17 horas, “com uma das senhoras da sua comitiva”, e autoridades, D. Pedro II deu um passeio a cavalo pela rua Esteves Júnior (do Passeio), seguindo pela Praia de Fora até a estrada de acesso à Trindade (Detrás do Morro). Dali, alcançou o Saco dos Limões, “regressando num escaler” para o Centro da cidade.

Afagos

 Domingo, 19. Beija-mão. Ao amanhecer, às 13 horas, e no por do Sol, salva de tiros da Brigada de Artilharia da Guarda Nacional postada na praça do Palácio, correspondida pelas embarcações de guerra e as fortalezas de Santa Cruz e Santana. Às 13 horas, cumprimentos do corpo consular, chefes e oficiais das embarcações estrangeiras e “deram beija-mão a toda a população”, começando pela Câmara Municipal. Compareceram oficiais da 3ª Legião da Guarda Nacional das Vilas de São José e São Miguel, precedidos pelo coronel Neves.
Nesse dia, o casal recebeu as 54 alunas da professora Felicidade Cândida da Conceição – “engraçada e ricamente trajadas, e conduzidas pelo marido da diretora o cidadão Antônio de Souza Fagundes”. O professor de primeiras letras José Joaquim Lopes, apresentou seus 40 alunos, seguido pelos padres jesuítas.


Passeio noturno

À noite, os imperadores deram uma banda a pé, percorrendo “todas as iluminações da praça”. Seguindo pela rua Conselheiro Mafra (do Príncipe), foram ver a iluminação que o cidadão Antônio Luiz Cabral “fez erigir na frente da casa de sua residência, e que, como as  outras, tem sido acessas desde o dia da chegada de SS. MM. Em todas as iluminações”, o casal foi recebido por “numerosas mirândolas, e acompanhados sempre de uma imensa multidão de povo em continuas saudações de Vivas!”

Praia de Fora

Na tarde do dia 25, SS. MM. II e comitiva deram um passeio até a Praia de Fora (região das ruas Almirante Lamego e Boicaiúva), passando pela Igreja São Francisco e o Teatro Particular Catarinense.

Teatro

No dia 26, deu um “esplêndido jantar”. À noite, foi ao Teatro Catarinense, dirigido pelo capitão José Caetano Cardoso, que ao lado dos membros da diretoria, preparou o local para a visita. Um coro de senhoras antecedeu a comédia “O Avaro”, seguido do “Entremez – Ensaio de uma tragédia”. Os intervalos foram “preenchidos por lindas peças de músicas”. Como na ida, foram conduzidos em alas de sócios com tochas acessas. A presença de oficiais dos vasos de guerra estrangeiros, “tornou a companhia a mais luzida possível”.

Agenda cheia

 No sábado, dia 1º de novembro, às 17 horas, D. Pedro II visitou os navios de guerra no porto e “mandando aportar a galeota à praia da Arataca, visitou também o forte de Santana, situado na extremidade do morro denominado Rita Maria”.
No domingo, dia 2, o Conde de Irajá celebrou na Catedral o Santo Sacrifício da Missa, e fez a entrega das Primeiras Ordens a cinco estudantes de Gramática Latina, filhos de João Lino da Silva – Bartholomeu Álvaro da Silva, Francisco Duarte Silva, Domingos Luiz do Livramento e Duarte Teixeira da Silva. Depois, houve beija-mão de despedida no palácio.
Dia 6, depois do jantar, o Imperador foi ao forte de Santa Cruz, onde estava ancorada a frota imperial, retornando às 21 horas. No dia seguinte, visitou a Escola Pública de Primeiras Letras e o Hospital Militar, “onde lhe saiu ao encontro, quase curado, o marinheiro do patacho Argos, que sofreu a amputação do braço pelo tiro da salva no dia 20 de outubro, a quem SS. MM. mandou dar 100 mil réis, assim como abonar continuadamente os seus vencimentos no estabelecimento de inválidos da Corte”.


Fonte|
Sobre a fonte principal dos textos da visita imperial de 1845: “O Relator Catarinense”, série de oito edições e um suplemento, editados entre 13 de outubro e 13 de novembro de 1845 e publicados pela Typografia Provincial. Os exemplares consultados foram doados ao Instituto Histórico de Geográfico de Santa Catarina no dia 21 de outubro de 1924 por João Martins Veras, recebidos por José Boiteux.

 

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