Repórter Historiador

Caminhos do Imperador - parte IV



D. Pedro II pescando na Lagoa

 A cena deve ter sido realmente inusitada: o jovem Imperador D. Pedro II, meio desajeitado, embarcando numa canoa na Lagoa da Conceição para passear e pescar. O que chamou mais a atenção foi o fato de ele ter mandado capturar alguns peixes e distribuí-los aos moradores. O fato ocorreu no dia 18 de outubro de 1845, durante a visita de quase um mês que o casal realizou a Florianópolis e região,  marcando presença na Lagoa. 
 Prevista inicialmente para o dia 16, a visita foi desmarcada à pressas por causa de um mau tempo, o que deixou os moradores da Lagoa frustrados por cerca de 48 horas. No dia 18, entretanto, a comitiva deixou a cidade por volta das 8 horas, seguindo num escaler pela Baía Norte e desembarcando na então chamada ponte grande do Itacorubi – na Reta das Três Pontos, atual avenida da Saudade. O resto do caminho foi feito a cavalo.

 Num determinado ponto do trajeto, o casal imperial parou na casa de José Silveira de Lacerda, “cuja família recebeu a SS. MM. lançando-lhes flores, e dando todas demonstrações de seu apreço, e reconhecimento à honra, que recebiam ali”, segundo O Relator Catarinense. Depois do almoço, o sempre curioso D. Pedro II permaneceu algum tempo observando o funcionamento do engenho de cana de Lacerda.
Já passava das 11 horas quando chegaram na Lagoa, “sendo recebidos no princípio do arraial debaixo do pálio”, seguindo para a igreja, onde estava reservado um camarim ao casal. Logo após um Te Deum entoado pelo vigário e cantado pelo coro de empregados públicos e oficiais da Guarda Nacional, D. Pedro II e D. Teresa Cristina foram conduzidos debaixo do pálio até o local onde descansaram, retornando mais tarde à igreja para acompanhar uma missa.

 Após o jantar, foram conhecer a lagoa, momento em que o Imperador e a Imperatriz embarcaram numa canoa para um passeio. “Acompanhados das pessoas de seu cortejo, divertiram-se durante a tarde”, e mandaram “lançar uma rede de pescaria, e distribuíram os peixes que se apanharam pelas pessoas pobres do lugar”. Os dois passaram momentos bastante descontraídos e agradáveis.
Durante a presença na Lagoa foram acompanhados pelo vigário local, João de S. Boaventura Cardozo, que em viagem anterior à Corte (Rio de Janeiro), havia presenteado o Imperador com um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, com anotações do próprio autor. Na ocasião, o padre fora nomeado Pregador de Sua Imperial Capela. Por isso o reencontro foi cercado de muitas lembranças. Alguns anos depois, o padre receberia do Imperador a medalha da Ordem de Cristo. Era quase noite quando a comitiva imperial tomou o caminho de volta, atravessando o morro a cavalo e embarcando novamente na Reta das Três Pontes (onde restam duas) e chegando por mar até o Centro, por volta das 22 horas. “Estava a cidade em seu maior brilhantismo de iluminação: a praça e o trapiche, também iluminados, achavam-se apinhados de imenso povo, que formou duas alas cerradas por entre as quais seguiram SS. MM. até Palácio”. Inúmeras girândolas subiram ao ar, “lançadas das diferentes iluminações da Praça, em que soavam incessantes vivas”.



Visita ao Ribeirão e Ilha do Campeche

 A visita ao Ribeirão da Ilha foi relâmpago. O casal chegou por volta das 11 horas do dia 27 de outubro de 1845, a bordo do vapor Imperatriz, sendo recebido por uma multidão de pessoas que aguardavam na praia. O Imperador e a Imperatriz foram então conduzidos “debaixo do pálio” pela Irmandade do Santíssimo Sacramento até a Igreja de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, ainda existente.
Após um breve Te Deum cantado pelo vigário, D. Pedro e D. Teresa Cristina retornaram por onde haviam chegado, embarcando novamente. Antes de partir, o Imperador entregou ao vigário a quantia de 400$000 réis, valor destinado a reparos na Igreja, a construção de duas portadas de pedra e a aquisição de portas, janelas e caixilhos com vidraças. 

 O vapor Imperial seguiu pela Barra Sul, contornou a ponta da Ilha de Santa Catarina e lançou âncoras em frente à Ilha do Campeche, onde o casal pode apreciar a paisagem. Por volta das 16 horas, teve início o retorno pelo mesmo trajeto, até o porto da cidade, passando em frente ao Ribeirão. D. Pedro e D. Teresa Cristina chegaram ao centro às 18h30, quando a embarcação foi liberada para visita de convidados.




São José recebe o Imperador

 A praça central da vila de São José ficou apinhada de gente na manhã do dia 20 de outubro de 1845, quando o Imperador Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina desembarcaram num cais construído às pressas para a ocasião. Estavam acompanhados de uma pequena multidão em escalares de navios de guerra e três iates “embandeirados em arco com muito gosto” e uma banda de música.
Recebidos no cais pela Câmara Municipal, seguiram para a Igreja “debaixo do Palio levado pelos vereadores, trajados à Corte com capas e bandas de cetim branco”, passando por “alas de coqueiros, ligados por grinaldas de verdura”, nos conta o autor de O Relator Catarinense. O casal parou alguns instantes em frente à Igreja, decorada com uma “elegante arcada, ao pé da qual estavam em duas alas de meninas elegantemente vestidas”.
Tudo correu dentro da maior formalidade. Duas meninas aguardavam o casal, filhas do coronel Joaquim Xavier Neves e do tenente-coronel Luís Ferreira do Nascimento e Mello, para saudar e lançar “uma chuva de cheirosas flores”.

“Descargas de estilo”

 Na Igreja, o vigário entoou o Te Deum laudamus, pronunciando depois um “eloqüente e bem traçado discurso”, tendo como tema o Verso 24 do Livro 1 dos Reis, capítulo 10. “E Samuel disse a todo o povo: agora já conheceis, a quem o Senhor escolheu, porque não há em toda a Nação outro, que iguale a este. E todo o povo o aclamou, gritando: Viva e Rei”.
Terminada a solenidade religiosa, os imperadores seguiram até a casa do coronel Neves, “cuja hospitalidade se dignaram a aceitar”, e onde houve beija-mão. A 3ª Legião da Guarda Nacional, “lusidamente uniformizada com o número de 600 baionetas e 250 cavaleiros guarneciam as faces da praça da Matriz”, dando as “descargas de estilo, e formando em coluna aberta, executou a marcha em continência”, se retirando em seguida.
Depois do jantar “delicado e abundantemente servido”, D. Pedro, D. Teresa Cristina e seus seguidores montaram, se deslocando a cavalo até a Praia Comprida (região de Campinas e Kobrasol), onde foi oferecido um “espetáculo de corridas de cavalos, e de laçamento de bois, à moda do Sul”, tido como o primeiro rodeio de quem se tem notícia no Estado.

 “Cidadãos notáveis”

 A estrada que ligava São José ao Estreito, numa extensão de “légua e meia, estava bordada de um lado e de outro de habitantes de ambos os sexos, desejosos de, ainda uma vez, gozarem no seu distrito a presença de seus Soberanos”. Além do Corpo de Cavalaria da Legião, outros 200 moradores acompanharam o casal.
No Estreito, as embarcações aguardavam para conduzir a comitiva de volta a São José, cujo Centro Histórico fora iluminado. No trapiche, estavam presentes “todos os cidadãos notáveis”, muitas “alas de imenso povo” e “grande número de girândolas”, terminando com “vivas repetidos de todos os lados”. E o casal foi embora.

Breve retorno

 D. Pedro II retornou a São José uma semana depois. Primeiro à caminho de Caldas da Imperatriz, depois acompanhado do conde de Irajá, capelão-mor de SS. MM., para administrar o sacramento da confirmação. Na primeira vez que Irajá administrou esse sacramento, dia 18, “foi tão grande o concurso dos confirmandos, que só a paciência suma do Apóstolo de Jesus Cristo, só a grande prudência de seus assistentes”, com a ajuda de outros prelados, “seriam capazes de conte-lo!” O ato, repetido no dia 19, teve a mesma afluência, obrigando o bispo a “continuar na administração do Crisma nas seguintes noites efetivamente”.
 O conde de Irajá reconheceu as dificuldades da população, pois grande parte de “suas ovelhas”, não pode comparecer à Igreja de dia, “por falta de trajos para irem a seus pés”. O bispo chegou a permanecer até por volta de 22 e 23 horas ministrando a crisma, além de dar esmolas a vários pobres, e miseráveis.”


O Imperador fotógrafo

 Dom Pedro II tinha apenas 14 anos de idade e aguardava a aprovação da lei da Maioridade para assumir o trono brasileiro, quando adquiriu a primeira máquina fotográfica. A historiografia sobre o tema o aponta como o primeiro fotógrafo brasileiro, apesar de a sua produção não ter sido divulgada até hoje, permanecendo nas mãos da Família Imperial. Segundo Joaquim Andrade, “existem pelo menos duas fotografias, na posse de seus herdeiros, cuja autoria é atribuída a D. Pedro II”.
Seu interesse começou no dia 23 de dezembro de 1839, com a chegada do navio francês L’Orientale ao porto do Rio de Janeiro, trazendo a bordo o abade Louis Compte, apontado por Boris Kossoy como o “autor das primeiras demonstrações do processo de Daguerre na América do Sul”, o daguerriótipo. A partir de 17 de janeiro de 1840, o abade passou a comercializar as máquinas a cuja produção dera início no Rio de Janeiro.
Compte, diz Kossoy, realizou demonstrações públicas da técnica fotográfica e visitou o Imperador por essa época. “Suas altezas imperiais” se encantaram “ao ver fixados em nove minutos os aspectos da fachada do Paço”, conforme registrou o Jornal do Comércio de 21 de janeiro de 1840, citado por Kossoy. Assim, quando veio a Florianópolis, então Desterro, em 1845, o Imperador já havia adquirido o equipamento, mas não existem registros de que o tenha trazido.
O certo é que em todas as suas viagens pelo Brasil ou ao exterior, levava consigo especialistas em diversas áreas, incluindo um fotógrafo. No ano passado, o Museu Imperial e o Instituto Histórico de Petrópolis (RJ), realizaram exposição do acervo fotográfico reunido pelo Imperador, produzido por diversos profissionais – intitulada “As muitas faces de Pedro”.
Ao deixar o Brasil a caminho do exílio em 1889, o Imperador entregou a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma coleção com cerca de 25 mil fotografias. A partir de 1990, elas começaram a recuperadas e identificadas, com o apoio do Instituto Cultural Banco Santos, instituição que organizou a exposição “De volta à luz”, com 220 fotos e retratos pintados a óleo. 
 Prova do interesse de D. Pedro II pela fotografia está no título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, concedido por ele a partir de 1951, aos melhores profissionais. Os dois primeiros foram os fotógrafos Louis Buvelot (primeiro a registrar em fotos a família imperial) e Prat. Até 1889, premiou duas dezenas desses pioneiros. 
Esse lado do Imperador-fotógrafo despertou a atenção do professor brasileiro Roberto Klatlab, residente no Líbano, que prepara o lançamento de um livro sobre as visitas realizadas por D. Pedro II ao Oriente Médio e Norte da África em 1871 e 1876. Além de textos do Imperador sobre as viagens, publicará fotos produzidas por ele – que podem ser as primeiras a estar chegando ao público brasileiro. Além disso, Klatlab aponta D. Pedro II como o pioneiro nas relações entre o Brasil e os países árabes.


Fontes|
ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. História da fotorreportagem no Brasil – A fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-fotográfico Brasileiro – Fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

 

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