Repórter Historiador

Os alemães chegaram - parte I

 

 Tarcísio Pauli tem 52 anos de idade, estatura alta, cabelos louros, olhos azuis. Usa um chapéu protegendo a cabeça do Sol. Aparentemente retraído, discreto, ele mede bem as palavras, mas tem na ponta da língua os detalhes da história do lugar em que mora: a localidade de Santa Bárbara, no interior do município de São Pedro de Alcântara, onde se instalaram os primeiros imigrantes alemães chegados ao Brasil em 1828 e acomodados no ano seguinte.
“O pessoal foi abandonado aqui no meio do mato, sem nada, sem sementes ou ferramentas, o que prejudicou muito a imigração”, destaca, mostrando a Orada de Santa Bárbara, erguida em 1924 dentro da propriedade de seus antepassados. Como o senhor sabe de todos esses detalhes? “Ouvi do meu pai que ouviu de meu avô, mas tudo isso está registrado nos livros”, se apressou em esclarecer.

 O padre Raulino Reitz, por exemplo, diz em seu livro “Santa Bárbara - Primeiro núcleo da colonização alemã em Santa Catarina” (Florianópolis: Editora da UFSC, 1991) que desde a fundação da colônia a localidade, “pertence à família Pauli”. E acrescenta que Miguel Pauli, casado com Anna Eva Kretzer, recebeu o lote em 1829.
“No presente”, assinala Reitz, “duas casas, uma de Vitor Pauli e outra de seu filho Tarcísio, e uma orada em ruínas compõem a minúscula localidade”. Uma das casas foi transformada em pousada, bastante freqüentada no inverno, administrada por Tarcísio e sua esposa. “Quando os visitantes perguntam eu conto o que houve aqui e eles gostam de saber", acrescentou.

 No local, recorda, existiram três capelas. As fundações de uma delas estão sob a casa de Tarcísio, transformada em Pousada Santa Bárbara, detalhe presente na memória oral confirmada por Reitz. “Os colonos alemães construíram, no ano de 1835, uma ermida com paredes de pau-a-pique”, assinala, coberta “com taboinhas de pinheiro” e assoalho de tábuas serradas à mão.
Devido às más condições do terreno e o isolamento a que foram submetidos, parte dos imigrantes acabou se concentrando na região do atual Centro de São Pedro de Alcântara. “O minúsculo arraial de Santa Bárbara, que no período de seu maior desenvolvimento abrigava apenas uma igreja dedicada a Santa Bárbara, uma escola particular, um cemitério, uma venda e duas moradas”, diz Reitz.
Na ocasião, “constituía-se, no início da colônia São Pedro de Alcântara, no primeiro núcleo de assentamento de colonos alemães no Estado de Santa Catarina”. Talvez por isso Tarcísio Pauli faça tanto sucesso com sua pousada, dividindo o tempo entre contar histórias aos hóspedes e cuidar do gado e da criação de galinhas, do alambique de aguardente e de um açude, entre outras atividades típicas do meio rural.


Memória na praça


 Preocupadas com a preservação da memória da imigração, as lideranças de São Pedro de Alcântara dotaram a praça central de uma série de informações sobre a instalação da primeira colônia alemã de Santa Catarina. Além de um obelisco de pedra onde estão gravados os sobrenomes dos primeiros imigrantes, existe um monumento que retrata um pouco do sofrimento dessas pessoas.
Para entender o que aconteceu, devemos recuar um pouco no tempo. No dia 1º de março de 1929, o então governador Adolpho Konder, e outras autoridades, inauguraram um obelisco pelos cem anos de fundação de São Pedro de Alcântara, com uma placa de metal alusiva. O início da Segunda Guerra, e da campanha de nacionalização de 1939, quando os idiomas dos imigrantes foram proibidos, detonou uma violenta perseguição a descendentes de alemães, italianos e de outras origens.
Em vários lugares do Estado, quase tudo o que representasse a imigração germânica foi alvo de vandalismos e depredações. Em São Pedro não foi diferente: o monumento inaugurado por Adolpho Konder acabou “destruído pela devastadora onda nacionalista e insana xenofobia de arbitrários e incultos governantes durante a IIª Guerra Mundial”, diz a placa instalada em um novo monumento de pedra, lembrando o episódio, inaugurado em 1999.

 Mas não são apenas as más lembranças que estão presentes na região central de São Pedro. Existem outras quatro placas que narram resumidamente os principais momentos da gênese da colônia, desde a chegada ao Brasil até a instalação nos lotes destinados aos imigrantes. “Logo nos primeiros meses a colônia foi abandonada e os imigrantes entregues à própria sorte”, explica o vereador Roberto Stähelin, da quinta geração de imigrantes.
A poucos metros da praça central, o artista plástico José Sérgio Flores, 24 anos, desenhou e coloriu um painel onde estão representados os principais momentos da imigração, desde a chegada, o medo dos indígenas e de animais selvagens, as primeiras derrubadas da mata e a atividade agrícola, até a mistura de elementos da cultura germânica com a luso-brasileira - como o boi-de-mamão.



Beba Zé da Folia

 Zé da Folia é nome de cachaça e apelido de José Eugênio Schmitt, 59 anos, desde os sete no ramo da destilação do suco de cana, transformado em um apreciado aguardente. “Tenho 51 anos de experiência no ramo”, explica aos visitantes no alambique instalado em frente a casa em que reside, na localidade de Santa Filomena, no município de São Pedro de Alcântara.
A atividade que ele exerce é comum na região de imigração germânica próxima à Capital, como Santo Amaro da Imperatriz e Antônio Carlos. Enquanto extrai o suco de uma espécie de cana-de-açúcar que trouxe de Minas Gerais, explica todo o processo e conta histórias sobre a habilidade de transforma-lo em cachaça.

 Conta, por exemplo, que seu pai conhecido pelo apelido de Geninho, começou inicialmente a fabricar açúcar, fornecido a diversos fregueses, como as freiras do Convento de Angelina. “Elas compravam parte da produção e o restante era levado no lombo de mulas para a cidade de Lages”, conta.
Descontente com os rendimentos da atividade, resolveu produzir aguardente em vez de açúcar, tendo procurado as freiras em Angelina para informar que não seria mais fornecedor do produto. “As freiras não gostaram daquilo e tentaram convencer meu pai a desistir. Mas ele respondeu que ia fazer remédio e azar daquele que bebesse”.

 Atualmente, Zé da Folia produz cerca de 200 litros diários de aguardente, “menos no sábado e domingo, mas podia chegar a 500”, diz, o que pode “afetar a qualidade”. Depois de mostrar o processo de moagem, fermentação e os equipamentos para destilar o caldo, conduz os visitantes ao espaço em que mantém barris de carvalho, vindos da Escócia. “Eles chegam aqui com o uísque e depois são vendidos em Minas Gerais”, assinala.
Ao se despedir, usa a experiência adquirida nos tempos em que foi vereador e faz um discurso acerca da qualidade de sua cachaça. “Muitos colocam soda cáustica para aumentar a quantidade, mas eu não faço isso. Nem uso produto químico proibido para a fermentação, uso só fermento de pão”, garante. Quando o fotógrafo Marco Cezar pergunta se ele bebe, Zé da Folia faz apenas um gesto facial, desnecessário devido à cor avermelhada das bochechas, indicando a ingestão recente de uma boa cachaça.


SAIBA MAIS

 No dia 11 de janeiro de 1787, o alferes Antônio José da Costa iniciou uma expedição rumo ao Planalto Serrano, através do vale do rio Maruim. Chefiava 24 homens, sendo 12 escravos, com sete animais de carga. Missão: abrir uma estrada entre Desterro (Florianópolis) e Lages.
Essa foi a primeira ligação entre o Litoral e a Serra, aberta por ordens do Governo Estadual, que no futuro deveria receber em suas margens duas ou mais colônias de imigrantes.
Os primeiros alemães chegaram ao Rio de Janeiro nos navios “Johanna Jakobs” e “Charlotte et Louise”, seguindo no “Marquez de Vianna” e no “Luiza” até Desterro (Florianópolis), num total de 635 pessoas.
Os passageiros do “Marquez de Vianna” ficaram alojados em quartéis e os do “Luiza”, que chegaram doentes, foram isolados na Armação da Lagoinha, onde estava aquartelada uma unidade militar.

 “Assim ficaram os imigrantes [...] à espera, impacientes e em parte desanimados diante da morosidade dos poderes constituídos referente aos encaminhamentos elementares visando a sua transferência para a mata virgem”. (Jochem, p. 32)
Passaram o Natal e Ano Novo na mesma situação, “rolando aqui, empurrados dali, sem nenhuma privacidade, dividindo espaço com os soldados”. (Jochem, p.32)
Corriam entre os imigrantes, algumas histórias de ataques e atrocidades que teriam sido cometidos por indígenas no vale do Maruim.
Os primeiros 60 imigrantes chegaram ao atual município de São Pedro de Alcântara em 1º de março de 1829. Por Aviso Imperial de 25 de outubro do ano anterior, deveriam receber diária de 160 réis durante um ano.



 “No início da instalação da Colônia, um novo surto de insatisfação geral invadiu os imigrantes: além de atraso no pagamento das diárias a que faziam jus, havia agora condições imprevistas e adversas e de duro trabalho na mata [...] as terras além de íngremes e de pouca fertilidade, mostravam-se, em grande parte, desfavoráveis as atividade rurais”. (Jochen, p. 39)
Antes de a Colônia completar um ano de existência, o Governo suspendeu qualquer ajuda aos imigrantes, provocando um grande êxodo – tema que começa a ser tratado na próxima edição.

 

 Sobrenomes das primeiras famílias (lotes 1 a 21)

 Conradi, Sabel, Binckuz, Hessen, Marthendhal, Vormanns, Meyerer, Neckel, Goedert, Schamartz, Doer, Rhors, Gesser, Schmidt, Wagner, Kertz, Palm, Philippi, Alfrein, Mertens, Ostermann, Vetter, Klocker, Dechamps, Haussen, Muntes, Bohnen, Brand, Eich, Pajeken e Ruete.


MATRIZ

 1830 | Construção de uma capela de palha
 1838 | Capela de madeira
 1844 | Criação da Freguesia (Paróquia). Primeira reforma da Matriz de madeira
 1850 | Assume o primeiro pároco, monsenhor Manoel Joaquim da Paixão, que permanece até 1854.
 1855 | Início da construção em alvenaria  da capela-mor e sacristia, sob o comando do segundo pároco, padre Meilnolph Traube.
 1857 | Segunda reforma da Matriz
 1862 | Benção da capela-mor e sacristia
 1868 | Início da construção da nave e torre da Matriz
 1926 | Demolição da igreja de alvenaria e início da construção da Matriz atual
 1930 | Benção e sagração da nova Matriz
 

Fontes|
JOCHEN, Toni Vidal; ALVES, Débora Bendocchi. São Pedro de Alcântara – 170 anos depois... 1829 – março – 1999. São Pedro de Alcântara: Coordenação dos Festejos, 1999.
REITZ, Raulino. Santa Bárbara – Primeiro núcleo da colonização alemã em Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 1992.
 

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Inverno de 30º em Salvador
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