Repórter Historiador

Os alemães chegaram - parte II

 

Angelina, santuário franciscano

 “Angelina, terrinha boa”. É o que diz a placa de publicidade na margem da rodovia bordada com hortênsias lilases. Mais à frente, se avista a igreja dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição e suas torres emolduradas pelo verde da serra. Peregrinos com seus ônibus, vans e kombis de excursão, estacionados no entorno da praça central. Como nós, foram levados até a cidade pelos encantos da gruta construída pelo Frei Zeno Wallboehl (1866-1925), missionário franciscano, em pagamento a uma promessa: dominado pelo câncer, conseguiu sobreviver.

 Situada entre um conjunto de serras coberto por florestas, responsáveis por um formidável emaranhado de cursos d’água, Angelina fica a cerca de 70 quilômetros de Florianópolis. O caminho histórico para se chegar até lá é por São Pedro de Alcântara, via Santa Filomena, sem pavimentação, porém repleto de monumentos arquitetônicos dos imigrantes germânicos e instalações rurais cujas características pouco se alteraram desde o início da imigração. O trajeto mais confortável é pela BR-282, até Rancho Queimado, seguindo pela SC-407 por 13,5 quilômetros.
“Estamos iniciando um trabalho de mapeamento turístico e cultural do Município, mobilizando professores, agentes de saúde e servidores da secretaria de Agricultura”, explica logo na chegada o secretário de Educação, Cultura e Desportos de Angelina, Dauri Exterkoetter, acompanhado do secretário de Turismo, Renato Jesuíno Fuck e a professora Eliana Andrade Antunes. A equipe lidera o esforço para a resposta a uma pergunta simples: em que momento a cidade teria perdido o bonde da história, se é que perdeu!

 Ou seja, ao se comparar com outras cidades, os habitantes de Angelina se sentem diferentes. Afinal, não chegaram a se constituir em nenhuma Joinville, Blumenau ou Brusque. Esse é um dos motivos para o resgate em andamento. Visa localizar em algum lugar do passado, ou de seus imigrantes, as razões para que Angelina continue a ser um lugar pequeno e pacato, quase esquecido no mapa. Lugares como esses, entretanto, são cada vez mais procurados por turistas. “Não precisamos fazer propaganda, os peregrinos aparecem de todos os lugares”, constata Exterkoetter. Junto com eles, chegam os apreciadores dos ambientes naturais. Mesmo sendo um lugar pequeno, e talvez por isso, Angelina é grande em sua exuberante natureza, na resistência de seus moradores às adversidades, nas construções esmeradas de mestres pedreiros e carpinteiros e em sua religiosidade, amparada por ninguém menos que o velho e bom São Francisco. Santo que não poderia estar em lugar mais apropriado, rodeado de aves, árvores e centenas de grandes e pequenos rios.
 

Fotos| 1| Detalhe da obra do escultor Berto Santeiro (Tubarão, junho de 2001), instalada nos muros da Congregação das Irmãs Franciscanas de São José, em Angelina; 2| Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Angelina; 3| Dauri, Eliana e Renato. Missão: o resgate da memória e da cultura em Angelina.

_________________________________________________________________________________


 Colônia Nacional Angelina

Data de fundação: 10 de novembro de 1860.

Santuário de Nossa Senhora de Angelina
Criado pelo Decreto Episcopal de Dom Afonso Niehues, de 6 de fevereiro de 1988, instalado pelo então Bispo-Auxiliar de Florianópolis, Dom Murilo Krieger, cinco dias depois. A Festa do Santuário acontece em 8 de dezembro.


 População

O Censo de 1980 do IBGE indicava a existência de 6.667 habitantes (90,13% na área rural). O Censo de 2000 do mesmo órgão aponta a presença de 5.880 moradores, com pequeno acréscimo na área urbana.

Área do município
625km2.

Agricultura
Principal atividade econômica. O fornecimento de hortigranjeiros a Ceasa-SC cresceu 54% entre 1996 (3.971.989 quilos) e 2004 (6.120.812 quilos). Principais produtos: batata-doce, batata-inglesa, tomate, milho, cebola.

 Clima
Temperado quente, com temperatura média entre 16ºC e 27ºC

Altitude
A sede do Município está a 450 metros acima do nível do mar

Cidades próximas
Rancho Queimado, Santo Amaro da Imperatriz, São Pedro de Alcântara

Fontes | Prefeitura Municipal de Angelina/IBGE/Ceasa-SC


__________________________________________________________________________________

Atrativos turísticos

 * Santuário de Nossa Senhora de Angelina (Gruta de Nossa Senhora de Lourdes e Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição).
* Grutas de Nossa Senhora Aparecida (Linha dos Chaves, a 8 km do Centro) e de Nossa Senhora da Graça (Fortaleza, a 11 km do centro).
* Colégio e Congregação das Irmãs Franciscanas de São José, onde fica a Colina da Louvação com o cântico do Irmão Sol.
* Barragem e lago de 500.000 m2 da Usina Hidrelétrica Garcia (inaugurada em 1960, geração de 9.600Kw).
* Cachoeiras de São Sebastião (Barra Clara, 30 km do Centro).  

Fonte | Prefeitura Municipal de Angelina


_________________________________________________________________________________

A promessa de Frei Zeno

 Foi nesse vale encantado que os franciscanos se instalaram no final do século 19. Depois de restaurar e ampliar a antiga capela situada nas margens do rio Mundéus, dedicada a São Carlos Barromeu, Frei Burcardo Sasse pode celebrar a primeira missa e benzer as instalações no dia 8 de janeiro de 1899. Dessa antiga construção surgiu a atual matriz, iniciada em 1946, e inaugurada em 23 de maio de 1948.
Entre esses franciscanos estava Frei Zeno, chegado ao Brasil em 1891,
com 25 anos de idade. Tendo explorado a serra situada nos fundos da igreja, durante convalescença, sempre seguindo um curso d’água, localizou aquilo que seria o nicho para uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, nos terrenos de Nicolau Kretzer. Com 1,90 metro de altura, a imagem vinda da Alemanha, foi benta por Dom José de Camargo Barros, Bispo de Curitiba, em 14 de agosto de 1902, antes de chegar a Angelina. No dia 15 de agosto de 1907, após grandiosa procissão e missa solene, a imagem foi instalada em seu nicho, emoldurada por um paredão de rocha, dois cursos d’água e as árvores, tendo abaixo a imagem de Bernadete.          

 Faltava a pavimentação do acesso.  As rampas suaves com as 14 Estações da Via Sacra foram construídas sob o comando de Frei Burcardo Sasse, tendo sido inauguradas em 15 de agosto de 1911. Na subida encontramos a imagem de São Francisco sobre uma lâmina d’água e, mais acima, o local onde estão depositados os restos mortais de Frei Zeno. Nos arredores, os peregrinos ocupam as mesas, conversam, fazem seus lanches.
No nicho da gruta, os fiéis oram compenetrados, lavam o rosto com a água que desde sob a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, bebem com as mãos o líquido sagrado. O silêncio só é quebrado pelo canto das aves. Milhares de placas, quase todas de mármore, outras de madeira, indicam graças alcançadas, junto a placas de veículos, objetos de uso pessoal, bengalas, muletas, e mensagens deixadas por quem também encontrou cura para seu padecer.
 Não foi sem motivo que os franciscanos escolheram o local para instalar em 1920 a Comunidade de Angelina da Ordem. No ano seguinte, através do Decreto nº 6, assinado no dia 8 de abril por Dom Joaquim Domingues de Oliveira, Bispo de Florianópolis, foi criada a Paróquia de Angelina. A cerimônia de instalação de posse do primeiro vigário, Frei Gervásio Kraemer, aconteceu às 9 horas do dia 17 de abril de 1921.
      

 Angelina, 1927. A chegada das Irmãs Franciscanas de São José, Pelágia, Emanuela e Simplícia, vindas da Alemanha, via Curitiba, no dia 26 de fevereiro, mudou para sempre a comunidade. Por mediação do vigário Frei Gervásio Kraemer, elas ocuparam uma vasta propriedade com uma boa casa, ofertada pelo casal sem filhos Estevão Koerich e Maria Kretzer Koerich.
Em pouco tempo fundaram um Noviciado, instalado em 4 de outubro do mesmo ano de 1927, com cinco moças aspirantes à vida religiosa, além do Colégio Nossa Senhora de Angelina, que iniciou as atividades com 30 alunos no dia 6 de agosto de 1929. Hoje tem cerca de 500 alunos nos ensinos pré-escolar, Fundamental e Médio. O complexo ampliado aos poucos, fica na rua São Francisco de Assis, 1315 (Centro), onde funciona o Blumengarten Haus, com restaurante e espaços de hospedagem, encontros, retiros e descanso.
As irmãs também são responsáveis pelo Centro de Medicina Natural e o Centro Histórico Irmãs Franciscanas de São José, mantendo aberto à visitação a Colina da Louvação e O Caminho da Misericórdia. Tudo muito conservado, agradavelmente limpo e bastante visitado por fiéis e peregrinos em trânsito. 

 Assim como São Pedro de Alcântara, Angelina sofreu as conseqüências do desvio da rota comercial estabelecida no final do século 18 entre a Capital  (Desterro) e Lages. O trajeto inicial seguia do litoral até Taquaras (Rancho Queimado) através do vale do rio Maruim, caminho aberto por Antônio José da Costa entre 1788 e 1790. Usado por uma década, logo foi abandonado devido aos ataques dos indígenas Xokleng e em conseqüência recoberto pela floresta.

 Mesmo assim, o trajeto através do vale do Maruim continuou a ser usado pelos tropeiros que faziam o comércio entre o Litoral e a Serra, até o abandono quase completo, substituído pelo caminho que foi se consolidando no vale do rio Cubatão, onde surgiam colônias alemãs: Vargem Grande (1837, na época em Santo Amaro da Imperatriz, hoje Águas Mornas), Santa Isabel (1847), dando origem mais tarde a Rancho Queimado, e Teresópolis (1860).
Cabe destacar que ao longo dos anos, a antiga Colônia Nacional Angelina, destinada inicialmente a colonos de origem luso-brasileira, teve a chegada crescente de imigrantes germânicos oriundos de São Pedro de Alcântara e das colônias do vale do rio Cubatão. Assim, agricultores de origem nacional e germânica passaram a viver do plantio e colheita de batatas, milho, feijão e fumo e extração de erva-mate, segundo o agrônomo José Jacinto Mattos, mas sem vias adequadas de escoamento dessa produção.
 

 Mel, bolacha de mel, pratos com batata-salsa, repolho com batata, recheio de galinha assada, queijo, nata, rosca, coalhada, queijinho, farinha de mandioca, melado e açúcar, são alguns dos produtos e receitas tradicionais de Angelina. Integram a listagem inicial do resgate conduzido pela equipe formada por Dauri, Renato e Eliane, entre outros, envolvendo além da gastronomia e culinária, a religiosidade, as manifestações artísticas e os artesanatos produzidos no Município.
O resgate inclui o mapeamento do acervo arquitetônico, aliás rico e diversificado, como se pode constatar numa simples visita à região central e as diversas localidades rurais do interior de Angelina. Um belo exemplo é a casa onde reside dona Triewailier Koerich, 93, próximo à matriz, erguida a 103 anos. Próximo, temos a residência da professora Eliane Andrade. Mais adiante, o complexo de edificações das Irmãs Franciscanas. O tradicional enxaimel pode ser encontrado nas áreas rurais.

 Na localidade de Betânia existem várias construções de diferentes padrões arquitetônicos, como a casa onde morou o professor Guilherme Otto, cuidadosamente preservada por seus descendentes. Na parte frontal, as inscrições “J. H.” e o ano de 1931. “Os construtores de antigamente escreviam seus nomes na frente das casas e esse J. H. se refere a Jacó Haas”, explica Vanderlei Alves, neto de Guilherme.
Na sede do distrito de Betânia existe uma magnífica igreja católica, inaugurada em 23 de janeiro de 1955, decorada com vitrais e valiosas peças sacras. Não muito distante dali, nos deparamos com uma edificação de janeiro de 1936, erguida pelo mestre pedreiro de iniciais JK. São patrimônios como esses, entre outros, que começam a ser resgatados em Angelina, visando a memória de seus moradores, mas tendo como alvo os turistas. É pensando neles que a Prefeitura vai instalar placas de sinalização, indicando os principais atrativos.


_________________________________________________________________________________

GUIA 

Hospedagem e alimentação
 
* Blumengarten Haus. Centro de Angelina. Fone| (48) 3274-1180.
E-mail | fnsl@matrix.com.br
* Pousada Canto da Natureza. Vargem dos Pinheiros. Fone | (48) 3274 1030.
* Sens Hotel, Churrascaria e Restaurante. Centro. Fone | (48) 3274 1105.
* Bar e Restaurante OK-ZARÃO. Centro. Fone | (48) 3274 1252.
* Restaurante das Irmãs Schappo. Refeições ao estilo colonial. Estrada Geral do Garcia (18 km do Centro).
* Restaurante da Mariquinha. Centro. Fone | (48) 3274 1237.
* . Espaço para camping. Estrada Geral de Linha dos Chaves (2 km do Centro).    

 

 

Guerra do Contestado | parte IV
Heroína de dois mundos
Guerra do Contestado | parte II
Inverno de 30º em Salvador
Guerra do Contestado | parte I
       
 
   
desenvolvido por VirtuaComm Soluções Internet