Repórter Historiador

Os alemães chegaram - parte III



Os Scherer de Santa Maria

 Clélia Filomeno Scherer mostra com orgulho o antigo casarão construído pelo avô Antônio Pedro Scherer. Ele se destaca e chama a atenção de quem passa pelo vale de Santa Maria, em Antônio Carlos, nas proximidades da Capela. “Uma parte tem 130 anos de existência e a outra foi construída em 1927”, explica a anfitriã, descendente dos primeiros imigrantes alemães, assim como a maioria dos moradores das outras comunidades do município.
“Nossa família veio da Alemanha em 1840 e passou primeiro por São Pedro de Alcântara, antes de chegar aqui”, explica. Enquanto mostra as dependências da casa, onde três de oito irmãos ainda residem, aponta as fotos da família. Numa delas estão seu pai Ivo Vicente Scherer, e mãe, Laurina Clara Scherer, com os oito filhos. Na outra imagem temos o avô, Antônio, ao lado da esposa, Filomena Kretzer Scherer.

 As fotos em preto e branco estão numa das paredes da antiga sala de visitas. Aliás, as paredes receberam ornamentos especiais sobre a pintura normal, apresentando motivos florais, e muitas cores, característica das edificações dos imigrantes alemães e seus descendentes. As pinturas especiais nas paredes ficam pouco abaixo do forro e também estão presentes em outras peças. Com o passar dos anos se deterioraram, mas vão ser restauradas.
É quase certo que muitos visitantes tenham perguntado se a magnífica cristaleira no interior da casa não estaria a venda. Se o fizeram, receberam um discreto e educado não. “É muito antigo. Veio da Alemanha”, explica, olhando para a peça de madeira ricamente trabalhada e com suas lâminas de cristal. 

 Passamos para o antigo armazém dos Scherer, onde estão preservados os armários e grandes recipientes de madeira para as farinhas e grãos. O projeto arquitetônico do casarão, localizado entre os pertences da avó Filomena, foi emoldurado e integra o pequeno acervo de antiguidades da família. Aliás, Filomena era filha de Germano Kretzer e se criou na bela residência de Santa Filomena (São Pedro de Alcântara), adquirida e restaurada pelo médico florianopolitano Marcelo Collaço Paulo.   
No mesmo terreno herdado do pioneiro Antônio Scherer, funciona hoje a Adega Scherer com sua Schnaps Haus junto à destilaria, cujas instalações são abertas para os visitantes de início de noite de uma terça-feira. Durante o dia, os irmãos de Clélia, entre eles Ivo Scherer Filho, Ivinho, produzem o aguardente de cana e melado envelhecidos em grandes barris de carvalho.


As hortaliças do Rachadel

 O orgulho de Clélia Scherer não é único em Antônio Carlos. Os descendentes de imigrantes com quem foi possível conversar, durante uma maratona pelas estradas de chão, paralelepípedos e asfalto do município, deixaram a mesma sensação. Não apenas nas palavras, mas principalmente no aspecto visual: as casas de alvenaria com um ou dois pavimentos, jardins cuidados com esmero, as imensas plantações de hortaliças e as bem alimentadas cabeças de gado vadeando pelos pastos e cursos d’água.
“O pessoal gosta de cores chamativas”, observa o fotógrafo Marco Cezar, encantado com as paisagens naturais e construídas dos vales da região. As estradas bem conservadas, por onde escoa a produção agrícola que garante a qualidade de vida de seus moradores, são bem sinalizadas, com placas indicando os diversos destinos.

 Assim, sabemos como ir até o Louro, a localidade que abrigou os primeiros imigrantes, ou às comunidades que se criaram depois, como Rachadel, Santa Maria, Vila 12 e outros tantos simpáticos e aprazíveis vilarejos com habitantes desconfiados, porém hospitaleiros e atenciosos.
Aliás, foi esse misto de desconfiança e hospitalidade que nos levou ao interior da nova capela de Rachadel, com 48 metros de altura, feita em alvenaria de tijolos e pedras, milhares delas. Ao sentir que ia ser fotografada trabalhando na lavoura, Luzia Pauli Guesser parou o serviço, apoiou um braço no cabo da enxada, e puxou conversa. “Muita gente pára aí nesse lugar para bater foto”, disse.

 Explicado que o interesse era a igreja ao fundo, e também as plantações no primeiro plano, era se ofereceu para abrir e mostrar a obra, dedicada ao Senhor Bom Jesus, e que será inaugurada no último domingo de abril desse ano. “Levamos 10 anos para terminar a obra”, conta, dando o devido crédito ao mestre construtor José Simonis, presidente do CAEP. “Ele batalhou durante 16 anos para fazer outra igreja no lugar da antiga”.
Somos então levados por todos os recantos da igreja. “Fizemos rifas, sorteios e festas para poder levantar o dinheiro da obra”, destaca Luzia, casada com o pedreiro e agricultor Inácio João Guesser, segundo secretário do CAEP, entidade que dirige as atividades paroquiais. Há 30 anos, é ele quem toca o sino da capela e está sempre envolvido nas atividades católicas – outra característica da maioria dos moradores de Antônio Carlos.
Próximo à capela ficam as instalações da tradicional Festa da Hortaliça, cuja 17ª edição acontece no primeiro domingo de junho próximo. No local, onde funciona o clube social do Rachadel, estão em andamento as obras de 18 novos banheiros para o evento, cada vez mais concorrido. Por ter estado na lavoura até aquele momento, Luzia foge das fotografias, mas não deixa de continuar sendo atenciosa.
      

Depois da serra tem o Louro

 No meio existem as serras do Pai João e de Santa Filomena, correndo interior adentro em perpendicular à linha do Litoral. No lado norte, o vale do rio Biguaçu. No lado sul, o vale do rio Maruim.
Os alemães que fundaram São Pedro de Alcântara, em 1829, subiram rio Maruim acima até quase as suas nascentes, estabelecendo a primeira colônia de imigrantes em Santa Catarina. Acontece que lá no alto, onde se dividem as duas serras, foi aberta uma estrada, por onde seguiram famílias para criar um núcleo da mesma Colônia, na localidade do Louro.
Foi nesse local que se estabeleceu em 6 de maio de 1830, o próprio diretor da Colônia São Pedro, o oficial reformado do 27º Batalhão de Caçadores, João Henrique Soechting, acompanhado da esposa Guiomar da Silva, e do filho Júlio César, além de vários casais de imigrantes.
Ao atravessar as serras que dividem as duas bacias, esses alemães foram parar nas nascentes do rio Biguaçu. Desse modo, ao contrário dos que povoaram São Pedro, eles foram descendo e se espalhando pelos vales menores dos cursos formadores do rio que foi navegável por muitas décadas. Seguiram até a foz, estabelecendo armazéns e portos, na região da atual sede de Biguaçu.

 É por isso que lemos numa placa na capela de São Pedro Apóstolo, padroeiro do Louro, a seguinte informação: “Capela do Louro – Berço do Município de Antônio Carlos”. Assim, quando chegamos a Antônio Carlos pela SC-408, devemos ter em mente que não foi esse o caminho trilhado pelos primeiros povoadores. Outra placa na praça central do município dá o devido crédito a Soechting, como o pioneiro fundador da cidade.
Esse caminho histórico ainda existe, ligando as localidades de Santa Filomena e Santa Bárbara, em São Pedro, ao Louro, em Antônio Carlos. Apesar das ligações familiares entre os dois lados das serras, os imigrantes adotaram caminhos distintos para o escoamento da produção. Mais tarde, no século 20, a localidade do Louro foi incorporada ao município de São Miguel (atual Biguaçú), separando política e administrativamente os dois aglomerados humanos.
 

Portugueses, africanos e alemães

 A região não era despovoada. Os indígenas Xokleng habitavam a região, tendo sido expulsos na maioria dos casos, mortos, ou eventualmente assimilados. Por volta de 1845, foram doadas grandes áreas de terras (sesmarias). Cândido Machado Severino, um abastado político de origem açoriana, por exemplo, construiu e manteve um engenho de farinha na Vargem do Machado (atual Usina Pirabeiraba).




Simultâneamente, Manoel Antônio de Farias e João Antônio de Farias, ganharam concessão no vale do rio Farias, enquanto Francisco Rachadel se estabeleceu como lavrador e tropeiro na mesma região. E tantos outros, dedicados à produção de farinha de mandioca, mediante a mão-de-obra escrava de origem africana que não foi pequena. Reitz cita a existência de 146 propriedades com mais de 10 escravos. 
A região abrigou a Colônia Ledopoldina, criada em 24 de fevereiro de 1848 com imigrantes germânicos e belgas, mas que não prosperou. Aos poucos, as terras na localidade de Faxinal foram sendo abandonadas, e seus ocupantes buscaram outras alternativas. Mais tarde, os imóveis localizados nas nascentes dos rios Rachadel e Farias, foram adquiridas por descendentes dos imigrantes vindos de São Pedro de Alcântara e outros.

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SAIBA MAIS

Dados históricos

 O nome do município é uma homenagem feita pelos revolucionários vitoriosos de 1930, ao político mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (decreto estadual nº 24, de 9 de dezembro de 1930). Tentaram mudar o nome, mas a emenda ficaria pior que o soneto, como foi proposto, e resolveram não mexer em nada.
A lei municipal nº 121, de 15 de julho de 1919, criou o 4º Distrito de Paz no Louro, desmembrado do 1º Distrito (Biguaçu). A instalação do Distrito simbolizava a autoridade, o poder político e administrativo, garantindo a liderança do Louro sobre as demais localidades.
Por interferência dos políticos vitoriosos em 1930, a sede do Distrito foi transferida do Louro para a localidade de Encruzilhada. Na mesma ocasião, a Agência Postal e o Tabelionato foram transferidos em 9 de dezembro de 1930 para atual sede do município.
O decreto estadual nº 489, de 15 de fevereiro de 1934, leva a sede do 4º Distrito de volta para o Louro, assim permanecendo até 1938.
Pelo decreto-lei estadual nº 86, de 31 de março de 1938, Antônio Carlos é elevado a Vila. A localidade do Louro perde o 4º Distrito de Paz, passando para a atual sede.
O município de Antônio Carlos foi criado pela lei nº 926, de 6 de novembro de 1963, desmembrado de Biguaçu, sendo instalado em 23 de dezembro do mesmo ano, com a presença do governador Celso Ramos. Teve as seguintes denominações: Rio Biguaçu, Biguaçu do Meio, Alto Biguaçu, Encruzilhada e Coração de Jesus (este último usado pelos moradores da região central).


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GUIA

 Grutas
Nossa Senhora da Glória (Morro da Glória)
Nossa Senhora das Graças (rua Antônio Pedro Scherer - Santa Maria)
Nossa Senhora de Lourdes (rua Antônio J. Zimermann – Louro)

Igrejas
Matriz |
Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, benta e inaugurada em 1967, erguida pelo construtor e mestre-de-obras Antônio Baumgarten, o mesmo que construiu a matriz de Biguaçu e a capela do Louro. As torres possuem 50 metros de altura. A imagem do Sagrado Coração de Jesus foi adquirida em 1959 por Luiza Pauli Besen.
Santa Maria | Fundada em 27 de agosto de 1929, restaurada recentemente, reinaugurada no dia 10 de abril de 2005. O altar-mor foi esculpido na Alemanha. Junto há um cemitério de valor histórico, com cruzes esculpidas em madeira e ferro e lápides escritas em alemão.
Rachadel | A nova capela do Bom Jesus do Rachadel será inaugurada em abril próximo, mas que já pode ser visitada.


 Parques aquáticos (*)

Arco Íris | Rua Matias Petry Júnior - Canto dos Petry. Fone | (48) 3272-1205.
Site| www.parqueaquaticoarcoiris.com.br.
Beira Rio | Rua Aloísio Matias Guesser - Braço do Norte. Fone | (48) 8403-2770.
Junckes | Rua Leopoldo Freiberger – Louro. Fone | (48) 3272-1082.
Recanto da Natureza | Rua Antônio Weber – Canudos. Fone | (48) 3272-1293.
Recanto do Sol | Rua Padre Carlos Guesser – Rio Farias. Fone | (48) 3243-2039. Site: www.parquerecantodosol.com.br.
Usina d’Água | Rua Antônio J. Zimermann – Usina. Fone | (48) 3272-1257.

(*) Todos os parques funcionam diariamente de outubro a março e possuem restaurantes. 

Hospedagem
Pousada Fazenda Ipê | Rua V de Dezembro, 3300 – Santa Bárbara. Fone | (48) 3272-1473
Usina d’Água (cabanas) | Rua Antônio J. Zimermann – Usina. Fone | (48) 3272-1257.

Alimentação
Paralelo 22 |
Rua Daniel Petry, 114 (Centro). Terça a domingo a partir das 17 horas. Cardápio, lanches em geral e pizzaria. Serve foundues no inverno. Fone | (48) 3272-0079.
Rapa de Tacho | Restaurante e churrascaria. Avenida João Antônio Besen, 1376 (Centro). Diariamente das 11 às 14 horas. Espeto corrido, comida caseira, recheio colonial, pratos quentes e frios. Fone | (48) 3272-1208.

Fontes | 
Prefeitura de Antônio Carlos.
REITZ, Raulino. Alto Biguaçu. Florianópolis: Lunardelli/Editora da UFSC, 1988
KREMER, Rogério. Datas históricas de Antônio Carlos. Florianópolis: Papa-Livros, 1993. 

 

 

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