Repórter Historiador

Os alemães chegaram - parte IV




Bem vindo a Santa Isabel

 Hospitalidade talvez seja a característica mais acentuada de Santa Isabel, antiga colônia alemã criada em 1847, no município de Águas Mornas, distante cerca de 50 quilômetros de Florianópolis. A começar pelo lavrador Alfredo Velly, 62 anos, que reside próximo ao portal de acesso à localidade, na verdade um complexo residencial e agrícola impossível que chama a atenção de quem está chegando.
Após observar de longe o clic-clic do fotógrafo Marco Cezar, o lavrador circulou pelo bem cuidado jardim, como quem não quer nada, fazendo de conta que cuidava das flores e arbustos. A um primeiro aceno, entretanto, ele abriu os braços para uma conversa. “Se a gente abandonar fica feio”, diz, ao ser elogiado, pelo excelente estado de conservação das edificações – a principal de 1927. As instalações são vistas do alto por quem deixa a rodovia BR-282 e se dirige a Santa Isabel. O verde claro das construções se destaca do verde mais escuro do milharal e do vale cortado pelo rio dos Bugres, afluente do rio Cubatão.

 A casa principal foi construída por Francisco Pedro Cunha, que deixou a marca F. P. K. na parede, onde sua família residiu por muitos anos.O proprietário seguinte foi Rivaldo Heinzen, morando por quase quatro décadas. Uma de suas filhas, Olinda, se casou com Alfredo Velly. “A casa chegou a ficar caindo aos pedaços, mas nós reformamos há três anos”, conta Velly. O abrigo de um casal de João-de-barro foi mantido e a entrada pintada também de verde. “Eles fazem a casinha e depois abandonam, então outros passarinhos como os canários, ocupam”, observa.
Natural de Fazenda do Sacramento, em Águas Mornas, Velly tem a ajuda dos três filhos e da esposa na lavoura, ocupando as minguadas horas de folga nos cuidados do jardim, cuja beleza recepciona quem chega. No outro lado de Santa Isabel, após a sede onde ficam as igrejas católica e luterana, outro homem com 60 anos de idade e pai de três filhas, trabalha e se expressa de outra forma, esbanjando igual hospitalidade.

 Pedreiro de mão cheia desde a juventude, Raimar Luiz Scheidt sofreu uma queda de sete metros do alto da igreja de Teresópolis – outra antiga colônia alemã no município de Águas Mornas. Paraplégico e impossibilitado de continuar na profissão, amargando uma profunda angústia e se sentindo inútil, passou a bolar uma saída para seu drama. Ela se materializou numa oficina de artesanatos, brinquedos e objetos utilitários, o que além de mantê-lo ocupado, garante uma boa receita.


 “Eu não podia fazer mais nada”, lembra, enquanto mostra aos visitantes o amplo galpão, dividido em vários espaços, todos muito bem equipados para os diversos fins, como marcenaria, pintura, secagem e exposição, entre outras peças. É ali que ele manipula madeiras de pinus, cedro e Angelim, transformadas em brinquedos diversos, como caminhões, banquetas, lixeiras, cadeiras, baús, porta-espeto, cadeiras e molduras, tábuas de carne e frios, entre outros objetos. “Eu faço as coisas e a minha filha pinta”, explica, se referindo a Marlome, 27 anos. Na despedida, Raimar ganha exemplares da revista Mural e nos deixa o telefone para contatos (91621661).


Dona Selma,  guardiã da memória


 Na entrada como na saída de Santa Isabel topamos com personagens cuja hospitalidade, aliada à força de vontade, capricho e satisfação no fazer as coisas, nos dão uma pequena noção de quem sejam os moradores dessa antiga colônia de imigrantes alemães. Orientados pelo historiador Toni Jochem, procuramos dona Selma Scheidt Rassweiler. Fomos atendidos por um de seus netos que, sem perguntar quem éramos, nos mandou entrar pelos fundos direto à cozinha da casa.
Dona Selma nos recebe com muita simpatia.

 Nascida no dia 13 de fevereiro de 1925, sustenta a memória viva daquela comunidade, viúva do professor Christian Rassweiler, falecido em 22 de fevereiro de 1987. Após a conversa inicial, dona Selma revela ter cursado apenas quatro anos de uma antiga Escola Alemã de Santa Isabel. É pouco? Então experimente transcrever textos em alemão, no estilo gótico, para o alemão corrente, como ela fez nos 12 livros com cerca de 15 centímetros de altura da igreja luterana local. “Levei três anos para fazer a transcrição e os livros foram enviados para restauração. Só falta fazer a tradução para o português que eu não tive tempo”, conta.
Aliás, livros que estiveram enterrados durante muitos anos, para evitar que fossem levados pelos homens da campanha de nacionalização na época da Segunda Guerra, quando as escolas de língua alemã foram fechadas e o idioma de Goethe proibido, drama que envolveu descendentes de imigrantes de outras nacionalidades. “Meu marido que era professor de alemão teve que fugir e se esconder para não ser preso”, exemplifica dona Selma.

 Porque o interesse pela memória de Santa Isabel? “Meu bisavô, João Philippi Scheitd, veio da Alemanha em 1847 e se tornou o líder dessa comunidade. Foi ele quem construiu em 1860 a igreja luterana que ainda existe, apesar de algumas modificações”, explica. E foi ouvindo de seus avós e seus pais os relatos das amarguras e alegrias da colonização, que ela se interessou por essa memória.
Além de ter ouvido, viu e acompanhou muita coisa, como a matança dos indígenas locais. “Eles moravam nas margens desse rio que tem o nome de Bugres por causa deles”, ensina. “Certa vez eu vi passar um grupo desses índios que estava atrás do Martinho Bugreiro. Não perturbaram a gente. Só queriam o Martinho e os homens dele”. Martinho foi o “caçador de bugres” mais notório em Santa Catarina.
“Tinha também o João Bugreiro, que acabou morto lá no sul do Estado. Naquela época eles traziam a cabeça para provar e receber o pagamento”, assinala. João, segundo ela, foi levado por indígenas, ainda pequeno, depois de seus pais serem mortos durante um ataque. “Ele ficou lá todos esses anos, aprendeu tudo com eles, mas sempre pensando em vingança. Quando pode fugiu e passou a viver da caça ao bugre”. Pares de orelhas também serviram como comprovante da matança.  


Vinho de alemão


 O vencimento de professor era insuficiente para que Christian Rassweiler sustentasse a família – ele, a esposa e os seis filhos. Certa vez, decidiu ir a Urussanga, no sul do Estado, conseguir algumas mudas de uvas apropriadas para a fabricação de vinho. Ao retornar, instalou um parreiral e abriu a antecessora da atual Cantina Roberto, que continua em atividade.
“A receita é alemã”, diz o filho de Christian, Roberto, que não entra em detalhes, preferindo oferecer um cálice do líquido precioso, fruto de uma única safra anual, “sempre em meados de junho, depois de uma geada”, explica. Tinto ou branco, o vinho é vendido diretamente aos consumidores, que se deslocam até Santa Isabel.
No ano passado, foram produzidos dois mil litros de vinho, média que se mantém. “Todo o processo é artesanal e vai continuar assim”, garante Roberto, que trabalha auxiliado pelo filho Júnior. “Não vai nenhum produto químico. Inicialmente o único conservante é o açúcar e depois o próprio álcool”, na faixa de 11º a 12º. Uma garrafa adquirida na Cantina custa R$ 5,00.
Os Rassweiler são os mesmos von Rostov, fidalgos que ocupavam um castelo na fronteira entre a Alemanha e a França Conflitos políticos e sociais no lado germânico, os forçaram a trocar de nome e ganhar a vida na África, explorando diamantes. “Eles eram criadores de cavalos de raça, mas na região em que moravam existiam muitos lapidadores de pedras semipreciosas, e ourives. Na década de 1860 os antepassados de meu marido chegaram a Santa Isabel”, assinala dona Selma. 

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 Colônias de imigrantes germânicos no vale do rio Cubatão

1836
COLÔNIA VARGEM GRANDE
         
 * Lei nº 11 (5.5.1835). Cria as colônias de “Pocinho” (Vale do Itajaí) e “Tabuleiro” (vale do Cubatão).

 * 1836. As primeiras 11 famílias de imigrantes germânicos instalados na Colônia São Pedro de Alcântara, se transferem para a Colônia Vargem Grande.

* Em 21 de julho de 1837, o Governo Imperial suspendeu as concessões de terras feitas pelo Governo do Estado. 

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                                               1847
 COLÔNIA SANTA ISABEL

* Criada com imigrantes da região do Hunsrück, no atual estado da Renânia-Palatinado (Alemanha).

* Ocupam a sede da colônia e as linhas coloniais de Löffelscheidt e Primeira Linha.

* 1860. Chegam novos imigrantes que ocupam Segunda Linha, Terceira Linha, Quarta Linha, Quinta Linha, Rancho Queimado, Linha Scharf e Taquaras.

* 1867. O comissário do Governo Imperial, Ignácio da Cunha Galvão, reconhece: “Os colonos vivem todos, se pode dizer, na maior miséria... o terreno inteiramente montanhoso e pouco produtivo, não fornece o necessário para o sustento; o serviço do governo nas estradas é um elemento que não podem dispensar para subsistir; vivem principalmente destes salários e da exportação de manteiga, prestando-se o terreno sofrivelmente para pastos. (...) Grande número tem abandonado seus lotes e procurado outras colônias... Nunca se deveria ter colocado colonos em semelhantes terras”.

* 1869. As colônias são emancipadas e os funcionários exonerados (lei provincial nº 628). “ A partir de então, ao invés de diretor, o governo passou a nomear um subdelegado de polícia para prestar serviços à população”. (Toni Vidal Jochem)

* Santa Isabel se torna Distrito em 6.9.1886 (lei nº 1.176) junto com Teresópolis. Em 22.9.1902, vira Distrito independente. Mais tarde a sede foi fixada na então localidade de Rancho Queimado (hoje município).

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1860
COLÔNIA TERESÓPOLIS (*)

 * Criada em 3 de junho de 1860, com imigrantes alemães católicos e luteranos, a maioria da região da Renânia e Westphalia. Já estavam no Brasil trabalhando na colheita do café.

* A sede da colônia foi berço da Restauração da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, da Ordem dos Frades Menores (franciscanos).

* As terras eram impróprias para a agricultura. A produção da colônia, em 1863, se limitava a batata, milho e feijão. A cana-de-açúcar, o algodão e o café, devido ao clima, não se adaptaram.

* Distrito de Paz em 6 de setembro de 1886 (lei nº 1.176) incorporando as povoações de Santa Isabel, Capivari e Rancho .

* Uma das linhas colônias de Teresópolis (Capivari), deu origem ao atual município de São Bonifácio.

 * Em 31 de dezembro de 1943 a denominação Teresópolis foi mudada para Queçaba.

* Teresópolis possuía cartório civil, delegacia, igrejas católica e luterana, correios e telégrafos, hotel, farmácia, estação meteorológica, lojas e centenas de residências.

* Em 19.12.1961, o Distrito de Queçaba foi emancipado de Santo Amaro da Imperatriz, tornando-se município (lei estadual nº 790). A sede foi deslocada de Queçaba para a localidade de Águas Mornas.

* Em outubro de 1974, o antigo núcleo colonial voltou a ser chamado Teresópolis (lei municipal nº 85).

Fonte|
Toni Vidal Jochem, autor e organizador de vários livros sobre a imigração alemã na região de Florianópolis. Confira em http://www.tonijochem.com.br/index.htm. Atualmente trabalha as anotações de Vendelino Meurer sobre a história de Antônio Carlos.

(*) Quase não existem vestígios dos tempos gloriosos. Até a antiga igreja católica foi demolida. No mesmo lugar surgiu outra igreja em estilo arquitetônico de gosto duvidoso. (CM)


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 DICAS

* A BR-282 está em boas condições até o trevo de acesso a Rancho Queimado. Em muitos pontos não existem acostamentos e o leito da pista apresenta desníveis.

* Não existem restaurantes ou meios de hospedagem nessas localidades, serviços que devem ser buscados em Santo Amaro da Imperatriz (ou Caldas), Águas Mornas ou Rancho Queimado.

* Mais detalhes em| http://www.portalsantoamaro.com.br/aguasmornas.php e http://www.ranchoqueimadosite.com.br/.

 

 

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