TPM - Taty Paty Matias

Começo, meio e...

 

 Eu não sei começar nada. Se fosse listar a quantidade de atividades que já pensei em fazer, daria páginas de Word. E acho que isso vem de berço. Lembro-me vagamente de estar no piso gelado da cozinha, observando minha mãe mexer no fogão – que eu pensava se tratar de uma máquina mágica de fazer papinha, mas que depois se tornou para mim a máquina maldita de fazer sumir minha mãe – mas estava lá no piso frio, engatinhando e pensando que devia aprender a andar de uma vez. Na época, eu tinha uns 10 meses. Aprendi a andar com 2 anos e meio. Depois disso, um pouco mais crescida, chupava dedo em vez de bico para me fingir de mocinha que não precisava de chupeta. Eis que o dentista me dedura para minha mãe: "a menina está chupando dedo, veja a dentição... os dentes estão crescendo tortos". Apavorei-me. Decidi: vou parar de chupar o dedão. Larguei o vício, entretanto, a duras penas, somente aos 12 anos de idade, flagrada pelo garoto que eu gostava quando estava dormindo na casa de sua irmã – fato que me rendeu o apelidinho de Mônica até a oitava série. E por falar nisso, na escola, aula de música: optei por teclado. O instrumento do vagabundo na escola. Aquele que não quer ter muito trabalho. Tocava "Noite Feliz", "Parabéns pra você" e uma música de natal estrangeira, inútil. Mas nunca, nunca passei disso. Olho hoje para aquelas teclas como se jamais tivesse tocado o instrumento. É que só fiz um mês de aula. Eu não tinha como pagar. Depois reparei que, por conta da Educação Física do colégio, estava ficando meio masculina. Achei melhor fazer aula de dança. Fiz uma experimental de axé, dança de salão e lambada (na época, meu bem, era moda). Nunca mais freqüentei as aulas, e ainda me senti vitoriosa por não ter pagado nada por elas e ter aprendido alguns passos. Tolice, aprendi coisa nenhuma! Na valsa de formatura, não sabia como começar a dança (dois pra lá, dois pra cá... mas “pra lá” é esquerda ou direita?), pisei no pé do Diego umas três vezes (três pra lá, três pra cá). No pé do Diego, um dos mais gatos do colégio! Que mico! Depois disso, fiquei sabendo que ele fez piada sobre o episódio, como se eu fosse gorda e ele tivesse sido massacrado a cada pisada. Então, acabei não indo nas primeiras semanas de faculdade. Decidi fazer regime antes. Aí, fiquei em dúvida se simplesmente cortava os doces, se fazia a dieta da sopa da Ana Maria Braga (na época, também era moda), a da Lua ou a da Gisleine. É, a dieta da Gisleine, uma empregada “boa de fogão” que a gente tinha lá em casa. A dieta dela se baseava, na verdade, na única coisa que o sabia cozinhar: risoto. Só mudava o ingrediente principal: risoto de frango, abobrinha, brócolis. Por causa disso, minha mãe me pediu para demitir a Gisleine. A mulher trabalhava lá em casa há sete anos. Mamãe a chamou para conversar. Nós três sentadas na sala. Ela disse: “Opa, estou atrasada para trabalhar. A minha filha te fala o assunto. Tchau, moças!”. Fiquei boquiaberta. Como não sabia iniciar a abordagem, optei por comunicar o fato: “você está despedida”. Ela me roubou todas, todas as minhas polainas. Eu fazia coleção (tudo bem, já não era mais moda) de polainas coloridas. Ela me levou todas com a desculpa de que havia as botado para secar sem os grampos de roupa e elas voaram. Poupe-me! Até hoje, quando lembro disso, fico com raiva da Gisleine. Mas sinto mais raiva de mim mesma, que não soube introduzir o assunto delicadamente. Quer dizer, eu devia ter dito alguma coisa depois de “você está despedida”. Algo do tipo, “mas nós te adoramos, o problema é o risoto”. Depois disso, pensei em fazer um curso de oratória – 30h/a. Até freqüentei as primeiras duas horas. Mas, então, nos pediram para recitar um poema com expressões faciais. Eu lá sei recitar poema? O único poema que me vem à cabeça é “batatinha quando nasce”. Como é que se expressa facialmente uma cara de batata? Fui obrigada a desistir do curso sentindo-me, além de péssima oradora, uma aculturada. Resolvi passar em uma livraria e comprar um Fernando Pessoa básico: antologias. Virou meu livro de banheiro. Só folheava na hora do número II, e como raramente eu tinha condições de fazer o número dois com as mãos livres (uma certa prisão de ventre me impossibilitava de abrir as mãos), então, sei lá, nunca terminei aquele livro. Aliás, pensando por esse ângulo, acho até que meu problema não esteja em “começar”. Eu não sei é terminar nada. Deve ser por isso que eu coloco essas musiquinhas ao final dos textos.

“Quando nasci, veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errada assim
Já de saída, a minha estrada entortou
Mas vou até o fim...”
 

 

ABALADA NA BALADA
Ai, que engraçado!
É NO PAGODE
VAI DAR CARNAVAL
Pára tudo!
       
 
   
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