TPM - Taty Paty Matias

Manhê!





 Ser mãe é uma correria. Eu sei, eu sei que ficar definindo "ser mãe", "ser pai", "ser filho" é um clichê quase insuportável. Mas resumidamente ser mãe é uma correria. Insisto nisso não porque seja mãe. Tampouco uma filha adorada. Repito correria porque: mãe corre para fazer o café, preparar o banho do filho, tirá-lo da cama, trocar sua roupa – ou convencê-lo a fazer, o que é mais demorado – instigá-lo a mastigar-engolir mais depressa, dar os últimos avisos a caminho do colégio – enquanto corre para levá-lo à escola: "não vá sujar o uniforme, eu acabei de tirá-lo da máquina e, por favor, esse tênis não é pra jogar futebol, a chuteira tá na mochila, meu filho, espera, dá um beijo na mãe... isso, agora entrega este papel pra professora, ela reclamou que você está desconcentrado, vê se presta atenção nessa aula, querido, que a mãe tá pagando uma nota pra... tá, meu filho, tá, tchau, vai! Que cara amarrada! Entra lá, a diretora está fazendo um sinal impaciente. Filho! Volta, volta... você pegou a bombinha? Pegou mesmo? Você não pode ficar sem o Aerolin, pelo amor de Deus! Hoje eu tenho reunião, estarei incomunicável pelo celular por algumas horas... Ah, a reunião! Oh, céus! Tchau, filho, vai direto pra sala. Anda, querido, deixe de ser molóide! E te concentra". Então, a mãe corre para o trabalho, enfrentando o acaso como uma guerreira: no trânsito ("Anda, cretino, anda! Tá passeando de carro no centro da cidade agora, tá? Tartaruguinha do deserto!"); no estacionamento ("Como não tem vaga? Como?! Eu pago a mensalidade dessa p..."); no elevador ("É, né, quanto tempo! Eu estou em outro setor agora, por falar nisso... quê? Ah... urrum... ãrram... é, mas eu... sei, sei... sério? Olha, eu... ah, tá, mas estou atrasa... quê? Poxa, que barra! Sinto muito por sua vó, mas..."); na própria sala ("A reunião começou sem mim? Como assim há 16 minutos?! Eu estou apenas... 25 minutos atrasada"). Em meio à correria, o teatro cômico-trágico diário esboçando sorrisos e pesares, abafando revoltas internas que brotam depois em forma de espinhas, rugas de expressão, cabelos brancos – celulites?! Ora, ora... voltemos à correria que é, na hora do almoço, buscar o filho no colégio, levá-lo para casa; no caminho tem que dar atenção: "O que aprendeu hoje? Hein? Tô falando com você. Que isso no uniforme? Que molho é esse, Carlos Augusto?! Ai, meu Deus... mas você nem devia ter comido essa coisa gordurosa de manhã, filho, quero só ver agora no almoço... nada de bolacha recheada à tarde toda, hein, mocinho... você aprendeu sobre gordura trans? Muito bom, muito bom... na bolacha tem, sim... não, meu filho, não tem no meu xampu de cupuaçu... não sei, Carlos Augusto, a mãe é uma ignorante em matéria de gordura trans... amarre os cadar... pronto! Maravilha: pisoteou os cadarços limpinhos!". Entra em casa, corre para esquentar o almoço que ontem deixou pré-cozido; o filho mastiga à vontade, a mãe faz força para engolir pela metade; recepciona a empregada (só tem dinheiro para pagar por aquele meio período: ela não limpa nada, só cuida do filho e fofoca ao telefone; a conta veio em 250 reais no mês passado, mas é tão difícil encontrar alguém de "confiança" hoje em dia). A mãe guerreira enfrenta tudo novamente, o caos do trânsito, os transeuntes, os parentes – sempre há um parente extraviado pela rua que conta com você para alguma coisa no momento mais inoportuno, e mesmo que não fosse, se tornaria pela chatice que é prestar auxílio a um parente "distante"), as filas – porque mãe deixa de almoçar para pegar fila em banco e em casa lotérica, no horário de almoço, que na verdade significa "horário de tarefas fora do escritório". E quando sai do trabalho, tenta manter a correria, mas todos os caminhos que levam à sua casa estão atravancados de automóveis, cães de rua, esmoleiros, artistas de semáforo, motocicletas, ciclistas, pessoas saradas caminhando e cuidando do corpo enquanto a mãe desesperada se atraca a um Big Mac – o filho jamais pode saber disso! E chega em casa, o filho não tomou banho, a empregada a aguarda para um acerto de contas, o volume da TV no máximo – um joguinho de luta estridente: TZAAA TA TATATA TARATATA TA – o carteiro trouxe más notícias (a mãe guerreira esqueceu da escola de inglês do filho, devia ter depositado o dinheiro dia 15, mas por que diabos o vencimento da fatura da escola de idiomas era na metade do mês?!); a mãe da mãe (vovó), pra completar, resolveu dar uma "incerta" durante à tarde e reparou no vaso esquecido em um canto da casa (herança da mãe da mãe da mãe, que devia ser mais valorizada: o vaso ficaria bem na mesa de centro da sala, não tivesse ele 60 anos), reparou também que as roupas do menino estão pequenas para ele, que há teias de aranha nos cantos das paredes, que isso e que aquilo, pois repara em tudo a mãe da mãe. A correria se mantém nesse nível caótico até que o filho obedeça e vá para o quarto, após o banho, o pijama, a historinha; até que a mãe se acalme, se alimente, se embriague de chá ansiolítico, meio Lexotan, duas Ave Maria, um Pai Nosso, e boa noite!


 

 

ABALADA NA BALADA
Ai, que engraçado!
É NO PAGODE
VAI DAR CARNAVAL
Pára tudo!
       
 
   
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