Repórter Historiador

Caminhos do Imperador - parte I


                                           Segredos e encantos de Santo Amaro da Imperatriz


Rafting, rapel e vôo livre. Água, terra e ar.

 Santo Amaro da Imperatriz é a capital das águas, das montanhas e florestas e do ar puro, onde a história está presente em cada canto e detalhe, oferecendo ao visitante a diversidade natural e atividade humana nas áreas do comércio, agricultura, serviços e turismo.
Como diferencial, a memória da visita imperial de 1845, ainda presente, pulsando ao lado de esportes introduzidos recentemente no Brasil, como a asa delta e o parapente (anos 1970), o rafting (anos 1980) e o rapel, popularizado em Santa Catarina na década de 1990.

 Os esportes radicais, o turismo das águas e a Festa do Divino convivem fraternalmente com a memória dos pioneiros da região – como Joaquim Alexandre de Campos, os imigrantes de origem germânicas a partir de 1836 e tantos outros. A religiosidade presente na Capela de Santana até meados do século 19, se transferiu para a igreja dedicada a Santo Amaro.
Quem salta do Morro Queimado com uma asa delta ou parapente, vislumbra do alto a riqueza hídrica da região, recortada por pequenos vales e cursos d’água que desembocam no Cubatão, o vale maior. Lá embaixo, todos os anos, há um século e meio, a figura do Imperador e Imperatriz estão presentes nas Festas do Divino – espinha dorsal da comunidade de Santo Amaro da Imperatriz, marco da sua religiosidade.

 Assim, voando, escalando ou se lançando pelas cachoeiras e corredeiras do Cubatão, o visitante respira o ar puro, convive de perto com as águas e as florestas, a fauna. E se mantém em permanente contato com os ecos das lutas entre portugueses e indígenas xokleng pela posse das fontes termais de Caldas da Imperatriz.
Por tudo isso, quem vai embora leva a sensação de que natureza e história, em Santo Amaro, estão na mesma prateleira, fazem parte do mesmo encanto, transmitem as mesmas emoções. O município que abriga a Caldas da Imperatriz, fica a 37 quilômetros de Florianópolis, com acesso pela BR-282.

O Imperador chegou, a Imperatriz também!

Rumo a Caldas do Cubatão

 Quinta-feira, 29 de outubro de 1845. Acompanhado da sempre numerosa comitiva, Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina embarcam às 7h30 com destino a Caldas do Cubatão, hoje Caldas da Imperatriz, no município de Santo Amaro da Imperatriz, passando em São José para um almoço na casa do coronel Xavier Neves. A presença do casal provocou “grande concurso de povo, por entre uma chuva de flores, correspondente ao grande número de foguetes lançados ao ar”.
Terminado o almoço muito “bem preparado”, os dois tomaram o rumo de Caldas, cuja estrada estava “de um e outro lado, bordada quase efetivamente de alas, feitas pelos seus moradores de ambos os sexos, e de todas as idades, que mostravam em seus semblantes, misturados com a simplicidade dos costumes campestres, a sincera amizade e adesão ao nosso Imperador e à nossa Imperatriz, a admiração, e júbilo, que os arrebatava, pela presença dos Augustos Monarcas em seus lares!”.
A melhoria da estrada entre São José e Caldas do Cubatão foi assumida pelo mesmo coronel Xavier Neves, uma das primeiras providências tomadas ao ser confirmada a visita imperial. “Este trabalho, que o digno coronel levou a efeito", teve o “espontâneo e gratuito serviço de 1200 cidadãos, que concorreram ao convite do diretor”, serviço que abrangeu “todas as pontes e caminhos do município de São José”.
O povo que ladeava a estrada proporcionou um espetáculo à parte, ricamente ilustrado pelo linguajar da época. “Reconhecia-se nesses semblantes o êxtase de que se achavam apoderadas almas tão puras! Viam, e ajoelhavam-se ante o PAR Excelso; lançavam-lhe com suas próprias mãos um aluvião de flores; saudavam-no com incessantes Vivas”.
As pessoas, segundo o mesmo cronista de “O Relator Catarinense”,  “ouviam com seus ouvidos as meigas e doces frases, que Ele lhes dirigia; pegavam, levavam a seus lábios, beijavam, e inundavam com lágrimas de prazer as Mãos sagradas dos Monarcas e parecia-lhes um impossível o que viam, o que ouviam! Parecia-lhes um sonho o gozo, que estavam tendo, a felicidade e honra que desfrutavam!”

Fotos| D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina na década de 1840. Óleos atribuídos a François René Moreaux. Museu Imperial de Petrópolis-RJ. In VÁRIOS. Grandes Personagens da Nossa História. São Paulo: Abril Cultural, 1969. (vol. 3, p. 483) Reproduções Marco Cezar.

“Gozou de igual prazer”

 Por volta das 14 horas, chegaram à Fazenda Santana, na então localidade de Cubatão (atual sede de Santo Amaro da Imperatriz), se instalando na casa de Joaquim Alexandre de Campos, fundador da cidade e responsável pela guarda da fonte de Caldas. Ali foi servido um jantar que o mesmo coronel Neves “tinha feito preparar com a possível profusão”.
Jantados e descansados, continuaram a jornada, chegando ao entardecer no Passo do Rio Cubatão, imediações da atual ponte de acesso a Caldas, onde se achava uma “jangada decentemente arranjada, e tapisada”, quer dizer, coberta por tapetes, com duas cadeiras em que “os Augustos Monarcas” puderam se sentar para a travessia do rio. A embarcação foi conduzida até a outra margem por 16 homens que entraram na água para realizar o transporte. Já era noite quando percorreram o último trecho do caminho até Caldas.
No percurso o casal deve ter pensado na chegada ao Passo do Cubatão, com características de apoteose: o local estava guarnecido de “arcos com festões de flores silvestres presos nas palmeiras fincadas em alas, entre as quais se via um grande número de habitantes do lugar, sendo a maior parte moças”, todas trajadas “com bastante aceio”. Elas receberam o casal lançando flores “com profusão, acompanhadas de Vivas”, repetidos do outro lado do rio, por igual número de pessoas.


Exaustos, o Imperador e a Imperatriz chegaram finalmente ao destino, onde usufruíram uma “bem servida ceia, e outras comodidades que, de certo, não sem grandes dificuldades ali se pode providenciar”. Tudo foi coordenado pelo comendador Marcos Antônio da Silva Mafra, e “quem conhece a posição das Caldas, deve bem aquilatar o trabalho e dificuldades, que se apresentaram a este digno cidadão, mas que teve forças para superar”. O hotel estava em obras e as banheiras de mármore só seriam instaladas alguns anos depois.
Pedro e Teresa Cristina ficaram hospedados “na casa principal do estabelecimento de que é Protetora a Augusta Imperatriz dos Brasileiros”, enquanto “uma grande parte da comitiva, convidada pelas fadigas da jornada, e intenso calor de todo o dia, deu-se ao prazer dos banhos, na mesma noite”.
No dia seguinte o casal visitou o hotel, na época com características de hospital, “mostrando-se satisfeitos com o que encontraram”. O Imperador “se entregou por algum tempo a algumas observações termométricas, e em conservações a este respeito”. Depois “quis banhar-se, não nos banhos quentes, mas no ribeirão das Águas Claras, onde se lhe arranjou de momento uma espécie de barraca”, abrigando também a Imperatriz que “gozou de igual prazer”.
Enquanto esteve em Caldas, o Imperador Pedro II se avistou com dona Vitória, “moradora no Cubatão, de mais de 90 anos de idade”, que teve a “bem ventura de chamar a atenção” do casal imperial, “dando as mãos para que fossem beijadas”. Bastante conhecida na região e “estirpe de uma imensa prole”, cujas “virtudes e caridade”, emocionou o casal. No dia seguinte, todos partiram depois do almoço, às 8 horas. “A passagem do Cubatão fez-se pela mesma forma” que na chegada, indo o casal jantar na casa de Joaquim Alexandre de Campos, antes de partir rumo à capital catarinense.

Fotos| O casal imperial na década de 1870, em Nápoles (Itália). Fotos de Francisco Pesce. In VÁRIOS. Grandes Personagens da Nossa História. São Paulo: Abril Cultural, 1969. (vol. 3, p. 488) Reproduções Marco Cezar.


O pincel de Rafael

 “Quiséramos poder descrever com as próprias cores”, diz o cronista de “O relator Catarinense”, tanto a “recepção dos Augustos Monarcas em toda a extensão desde São José até as Caldas, como a sensibilidade, que o conjunto de circunstâncias, dadas nessa jornada, foram capazes de produzir no animo de todos os observadores”. Entretanto, “já que nossa insuficiência tão longe disso nos retém, contentamo-nos com narrar os fatos despidos de atavios, e somente ornados com as vestes cândidas da verdade”.
O passeio a Caldas, segundo o cronista, “apresenta um extremo agradável, e bem digno de ser traçado pelo pincel de um Rafael, ou de um David! Quadro em extremo demonstrativo do ano, e da fidelidade Catarinense para com seus Pios e Benfazejos Monarcas!”, diz. “Quadro, enfim, que atravessará, com as cores sempre vivas, a extensa região dos tempos; porque aqueles, que o presenciaram, desenhá-lo-ão a seus netos, e estes aos netos de seus netos”.

 Concluindo, diz o cronista que “os Nomes, a Benignidade, e Munificência do Senhor D. Pedro Segundo e da Senhora D. Teresa Cristina de Bourbon serão indeléveis em todo o sempre na memória do povo catarinense”.
Tanto na ida a Caldas como na volta, “não cessaram de distribuir generosas esmolas a todos os pobres, que tiveram a ventura de aparecer-lhes”. Nove meses depois da visita a Caldas, em 29 de julho de 1846, o casal imperial viu nascer a Princesa Isabel, fato até hoje comentado em Santo Amaro da Imperatriz. Alguns marcos lembram até hoje a presença de Dom Pedro e Dona Teresa Cristina, principalmente nas denominações de casas comerciais, empresas prestadoras de serviços e da água mineral, entre outros, como o próprio nome da cidade.

D. Pedro e D. Teresa Cristina

 Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, mais conhecido por D. Pedro II, nasceu no Rio de Janeiro em 1825. Teresa Cristina Maria Giuseppa Gaspare Baltassare Melchiore Gennara Francesca de Padova Donata Bonosa Andrea d’Avellino Rita Luitgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde de Bourbon Duas-Sicílias, natural de Nápolis (Itália), nascida em 14 de março de 1822, a futura Imperatriz Teresa Cristina.
Ele era filho de D. Pedro I e da Imperatriz Leopoldina, ela de Francisco de Bourbon, na época príncipe herdeiro do Reino das Duas Sicílias, mais tarde Francisco I, e de Maria Isabel de Bourbon. Tendo assumido o trono em 18 de julho de 1841, com apenas 15 anos de idade, se casou com Teresa Cristina em 30 de maio de 1843, através de procuração. Eles só foram se conhecer em 4 de setembro, 96 dias depois, quando ela desembarcou no Rio de Janeiro.

 Ao visitar Caldas, o Imperador estava com 19 anos e a Imperatriz com 23. Os dois estavam apenas iniciando uma jornada que incluía construção da própria idéia de Nação brasileira, consolidando o Estado nacional surgido com a Independência de 1822.
Proclamada a República em 15 de novembro de 1889, a família imperial teve que deixar o Brasil dois dias depois. Com problemas cardíacos, Teresa Cristina sofreu durante toda a viagem, tendo falecido em Lisboa, no dia 28 de dezembro de 1889, cerca de 40 dias após a partida. O Imperador seguiu para um breve exílio em Paris, onde faleceu no dia 5 de dezembro de 1891, com 66 anos.
Depois dos funerais régios na Franca, seu corpo foi para o Panteão dos Bragança, no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa. Com a revogação da Lei do Banimento, seus restos mortais acabaram transladados para o Brasil, onde repousam em Petrópolis, junto aos de Teresa Cristina. O casal teve os seguintes filhos: Afonso (1845-1847), Isabel (1846-1921), Leopoldina (1847-1871) e Pedro (1848-1850).

       
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