Repórter Historiador

Caminhos do Imperador - parte II

 

Santo Antônio de Lisboa - O ar que se respira

 Em Santo Antônio de Lisboa não se respira apenas o ar puro. Importante pólo gastronômico de Florianópolis, onde o por do sol, o mar, as florestas dos morros dominam a paisagem, o distrito transpira história através de suas edificações centenárias. A religiosidade, a produção artística, o boi de mamão e as memórias das antigas atividades agrícolas e de engenho, são as expressões culturais que marcam o lugar, onde moradores novos e tradicionais ocupam os espaços. A atividade pesqueira voltada principalmente para o camarão branco da Baía Norte, convive com a maricultura implantada na década de 1990, voltada à produção de ostras e mexilhões. O comércio, incluindo bares e restaurantes, os meios de hospedagem e as estruturas náuticas, completam o arsenal de recepção ao visitante, infra-estrutura existente em outros pontos do município.

 Mas o que outros lugares não têm é exatamente a história, a memória e o meio ambiente harmonizados, desde os primeiros ocupantes dessas terras – os homens dos sambaquis, cujos vestígios da presença há cerca de três mil anos ainda são encontrados. Os indígenas do grupo guarani podem ter habitado essas paragens, aproveitando a alimentação farta extraída do mar, das florestas e do manguezal de Ratones.
A presença do luso-brasileiro tem início em 1698, quando o padre Matheus de Leão recebeu da Coroa Portuguesa uma ampla sesmaria (terras), incluindo Ratones e a Lagoa da Conceição. Com ele vieram 20 casais de agricultores, que derrubaram a mata, ergueram choupanas e iniciaram as plantações. Virgílio Várzea informa que essas propriedades foram estabelecidas ao longo da orla, entre a Praia Comprida (Caminho dos Açores) e a Ponta de Sambaqui, embora o historiador Sérgio Luiz Ferreira aponte o sítio da ocupação inicial na região do atual trevo de acesso a Santo Antônio na SC-401.

 A morte do bandeirante paulista Francisco Dias Velho, fundador da cidade, em 1687, deixou a região central da cidade despovoada, mas em Santo Antônio isso não aconteceu. Aos povoadores trazidos por Matheus de Leão se somaram, por volta de 1714, os novos moradores que acompanhavam o sargento-mor Manuel Manso de Avelar. O contingente foi ampliado entre 1748 e 1756, com a chegada de centenas de imigrantes vindos das ilhas dos Açores.
É esse o ar que também se respira em Santo Antônio de Lisboa, distrito criado por Provisão Régia de 26 de outubro de 1751, atualmente com área de 22,45 quilômetros quadrados, envolvendo os bairros de Cacupé, Sambaqui e Barra de Sambaqui. Algumas edificações são desse tempo, como a igreja de Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antônio, um dos poucos exemplares do Barroco em Florianópolis, erguida sobre um terreno doado em 1756 por dona Clara Manso de Avelar, filha do sargento-mor Manso de Avelar.  
    

Faça chuva ou faça sol
O Imperador e a Imperatriz visitam Santo Antônio

 Claro que um passeio por Santo Antônio em dias ensolarados e quentes é muito mais agradável, quando se pode velejar, tomar banho de mar, caminhar por trilhas. Mas existem aqueles que não pensam assim, como o imperador dom Pedro II e a imperatriz dona Teresa Cristina: no dia 21 de outubro de 1845, às 9 horas, eles embarcaram no vapor Imperatriz e enfrentaram a lestada que se armava para chegar até o distrito.
O casal desembarcou por volta das 11h30, sob forte vento, mas “entre vivas entusiastas da população”, como podemos conferir em “O Relator Catarinense”, editado em 1845 pela Tipografia Provincial (Cidade do Desterro), para registrar a passagem dos imperadores rumo ao Rio Grande do Sul, indo dar o toque final na pacificação do pós-Revolução Farroupilha. Uma vez em terra, seguiram debaixo de um pálio conduzido por oficiais da Guarda Nacional, rumo a um Te Deum (missa festiva) na Igreja.

 “Conquanto o tempo ameaçasse chuva, e o vento fosse desabrido”, diz o citado jornal que pode ser encontrado na Biblioteca Pública do Estado, “estava o Arraial, e a Igreja Matriz, apinhados de povo de todas as condições, tomado da mais viva alegria por ver entre eles os seus soberanos”. Durante a visita que ficou profundamente marcada na memória da população local, “o templo estava decentemente ornado”, o que provocou elogios de dom Pedro ao vigário.
“Dirigiu-lhe [ao vigário] algumas palavras significativas do interesse, que por ele tomava, e fez que lhe ficassem provas de sua imperial generosidade”, possivelmente a coroa de prata usada na tradicional Festa do Divino e posteriormente furtada, na década de 1980. “Como principiasse a chover”, conta “O Relator Catarinense”, o casal retornou ao vapor, prosseguindo viagem para a vila de São Miguel (Biguaçu), onde pretendia desembarcar. “Mas sendo copiosíssima a chuva, e arriscado o desembarque” por causa do vento leste, a comitiva retornou ao Centro de Florianópolis (Desterro).

 Se o imperador que era o imperador veio, outros haveriam de vir. Os marinheiros e navegantes embarcados em navios, costumavam ancorar no espaço na região de Sambaqui e Daniela. Quase todos chegavam corridos de alto mar pelas tempestades, buscando abrigo nas baías de Florianópolis, aproveitando para se abastecer de água, madeiras e alimentos. A água passou a ser obtida no final do século 19 de uma calha que descia do alto do morro, onde havia (há) um reservatório. As madeiras eram negociadas com moradores locais, que sabiam onde estavam as árvores mais procuradas, o mesmo acontecendo com os alimentos: muitos peixes e camarões frescos ou secos, farinha de mandioca, algum aguardente e, mais tarde, já no século 20, as famosas rendas de bilros, entre outros produtos. (CM) 
 
 
Tijolos e óleo de baleia
 Mapa da arquitetura histórica

Família Andrade
Conjunto arquitetônico tombado pelo município por solicitação dos proprietários (família Andrade), localizado na Praia Comprida-Caminho dos Açores. Formado por uma residência erguida em 1860 com alvenaria mista e paredes internas de pau-a-pique, junto a um engenho para a produção de farinha de mandioca e aguardente, ainda em atividade. É o exemplar mais significativo da antiga atividade econômica do distrito.

Religiosas
Igreja de Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antônio, Cemitério da Irmandade do Divino Espírito Santo e Cruzeiro ao lado da igreja (originalmente de madeira, substituído por outro de concreto em 1983), todos no Centro Histórico de Santo Antônio. Na Ponta de Sambaqui e na Barra de Sambaqui, também existem Cruzeiros.

 Posto da Alfândega
 Casarão em estilo português erguido em 1854, serviu inicialmente de moradia. No início do século 20 passou a servir como posto avançado da Alfândega, responsável pela fiscalização dos navios que chegavam ao Porto de Florianópolis. Pertence a Receita Federal, cedida em comodato à Associação Bairro Sambaqui (ABS), na Ponta de Sambaqui, em 1985.

Casa da Intendência
Edificação antiga na esquina da rua Cônego Serpa com a praça da Matriz, abriga a várias décadas a Intendência de Santo Antônio, órgão da Prefeitura de Florianópolis.

Casario
Em todo o distrito existem remanescentes da arquitetura luso-brasileira, algumas com características coloniais. Em Sambaqui podem ser vistas três edificações isoladas importantes: a da antiga Alfândega (hoje ABS), edificação no pátio da Marina Marina e a terceira, no canto norte da praia das Flores. Nessa mesma praia existe um conjunto de construções do início do século 20. Em Santo Antônio se mantém cerca de 10 casas com a arquitetura original da segunda metade do século 19 e início do século seguinte. Destaque para o casarão um ruínas em Santo Antônio, onde o casal imperial teria estado na visita de 1845. (CM)


 Diga-me com quem andas
 Pintores, pescadores e escritores

 A população tradicional do distrito ainda é majoritária, envolvida em atividades esportivas (futebol), religiosas (festas do Divino, da Cruz e de Santo Antônio), artísticas (artes plásticas) e dedicada ao comércio, serviços (turismo), maricultura, pesca, profissões liberais, construção civil, limpeza e conservação. A partir da década de 1970, novos moradores começaram a se instalar espaçadamente, adquirindo terrenos com entre 800 e 1.200 metros quadrados de área e mantendo ao máximo a vegetação original e os cursos d’água.


 Assim, ao lado de um pescador como Timotinho Ferreira, existe um escritor como Alcides Buss. Para um maricultor como Zeca Queiroz sempre haverá uma cineasta chamada Tânia Lamarca, uma escritora do porte de Rosana Bond ou um jornalista e escritor do tamanho de Paulo Markum. Entre os artistas que vieram nas últimas décadas e os locais, se misturam Elias Andrade, Carlos Cunha, Janga, Jandira Lorenz, Ely Heil, Neri Andrade e tantos outros. O cronista Flávio José Cardoso avista quase todos os dias o intendente Maurício Meurer, assim como se cruzam o comerciante Feijão e o jornalista Mauro Geres, por exemplo.

 Empresários, profissionais liberais e funcionários públicos, convivem amistosamente com pedreiros, carpinteiros, lavadeiras, diaristas, vigias e balconistas. Sem que o universo mágico dos tempos das bruxas e assombrações tenha desaparecido, quase todos os moradores estão conectados à Internet e assinam TV a cabo, permanecendo ligados tanto no que acontece, como naquilo que passou. Antenados nos novos tempos, usufruem a qualidade de vida pouco observada em outras localidades da Ilha de Santa Catarina.


 A profunda simbiose entre o presente e o ar que se respira do passado, se manifesta especialmente na culinária. Receitas preparadas pelas avós dos atuais moradores para o deleite exclusivo dos familiares, foram levadas aos restaurantes, quase todos com pratos à base de frutos do mar: camarões, peixes e moluscos, acompanhados do tradicional feijão com arroz, farinha de mandioca ou farofa e saladas. Deve ser por isso que os restaurantes da orla estão sempre cheios, especialmente quando o sol começa a se por, continuando noite adentro. Todos atrás do ar que se respira no distrito de Santo Antônio de Lisboa. (CM)

 

 

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