Fala Eficiente

Sob o olhar da vaidade



 Fernando Camuaso Segundo, ou melhor, Fernando Davaidade, ficou cego aos quatro anos de idade em decorrência do sarampo. É angolano, tem 24 anos, dos quais passou os últimos seis em Florianópolis.
Atualmente, divide um pequeno apartamento com outros três conterrâneos – todos deficientes visuais – no Bairro Monte Verde. Mesmo tendo como único recurso visual poder perceber um pouco de claridade, vai diariamente de ônibus até o município de Palhoça, onde cursa o sexto semestre de Jornalismo na Unisul.
Como não bastasse, Davaidade é fotógrafo. Baseado em sons, cheiros e com auxílio de um orientador, ele registra imagens conforme seu olhar interior. “Imagino como a imagem vai aparecer dentro da câmera”, explica. “Procuro construir uma versão do lugar”.
Suas fotos já estiveram expostas no Beiramar Shopping e na galeria da Fundação Franklin Cascaes. A primeira mostra recebeu o nome de Photo Gráfos, em que foram retratadas imagens em preto e branco do centro da cidade.
Agora, a meta de Fernando é fotografar pontos turísticos do estado para transformar em cartões portais. “Só falta alguma parceria para dar apoio e eu seguir com esse trabalho”.
Além de buscar auxílio para concretizar os projetos, o angolano tem outra preocupação constante: a aparência. Não nega gostar de estar sempre bem vestido e perfumado, tanto é que o pseudônimo Davaidade foi uma criação própria.
A criatividade para nomes não pára por aí. O estudante de jornalismo tem um filho de dois anos chamado Helwison. “É uma versão de Haryson Ford”, diz, referindo-se ao ator americano.


A vida acadêmica

 A história de Fernando Davaidade como fotógrafo teve início na universidade, através da disciplina de fotojornalismo. “Eu já gostava de fotos, mas era uma coisa muito limitada”, comenta. “As aulas me incentivaram”.
Dentro das salas de aula, ele também ganhou interesse pela mídia eletrônica. “O Jornalismo é uma área que dá a possibilidade de ser um radialista, um apresentador”.
 Para conseguir acompanhar o ritmo do curso, o estudante tem a tecnologia como aliada. De acordo como o professor Mauro Meurer, a Unisul possui o Programa de Promoção à Acessibilidade (PPA), com o objetivo de oferecer condições para o portador de deficiência cursar normalmente a faculdade.
No caso dos cegos, há computadores com leitores de textos e o material impresso é transformado em áudio ou passado para braile. Segundo o estudante, ele recebe condições para ter um rendimento tão bom quanto quem possui visão normal. “Leio, pesquiso na internet. Faço tudo o que preciso visando um bom aproveitamento acadêmico e também para a minha vida”.
Apesar da dedicação e força de vontade, o fotógrafo cego ainda vê o mercado de trabalho com poucas oportunidades para o deficiente. “Nós nos deparamos todo tempo com uma certa exclusão. Ainda há muito preconceito, discriminação”.

  
Saída fotográfica   

 “Será que não é melhor eu colocar um paletó?” Essa foi a única dúvida de Davaidade antes de sairmos para fotografar uma colônia de pescadores no Bairro João Paulo. 
Pela primeira vez ele teve contato com uma máquina digital.  Como não possui equipamento próprio, o fotógrafo Marco Cezar -  extremamente cuidadoso com suas câmeras -  abriu mão do ciúme de sua Nikon D200 e a emprestou para Fernando.
Com base nos sons e na descrição do local fornecida por nós, foram registradas imagens de crianças, barcos, pássaros e pescadores. Até mesmo a foto para o editorial da Revista Mural ficou sob responsabilidade de Fernando.
Durante a saída fotográfica, que durou cerca de duas horas, o futuro jornalista comentou ter, entre tantos sonhos, vontade de adquirir o máximo de instrução possível, para um dia colaborar com melhorias em sua pátria natal. “Quero ajudar o meu país. Poder levar a experiência daqui para lá no que se refere ao campo da deficiência”.






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