Repórter Historiador

Os alemães chegaram - parte V



Arquitetura alemã na Grande Florianópolis

                                        por Cristina Maria da Silveira Piazza*

 Quando os alemães aqui chegaram, no século 19, mais precisamente no ano de 1829, encontraram as terras do estado de Santa Catarina, ainda totalmente por desbravar. À medida que eles adentravam a mata, e fundavam as cidades, as características da arquitetura e urbanismo apreendidas na Alemanha, eram aplicadas nestas novas cidades.
Há de se fazer um retrospecto da época da colonização, ressaltando que as questões sociais e políticas que vivia a República Alemã da época, com uma população inchada e sem terras para lavrar e produzir alimentos.  Esta total desilusão do povo germânico trazia dificuldades aos habitantes daquele país, que vislumbravam como única saída à ida para outro país. No revés da situação, encontrava-se o Império do Brasil, necessitando ocupar as terras descobertas, cujo objetivo principal era o de promover a colonização na Região Sul do Brasil como forma de sedimentar a posse e a manutenção do território através do povoamento, diferentemente do que ocorreu nas terras do estado de São Paulo, onde o fundamental era suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras de café.
 


Caminho das Tropas



Em São Pedro de Alcântara


Assim entre os anos de 1850 e 1871, ano da instituição do Império Alemão, a imigração se intensificou, com apenas algumas interrupções temporárias. Os recém-chegados se estabeleceram nas regiões costeiras de Santa Catarina, fundando em 1829, junto a antiga estrada que ligava Lages e Desterro, no vale do rio Imaruí, a colônia de São Pedro de Alcântara. Outras levas, fixaram-se no vale do Itajaí, fundando, entre 1850/51 a Colônia Dona Francisca, hoje Joinville. Após, seguiu-se a fundação de Blumenau, em 1854 que se extendendo a Brusque, em 1860.
Dadas as informações iniciais vamos ao foco, deste texto, que é o de apresentar a arquitetura desenvolvida aqui em Santa Catarina, bem como a conformação urbana das nossas cidades, a delimitação dos lotes e a implantação das edificações, tipologias, acabamentos, materiais empregados, ornamentos, entre outros ítens.
Inicialmente, as habitações de caráter definitivo não foram possíveis de seresm erigidas. Assim, os imigrantes e suas famílias moraram, nos primeiros anos de ocupação da terra, em grandes galpões com instalações plurifamiliares, erguidas pelas Companhias Colonizadoras, responsáveis também pela organização comunitária, que compreendia o abastecimento de gêneros alimentícios e a administração da vida na colônia. Estas tiveram a implantação das primeiras habitações unifamiliares estão inseridas em aglomerados urbanos lindeiros às vias de ligação com outras localidades e aos rios. Mantinham ainda o caráter provisório, sendo toscos abrigos que mal protegiam contra as intempéries e os ventos, ou ranchos, constituídos, usualmente, de troncos de palmeiras cobertas de palha.
Vale a pena resgatar a grande ligação do povo alemão com a madeira. Seus artesãos desde a Idade Média, vinham aprimorando as técnicas de escultura e entalhes na madeira, bem como técnicas policromáticas de pintura sobre este substrato. Por vários momentos na história da construção e do mobiliário internacional a Alemanha aparece como um grande celeiro de artífices, fornecendo mão-de-obra para as cortes européias, como podemos observar nas Franças de  Luís XV e de Luís XVI. Bem como na corte austríaca de Sissi.
Portanto, foi natural, que ao chegarem neste País, e ao se depararem com a grande variedade de madeiras existentes nas nossas matas, sem mencionar a qualidade das mesmas, criaram um novo impulso a construção. Outro aspecto deve ser mencionado: a chegada dos imigrantes pelo litoral, colocou-os em contato com o português, fazendo com que formassem colônias com edificações que incorporavam conceitos da arquitetura luso-brasileira. O estabelecimento das colônias se deram através de São Pedro de Alcântara, mais antiga colônia alemã no Estado e também centro irradiador da migração, e Santa Isabel, distrito de Águas Mornas, e segunda colônia mais antiga. 
Após um período, que variou de 10 a 30 anos, desde o estabelecimento da primeira colônia, começaram a surgir as indústrias familiares de transformação e a produção de artesanato,  devido ao comércio local e regional. Este fator, tornou o imigrante  definitivamente fixo na terra, e propiciou o surgimento das primeras habitações de caráter definitivo, onde o enxaimel era a técnica construtiva que se impôs. Assim como acontecia na Europa Central Medieval que também havia adotado-a como tipologia arquitetônica, pela abundância de matéria prima nas terras catarinenses, e de certa forma permitindo a preservação desta técnica na bagagem cultural do imigrante.
O enxaimel foi a técnica e a expressão arquitetônca que predominou na construção até a passagem do século XIX para o XX, extinguindo-se totalmente após a 2ª. Grande Guerra.
A técnica construtiva do enxaimel consiste em estruturar a edificação através de peças de madeira dispostas na horizontal, vertical e diagonal. Todas articuladas entre si, formando um engradado forte preenchido com barro amassado e tijolos, porém compondo um sistema extremamente rígido, com preenchimento dos vãos entre as peças de madeira com materiais vedantes (tijolos cerâmicos, na grande maioria dos casos), sem função estrutural.  


 
Casa de moradia em técnica construtiva de enxaimel, na Colônia de Santa Isabel, onde se observa a setorização típica das edificações deste tipo. Porta principal ladeada por duas janelas, uma correspondendo a um quarto e outra a sala,  contínua a cozinha. 

Sua característica principal, na Europa, estava na  sofisticação e diversidade de seu aspecto formal e funcional. Em terras catarinenses resultou em uma técnica simplificada e muito nivelada nos aspectos formais e funcionais das diversas colônias. Seu emprego se dava nas construções destinadas a edificações residenciais, aparecendo em menor número nas casas de comércio, nos salões para atividades sociais, nas escolas e nas pequenas fábricas.
Na região da Grande Florianópolis, em São Pedro de Alcântara e arredores, as habitações se diferenciam das demais pelas coberturas com inclinações menos acentuadas, o uso quase que exclusivo da telha do tipo “canal”, a diminuição na quantidade de madeiras utilizadas na estruturação da casa, a ausência quase que completa da varanda, e um acabamento rudimentar. Características essas, típicas das construções em áreas rurais, ou seja, em sítios autônomos vinculados a uma produção de hortifrugranjeiros, com modelos rústicos e extremamente simplificados. As edificações nos núcleos urbanos pouco desenvolvidos apresenta-se, na maioria das vezes, com o recobrimento total, por massa, do enxaimel. 


Edificação de fins residenciais na área rural em Angelina, com paredes rebocadas, onde se nota a presença do telhado com inclinações acentuadas e quatro águas.

 


Edificação de caráter misto – comercial e residencial, na área rural de Angelina, com ornamentos de influência clássica.



Edificação de caráter misto – comercial e residencial, em Antônio Carlos.

Santa Catarina, na sua área rural, ainda conserva muitos exemplares desta arquitetura, onde foram mais reproduzidas e menos destruídas, onde a informação acerca das modificações do início do século XX, chegavam com certo atraso. Já na área urbana, normalmente desfiguradas pela redução dos terrenos ou a perda das suas características originais.
A implantação destas casas nos terrenos nota-se uma certa displicência quanto ao assentamento com tendência ao isolamento no terreno de forma orgânica, com telhado paralelo à rua e a existência de algumas benfeitorias, em geral nos fundos da construção, construídas de materiais pouco resistentes, como as estrebarias, oficinas, forno para cozer o pão e o poço, as quais faziam parte das instalações domiciliares.
As   construções, a partir deste momento, de edificações singelas até verdadeiras virtuoses na construção, chegando a uma configuração final se torna bastante semelhante devido à repetição de certos padrões construtivos e estéticos que aos poucos vão incorporando ornamentos clássicos.



Casa térrea em Angelina, com a existência de sótão, em toda extensão da edificação, onde a altura possibilita a ocupação, característica da arquitetura alemã, com ornamentos na cimalha do telhado em forma de frisos de colunatas, mais suportes do tipo “cachorro”, características do neoclássico e de influência luso-portuguesa. As aberturas recebem bandeiras em madeira e vidro, com trabalhos geométricos.

 


Casa paroquial típica das construções católicas, que tinham o objetivo de comportar, no térreo, as atividades relativas ao atendimento da população e, na parte superior, a moradia do pároco e as outras acomodações, como capela, etc.

 


Casa de moradia, apresentando as características de simetria e ritmo na apresentação das aberturas e ornamentos. As janelas recebem fechamento do tipo “guilhotina” em quadros de vidro e madeira, sendo que a portas, de folha única, recebem bandeira, também em desenhos geométricos. Neste exemplar nota-se a diferença entre a porta de acesso principal e a de acesso secundário. Na primeira a faixa que marca a entrada se apresenta de uma maneira mais marcante e elaborada, diferenciada do resto da construção. O sótão se faz presente, geralmente servindo de dormitório.

 


Pórtico de características Art Decô, onde se nota a presença da simetria, além das linhas regulares em composição com as linhas curvas. A repetição dos “totens” em forma de cones e um pináculo fusiforme no topo das colunas que sustentam a faixa indicativa do Santuário Nossa Senhora de Angelina, reforçam as características das construções edificadas durante o período estilístico indicado.

 


Edificação mista, de caráter comercial e residencial, na área central de Angelina, possuindo características mais simples, onde se vê a quase inexistência de ornamentos, com molduras simples em volta das aberturas, e sem a presença de bandeiras sobre estas. A marcação dos acessos é notada e bem delimitada, havendo a construção posterior de uma varanda na lateral da edificação para o desenvolvimento do comércio atual.

 

* Arquiteta e Urbanista formada pela UFSC em 1984. Especialista em Construção Civil pelo Curso de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestranda em Construção Civil, na UFSC, com pesquisa em "Planejamento da arquitetura de interiores de unidades de hospedagem de hotéis de negócios de alto padrão em Florianópolis".
Proprietária da empresa CMSP Arquitetura + Design, atuando com projetos de arquitetura, residenciais e comerciais; projetos de interiores, comerciais e residenciais; administração de obras; design de mobiliário; consultoria.
Professora dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), desde 2001, nas disciplinas de Iniciação à Arquitetura de Interiores, Projeto Arquitetônico V, História da Arquitetura e Urbanismo, Expressão Gráfica. Leciona a disciplina de Harmonização de Ambientes na UniExperiência da Unisul. Realiza pesquisas nas áreas de mobiliário internacional e brasileiro, arquitetura e interiores de edificações modernas da cidade de Florianópolis, e arquitetura de caráter comercial da cidade de Florianópolis. Ministra cursos sobre "História do Mobiliário e do Design", "Desenho de Móveis", "Ergonomia e Composição", "Materiais Expressivos", "Iluminação e Reprodução de Cores". Publicou, em 2000, o livro "Panorama da Arquitetura Catarinense", com o trabalho de 56 dos mais expressivos escritórios de arquitetura de Santa Catarina.
Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Santa Catarina - IAB/SC – para a Gestão 2007.


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Recheio de galinha
A iguaria que saiu de casa

 Recheio de galinha é o nome do prato mais famoso nas antigas colônias de imigração alemã da região de Florianópolis, como São Pedro de Alcântara e sua extensão mais imediata, o município de Antônio Carlos. Entre eles há uma disputa sutil e salutar sobre o uso da iguaria como atrativo turístico – enquanto o primeiro realiza anualmente a Festa do Recheio, em Antônio Carlos os restaurantes tomam a dianteira na oferta permanente do manjar.
Guarnição de destaque nas festas familiares e outros encontros sociais, o recheio sempre foi consumido internamente: a mãe o preparava com a ajuda de uma ou mais filhas para a delícia de toda a família. E quem de fora quisesse experimentar, teria que se tornar amigo de um alemão e ficar torcendo para ser um convidado do almoço dominical. Só mais recentemente o prato ganhou novo significado, deixando o interior dos lares para ganhar espaço nos cardápios dos restaurantes.

 Na casa de dona Olívia Schmitt Stäheling, 95 anos, sempre houve o recheio, simplesmente, sem o de galinha. Para uma ave ela usa cinco ovos batidos, quatro a cinco colheres de farinha de rosca, temperos como cebolinha, salsa e orégano e moela bem picada. Tudo isso é misturado e colocado ainda cru dentro de uma galinha previamente fervida na água – usada à noite para uma sopa. Colocada no forno, galinha e recheio assam juntos.
O recheio também pode ser preparado a parte, primeiro enrolado tal rocambole, e depois colocado num saco de pano (antigamente) ou de plástico (hoje), sendo então mergulhado em água fervente por cerca de duas horas. Depois de retirado é cortado em fatias e servido. Alguns colocam na forma e levam ao forno. “Em dia de festa aqui em casa eu tenho que fazer quatro saquinhos de recheio”, diz dona Olívia, que herdou da mãe e das avós a habilidade culinária, aperfeiçoada com padres franciscanos de origem germânica na Florianópolis na década de 1930.
Lúcia Inês Schmitt Pauli, dona e cozinheira do restaurante Rapa de Tacho, em Antônio Carlos, faz alarde quando chega com o agora Recheio de Galinha para ser colocado na mesa junto aos demais alimentos do bufê. “Comida de alemão”, faz questão de dizer. Ou seja, o alimento preferido no interior das residências dos descendentes de colonos, está saindo para as ruas, transformado em atrativo turístico-culinário. Ainda bem!  


Restaurante Rapa de Tacho| Rua João Henrique Pauli, 537 (Centro, Antônio Carlos). Fone | (48) 3272-1208

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Coma tudo se for capaz

 “Só compramos fora o pepino, a azeitona e a margarina”, diz o geógrafo e empresário Ino Guilherme Westphall, 43 anos, dono do Kaffeehaus – Café Colonial, no município de Rancho Queimado, antigo núcleo colonial de imigrantes germânicos, vinculado à colônia Santa Isabel. “O restante nós fazemos aqui”, acrescenta.
O “restante” a que ele se refere, são os embutidos, queijos, carnes, bolinhos, tortas, bolos, biscoitos, broas, bolachas, doces, cucas, pães e roscas, sem contar os tradicionais schmier e o strudel. Ele aproveita as habilidades culinárias de quase uma dezena de cozinheiras locais, para servir um café colonial completo, com 17 itens de entrada, 10 de salgados, 12 tipos de doces, oito bebidas diferentes e nove sobremesas. Tudo isso regado a vinhos branco e tinto, produzidos na região. Com direito ao popular repeteco.
Durante a temporada de verão, Ino toca o negócio em banho-maria,  mas entre os meses de março a agosto o bicho pega. “O movimento principal começa após o domingo de Páscoa e vai até o Dia de Finados, em 2 de novembro”, destaca. Mais detalhes para quem quiser conferir em www.cafedorancho.com.br ou pelo telefone (48) 3275-0400.      
    

Culinária segundo Reitz
 
 O padre botânico Raulino Reitz dedica alguns capítulos de seu livro “Alto Biguaçu” aos cardápios dos imigrantes germânicos de Antônio Carlos. Uma breve leitura deixa claro que eles foram obrigados a se adaptar aos pratos locais (caso do feijão com charque e farinha de mandioca), mantendo todo um universo alimentício cujos segredos chegaram nas bagagens dos primeiros colonos.
A comida diária (Alltagsessen) era composta de feijão, arroz, carne, batata, aipim, saladas e couve. A comida de domingo (Sonntagsessen) era a mesma dos dias de festas: Kerb, Schitzefest (Festa dos Atiradores), Weihnachte (Natal), Ostere (Páscoa), Konfirmation (Confirmação) ou outro evento social marcante.

 Nessas ocasiões, era preparado o arroz, as massas, a batata-inglesa, os assados de rês (Prodefleisch) e de porco (Sauerkraut), o chucrute e a galinha recheada (Fleischkuche), as saladas de alface (Salat) e de batatas (Catofelsalat), pepino e rabanete. As carnes eram assadas no Backofe (forno de pão).
Sobre o recheio de galinha, diz Reitz: “O gosto pelo preparo do recheio onde o tempero verde abundava, derivava, também, do fato de as galinhas serem criadas soltas. Galinhas que apanhavam muito sol, comiam muito verde, ervas e capim o dia todo”. A lista das preciosidades gastronômicas nessas comunidades é grande e diversificada, quase toda ainda desconhecida do público “externo”.  

Manhas de um bom chucrute

 Dona Olívia passou boa parte da vida fazendo chucrute, começando por selecionar 60 cabeças de repolho, cortar as folhas em fatias bem finas e colocar numa bacia, recebendo por cima uma mão de sal. O conteúdo das sucessivas bacias era posto numa barrica de madeira, sendo amassado e socado, até encher. No final, a barrica era tampada e recebia um peso.
“Era preciso trocar a água da barrica todo dia, secar o repolho. A gente usava um pano para ajudar a secar”, destaca. Passados entre 18 e 20 dias, o produto era retirado e deixado de molho na água para eliminação do excesso de sal, ganhando ao final água fresca.
No dia seguinte, o repolho era espremido para retirada a água. Depois de tudo isso podia ser passado no óleo quente em uma frigideira ou panela de ferro, ganhando tempero verde e orégano. Estava pronto o tão apreciado quanto famoso chucrute.   

 

 

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