Repórter Historiador

Marco Nascimento | Memórias de um cinegrafista de guerra - parte I


Marco Nascimento


A câmera escura e os químicos
 
 O lugar onde ele mora com a família não pode guardar nenhuma semelhança, nem de longe, com os lugares do mundo por onde ele andou. No lugar das barreiras militares, galinhas. Onde explodiria uma bomba, duas lagoas piscosas. Ao invés de acampamentos militares, laranjas, vergamotas, carambolas, goiabas e mamões num grande pomar. A água racionada do cantil foi substituída por nascentes que vertem no meio das florestas.
Estamos falando da Varginha, interior de Santo Amaro da Imperatriz, distante cerca de 40 minutos de Florianópolis através das BRs 101 e 282. Marco Antônio Nascimento, o Stica, paulistano que veio ao mundo em 19 de agosto de 1949, cresceu dentro de um laboratório fotográfico e muito cedo aprendeu a ver o mundo por trás de um visor. “Não nasci, fui revelado”, brinca, pois nasceu no Dia Internacional da Fotografia.

 Um pouco da sua trajetória foi contada no último dia 28 de abril, quando preparou com a esposa Lesley duas tainhas escaladas e assadas na brasa, salada de tomate e alface e arroz integral com outros grãos. Os gestos são pausados, a fala permanente. Em momento algum jogou confete sobre si mesmo. Está é preocupado com os percalços da profissão e as questões éticas que norteiam o trabalho de um cinegrafista de guerra e não só de guerras.
 Antes de embarcar para Londres no dia 30 de julho de 1976, onde permaneceu sete anos sem vir ao Brasil, Marco Nascimento passou por um processo de aprendizado junto a familiares. Seu avô, o português de Trás-os Montes, Alfredo, introduziu o filho Firmino nos segredos da fotografia e do laboratório fotográfico. Uma vez formado, Firmino montou o jornal Última Hora e se tornou o chefe do setor de fotojornalismo.
Casado com a descendente de imigrantes italianos Olga Nollé, Firmino teve dois filhos homens, Marco Cezar (1947), Marco Antônio (1949), e Márcia Aparecida (1958), professora de inglês na capital paulista. Ele queria que os dois continuassem os estudos, mas teve que aceitar a insistência com a câmera escura e os químicos. Assim, ao deixar o Última Hora e montar o estúdio fotográfico Reportagem Piratininga, passou a contar com dois novos fotógrafos. 

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Um leão, muitas crianças

 Marco Antônio, conhecido por Stica devido a um período da adolescência em que cresceu mais rápido que o irmão Marco Cezar, acabou se especializando no laboratório. O outro ia para a rua fazer as fotos. O estúdio era o mais movimentado de São Paulo naquele final da década de 1960 e início da seguinte, mantendo contratos de serviços com colégios como o Rio Branco, Mackenzie e Sacré-Coeur e a colônia judaica, entre outros clientes. As fotos de formatura eram feitas por Marco Cezar, eventualmente o irmão reforçava a equipe. Mas o laboratório sempre foi a especialidade de Stica. Os filmes Ilford, 400 ASA, Tri-X, eram operados em câmeras Rolleiflex de 6x6 milímetros e flash Pic. Em geral usavam papel Ilford de excelente qualidade, pesquisados pelo velho Firmino. As ampliações de casamentos eram feitas em papel Lumiére, francês. As aquisições sempre em grande quantidade e só de hipossulfito de sódio eram adquiridos 60 quilos a cada vez.

 “Era uma produção em escala industrial”, recorda Stica, que chegava a revelar entre 500 e 600 fotos por dia. E as cópias não podiam amarelar. O pai estava sempre fiscalizando, cobrando, exigindo boa lavação, a observação das boas técnicas de revelação e ampliação. Os filmes de 400 ASA deviam permanecer 11 minutos sob agitação constante para eliminar as bolhas de ar, com temperatura de 18 a 20 graus centígrados. E outros procedimentos para garantir resultados excelentes, resultado perfeito.
A criatividade funcionou muito nesse período, como a Promofoto, quando foi contratada uma equipe de 30 pessoas, entre elas cerca de 15 fotógrafos que percorriam as casas fazendo fotos das crianças. Durante um bom tempo, alugaram um leão por períodos de quatro meses, deixado no zoológico paulista. Centenas de crianças posaram ao lado do animal para fotos do estúdio dos Nascimento.

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Um brasileiro em Londres

 Por uma série de motivos a bonança deu lugar à tempestade e os negócios degringolaram. Firmino foi para Belo Horizonte recomeçar a carreira e Marco Cezar começou a mudança rumo a Curitiba. Stica vendeu o carro que tinha, reuniu as poucas economias, comprou uma passagem só de ida e foi para Londres. Sonhava com uma vaga no London College of Printing para adquirir uma formação acadêmica de nível superior em fotografia.
Uma vez chegado ao destino, se informou sobre as condições de ingresso. Uma delas, exigia nota mínima 7 em literatura inglesa e ele não falava inglês, mas isso não o fez desistir. Levou uma coleção de fotografias feitas e ampliadas por ele embaixo do braço e procurou o professor coordenador do curso. David Hopkins, também fotógrafo da Times e da BBC, ficou impressionado com a qualidade das ampliações e quis saber quem as tinha feito. O brasileiro se apresentou e acabou obtendo autorização para fazer o curso, sem direito a diploma. Valeu pelo aprendizado adquirido.

 Além disso, Stica passou a trabalhar para Hopkins. “Ele tinha um laboratório na casa dele e eu ficava lá revelando”, lembra. Duplo aprendizado. Para sobreviver, fazia frilas. Mas já contava com o apoio que se tornaria permanente da jovem Lesley, com quem se casou em 1977, mãe dos filhos Gabriel, nascido em 1981, e Cauê, de 1982. Os quatro moram atualmente na Varginha, em Santo Amaro da Imperatriz.
A ampliação da família coincidiu com seu ingresso na TV Globo, em Londres, como assistente de câmera. E também com os longos períodos de ausência do pai, sempre em missões arriscadas, motivando apreensões em Lesley. Para Stica o desafio era outro: as linguagens da fotografia e do vídeo são diferentes, com variações no enquadramento, iluminação e foco, mas sobretudo no movimento. “A fotografia congela, o vídeo permite artifícios de edição”.


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“I love you” com sangue

 A primeira pauta de guerra surgiu em 1982, com a invasão do Líbano por Israel, numa ação comandada pelo então ministro da Defesa Ariel Sharon, resultando na morte de cerca de 20 mil pessoas. Objetivo: expulsar os palestinos da região e seu chefe Iasser Arafat, dirigente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Os confrontos começaram em julho e Stica logo estava no teatro da guerra, envergando uma camiseta com o apelo “Não atire” escrito em inglês, francês, idiiche e árabe.
Ele e a equipe seguiam certo dia pela chamada Linha Verde, uma faixa de 500 metros controlada por sete exércitos de diferentes países, quando foram parados por milicianos do futuro Hezbollah, adolescentes de 15 e 16 anos de idade. O chefe tinha duas pistolas 7.5 na cintura e os demais portavam metralhadoras Kalashnikov. Pediram documentos, verificaram os nomes e procedências.

 Para azar do grupo, o motorista era cristão, logo inimigo daqueles homens. O filho mais moço de Firmino toma a iniciativa, insistindo ser brasileiro, conseguindo chamar a atenção do outro. Um árabe descobriu o sobrenome Nascimento e falou “Belé, Belé, Brasil, futebol, frund” (amigo), para alívio do grupo. Enquanto interrogavam o motorista cristão, os demais foram levados amistosamente para um galpão, o mesmo em que o negociador inglês Terry Waite permaneceu cerca de quatro anos, ao se apresentar para a libertação de reféns ingleses.  Se o jovem Stica ainda alimentava alguma visão romântica sobre ser um cinegrafista de guerra, ele a abandonou definitivamente naqueles dias. Seja pelo massacre de Sabra e Chatila promovido por milicianos cristãos com a cobertura de Ariel Sharon, ou as 72 horas de bombardeio sobre Beirute promovidas pelos israelenses. Mas também por haver encontrado uma bota na rua com um pedaço de perna dentro. Uma equipe de TV do Canadá, cercada por forças contrárias, no meio de bombas e tiros, teve o repórter atingido na barriga por um estilhaço. Quando os companheiros chegaram com a Cruz Vermelha, ele estava morto, mas com o próprio sangue havia escrito numa fronha de travesseiro para a esposa: “I love you”.

 Em Londres, Lesley e os pequenos Gabriel e Cauê nem sonhavam com os perigos que rondavam o marido e pai. Se soubessem, talvez ele tivesse tomado outro
Já nesse tempo, surgem as primeiras reflexões acerca da profissão escolhida. “Quando se põe o olho no visor o mundo é outro. Ali o sangue aparece em branco e preto. E a gente é obrigada a fazer as cenas. Se não for assim, vai se arrepender depois das coisas que não filmou. No visor a gente se distancia. Mas à noite, quando põe a cabeça no travesseiro, vem a lembrança daquelas imagens, na mesma seqüência em que foram filmadas. No outro dia a gente acorda um pouco mais bicho”.
 
 
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Fotografia a gente não esquece

 Não é possível ser fotógrafo e cinegrafista ao mesmo tempo. “A gente põe o olho num ou em outro visor, não é possível em dois”, ensina Stica. Apesar disso, ele sempre levava junto uma “pequena câmera”, usada para “congelar” aquilo que o vídeo não coloca em movimento pelo mundo afora, ocupando os momentos de folga.
Foi assim que ele registrou um folgado beduíno em sua tenda no meio do deserto da Jordânia – um rei, com o príncipe ao lado. E também o beatle George Harrison. A esposa Lesley, sempre presente, apoiando, foi registrada algumas dezenas de vezes, assim como os filhos. “Coisa de pai”, salienta Stica. E de marido.  

 

 

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