Repórter Historiador

Marco Nascimento | Memórias de um cinegrafista de guerra - parte II

 

As lascas do Muro

 Marco Nascimento, Stica para os próximos, lembra as cenas de filmes de suspense do tempo da guerra-fria, com troca de espiões nos postos de controle entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental, para começar sua fala sobre a queda do muro de Berlim. Ele tem em mente aquelas imagens em preto e branco, neblina, muita sombra e tensão, transformadas em clássicos do passado.
É sobre isso que ele começa falando. Na primeira vez que o entrevistamos, estava pouco aquecido. Na segunda, porém, o veterano cinegrafista de guerra e de outros assuntos, apareceu mais afiado, com fotos e documentos em mãos, memórias mais ou menos elaboradas e, inclusive, algumas anotações. Enquanto falava, cuidava do ensopado.
 Foi nos postos de controle, lembra, que a experiência comunista na Alemanha Oriental começou a fazer água. Por ali escoaram milhares de cidadãos, abrindo fendas imaginárias que logo poriam abaixo o muro, tijolo a tijolo, placa a placa de concreto. Stica foi várias vezes a Berlim e outras cidades alemãs naquele final dos anos 1980. Pouco antes da queda do muro, o todo poderoso Eric Honecker, tentou um último esforço, festejando o 40º aniversário da fundação da República Democrática Alemã (RDA).

  “Todos os líderes da esquerda mundial naquele tempo estavam lá, inclusive Arafat e Daniel Ortega”, lembra Marco Nascimento, que já sentia o clima das ruas. Numa ocasião, enquanto aguardava por um entrevistado, aproveitou para retirar com a ponta de um canivete pedaços do muro. São fragmentos de camadas de tintas de pichações de protesto. “As pinturas eram feitas umas sobre as outras e por isso as lascas são tão grossas”, comenta, enquanto observa os “troféus”, clicado pelo irmão.
Grandes mobilizações de massa indicavam que o fim estava próximo. Na noite do dia 9 de novembro de 1989, um mês depois da gigantesca manifestação em Leipzig, a casa desabou. Eram cerca de 22 horas, quando uma multidão seguiu pacificamente em direção aos postos de controle no muro de Berlim, forçando a passagem para o outro lado.
Os desorientados guardas da fronteira não resistiram, tiveram que abrir as cancelas. A reunificação duas Alemanhas representou o fim da guerra fria. Os fatos se precipitaram e todo o Leste Europeu, incluindo a União Soviética, se desmancharam rapidamente. A lente de Stica registrou muitos desses acontecimentos. 

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Observações

“Na RDA não havia competição. A mãe botava o filho na creche e ele começava a ser treinado para o resto da vida, não precisava se preocupar com mais nada”.

“Ninguém acreditava que tudo aquilo ia acontecer. Foi um impacto para os orientais. Começou a competição e o alemão oriental não estava preparado para competir”.

“Quando caiu o muro, os alemães ocidentais venderam seus carros usados para os alemães orientais e compraram carros zero”.

“O lado ocidental investiu no lado oriental, mas não conseguiu mudar o alemão”.

 “Acompanhamos uma família a um supermercado depois da queda do muro. A filha queria comprar chocolate, a mãe procurou bananas e o pai queria café”.

 “Milhares de soldados da antiga Alemanha Oriental se viram desempregados de um dia para o outro”.



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O piloto e o câmera


 Cascaes, Portugal. Um BMW alugado pela equipe da TV Globo, baseada em Londres, percorre as ruas da cidade. Eles são acompanhados por Ayton Senna, com um Mercedes 500 SEC. Logo, o que era um passeio se tornou um pega que deve ter assustado os portugueses. A cena mostra de um lado a grande habilidade do piloto da Fórmula 1, testemunhada por Stica na descida de uma serra, e de outro as boas relações que Senna mantinha com os jornalistas, ou pelo menos a maioria deles.
Senna obteve sua primeira vitória no dia 21 de abril de 1985, pela Lótus, no segundo GP da temporada de 1985, em Estoril (Portugal). “Chovia muito e ele arrasou, ficou conhecido como o rei da chuva”, destaca Marco Antônio. Largando em sua primeira pole position na Fórmula 1, Senna deixa os demais pilotos para trás e chega em primeiro, com 1'02"978 de vantagem sobre Michelle Alboreto (Ferrari). “Ele desceu o pódium levou os jornalistas para jantar”, recusando outros convites.

 A amizade entre o piloto e o cinegrafista foi cultivada aos poucos, entre uma guerra e outra, quando Stica era destacado para cobrir diversos eventos, principalmente os esportivos. A ligação teve início logo na chegada do jovem piloto à Europa, em 1981. Senna havia se credenciado pela conquista do sul-americano de kart em 1977, iniciando a atuação da Fórmula 3 inglesa, cujo primeiro título obteria em 1983.
Era um profissional “sério, íntegro, honesto e que não gostava de perguntas idiotas. Saía do sério quando isso acontecia”, recorda. Num primeiro momento, testava o profissional, revelando alguma informação e pedindo off (segredo). Se a informação vazasse, ele saberia. “Se o off não fosse respeitado ele não confiava mais na pessoa, assinala, “dando apenas respostas secas, sim, não, dá, não dá”.

 Nos primeiros anos de sua presença na Europa, atuando como piloto de Fórmula 3, Senna chegou a se alojar várias vezes nas suítes dos hotéis em que Stica e outros profissionais da Globo se hospedavam. “Ele ficava no quarto da gente, mas nunca chegou a dormir no chão como andaram falando. Eram suítes grandes, a gente conversava até tarde e ele acabava dormindo por ali”.
As relações entre os dois se estreitaram ainda mais durante os treinos, quando Stica passava o dia acompanhando os trabalhos. “Ele perguntava qual era nossa hora-limite para o envio de matéria e um pouco antes ele aparecia. O Jornal Nacional sempre queria uma fala dele”, lembra. Muitas vezes, na ausência de repórter, as sonoras eram colhidas pelo cinegrafista. “Ele experimentava os carros, indicava aos mecânicos e engenheiros o que precisava ser feito e ficava aguardando. Esse era o melhor momento para conversar com ele”.

 Stica estava em Londres, acompanhando a corrida na casa de Rubinho Barrichello. Naquele fatídico 1º de maio de 1994, pouco antes do acidente em Bolonha (Itália), “eu havia pedido ao Rubinho que simulasse um piloto numa largada e estava filmando isso quando aconteceu a batida”, conta. “Senti a morte dele como se fosse a de um irmão. Pensei em nunca mais cobrir corrida, como havia jurado que não cobriria mais guerra depois do Líbano em 1982”. Nascido em São Paulo no dia 21 de março de 1960, Senna acumulou 41 vitórias e três campeonatos mundiais (1988, 1990 e 1991) como piloto de Fórmula 1.    


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Não será por falta de aviso


 Para os jovens profissionais que estão saindo dos bancos universitários, Marco Nascimento dá alguns avisos, principalmente para os que pretendem seguir a carreira de cinegrafista. O sujeito deve saber que num dia vai enfrentar temperaturas de até 54 graus centígrados, como ele experimentou no Estreito de Ormuz, entre os golfos de Omã e Pérsico, próximo do Irã, Emirados Árabes e Omã, e dali a 24 horas, amargar com 33 graus negativos, como ocorreu em Volvogrado.
Se tiver boa saúde, supera esse problema. E também precisa de uma certa resistência para carregar os equipamentos: só de baterias e cabos, 20 a 25 quilos, mais o tripé com oito a 10 quilos e a câmera de uns 12 quilos. “Esse peso no começo, pois no final a câmera parece estar pesando 30 a 40 quilos”, destaca. Em situações de guerra a presença de um assistente com experiência é garantia de vida. Se ele não tentar cenas exclusivas, vai sair ileso. Mas se for descuidado e achar que é revestido de uma couraça de aço, logo descobrirá que apenas o morcego Batfino tem essa proteção.

 Quem for constituir família, deve pensar bem no que será dito agora. “Muitas vezes eu estava indo do aeroporto para casa e no caminho ligavam para a Lesley dizendo para aprontar outra mala que eu ia viajar novamente. Chegava em casa, recebia a notícia e logo tinha que sair. Cheguei a achar que só aparecia em casa para deixar as malas com as roupas sujas e apanhar outras com roupas limpas”.
Isso significa, também, que passava pouco tempo com a família. Durante a última entrevista em sua casa na Varginha, em Santo Amaro da Imperatriz, sua esposa inglesa Lesley, que ouvia a conversa, disse rapidamente numa determinada altura. “Ele não conhecia os filhos que tinha, veio conhecer aqui”. Dessa constatação, podemos tirar outra conclusão: quem não tiver uma Lesley em casa não se meta a cinegrafista de guerra. De guerra e de outras coisas.

 

 

 

 

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