Fala Natureza

Aquecimento global | O futuro da Ilha em debate




 O aquecimento global e a conseqüente elevação do nível dos oceanos poderão afetar de alguma forma a ilha de Santa Catarina. Essa é a única afirmação possível de ser feita, sem risco de sensacionalismo e/ou ato semelhante, já que a própria comunidade científica internacional discute os detalhes do que está rolando ou vai acontecer no Planeta. Daí a cautela do Prof. Dr. Norberto Olmiro Horn Filho, da UFSC, ao abordar o assunto. “É comprovado que a temperatura da Terra está aumentando e o fenômeno da erosão costeira está realmente presente em diversas praias, não só locais, mas em outros lugares”, constata.

 Mais do que isso, Horn não avança. Até porque, por exemplo, não existe nenhum levantamento altimétrico de detalhe da ilha, capaz de indicar quais as áreas que serão realmente afetadas com a possível subida do nível relativo dos oceanos. Didaticamente, Horn divide sua entrevista em três tópicos distintos: primeiro, o aquecimento global; segundo, as variações relativas do nível do mar e, por último, a geologia e a geomorfologia da ilha de Santa Catarina. 
O aquecimento global é uma realidade, mas “se existe o aquecimento global, existiu também o resfriamento global”, observa. Desde os primórdios da formação do Planeta, a Terra alternou momentos de elevação e decréscimo naturais da temperatura, provocando grandes períodos de glaciação e interglaciação. “Isso aconteceu desde o início da formação da Terra. Ela naturalmente aquece, esfria, aquece...”. Os principais momentos de resfriamento ocorreram há cerca de 600 milhões de anos (Cambriano), há 280 milhões de anos (Permiano) e há 2 milhões de anos (Quaternário). Nos intervalos onde predominou a glaciação, a temperatura se elevou, provocando o decorrente degelo glacial. “Podemos estar vivendo uma fase de aquecimento, como já ocorreu anteriormente”, destaca.

 Entretanto, existe comprovação de aumento na emissão de gases poluentes à atmosfera terrestre nas últimas cinco décadas, mas a comunidade científica ainda procura elementos para aferir a influência dessa emissão de gases no aquecimento global, com incremento da temperatura no efeito estufa... “Alguns pesquisadores relatam que o aumento da temperatura da Terra pode ser devido à influência humana (antrópica), porém outros preferem associar este aumento a processos naturais, uma vez que o mesmo já ocorreu em tempos geológicos remotos, sem influência do homem”, diz. E reforça “O homem primitivo não tinha ferramentas que pudesse influenciar no aquecimento global, entretanto o homem dos dias de hoje possui técnicas avançadas que podem estar motivando este aquecimento global, apressando aquele processo que sempre foi natural”.

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O nível do mar pode subir

 Uma das conseqüências naturais do aquecimento global é o degelo das calotas e plataformas glaciais, cuja água de degelo resultante é transportada para os oceanos, levando à subida do nível médio do mar. Há cerca de 120 mil anos, o nível médio do oceano Atlântico encontrava-se a mais ou menos 10 m acima do atual. Depois desceu, tendo sido registrado profundidades de cerca de 110 m abaixo do atual. Há 18 mil anos, com o nível do mar mais baixo, poder-se-ia deslocar da ilha de Santa Catarina ao Estreito a pé, sem uso das pontes, pois as baías Norte e Sul não haviam ainda se formado.
Em seguida o mar voltou a subir paulatinamente até cerca de 5 mil anos atrás, encontrando-se em cerca de 5 m acima do nível atual, e voltou a descer, momento em que deveríamos nos encontrar. “É natural, que o mar volte a subir ou que continue em processo de regressão. A tendência dos dias atuais é de subida do nível do mar, entretanto como os dados ainda são muito incipientes, não sabemos se realmente o mar sofrerá acréscimo ou decréscimo nos seus níveis médios atuais para o futuro tempo geológico”, diz Horn.

 A grande preocupação é que os termômetros registram aumentos da temperatura média da Terra, e se está havendo aquecimento isso interfere nas calotas polares. A água que derrete das geleiras de altitude, do Ártico e da Antarctica se dirige no final para os oceanos e mares e com isso, pode haver subida relativa no nível dos oceanos. Ao mesmo tempo, existem variações locais e regionais naturais causadas pelo efeito das marés astronômica e meteorológica, e de sizígia, junção das duas anteriores. Isso significa que uma subida do nível dos oceanos pode gerar diferentes efeitos em locais distantes do planeta Terra.

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Desinteresse do poder público

 No passado geológico, não existia a ilha de Santa Catarina como se configura atualmente. Ela representa uma típica ilha costeira, cujo substrato é similar àquele encontrado na região continental. Os aspectos geológicos e geomorfológicos possibilitam afirmar no passado a existência de uma arquipélago denominado de “Santa Catarina”, composto de duas ilhas maiores, a ilha do sul e a ilha do centro-norte. A ilha do sul tem o morro do Ribeirão (532 m de altitude) como o pico de maior elevação e na ilha centro-norte, se destaca o morro da Cruz com 265 m de altitude. À medida que o nível do mar desceu, entre 18 e 120 mil anos atrás, áreas submersas emergiram propiciando a união da ilhas do passado, através de um processo de sedimentação, vindo a originar as planícies costeiras emersas atuais da ilha. Entre estas, destaca-se a planície Entremares, que compreende as regiões do Campeche, Rio Tavares e aeroporto.
“A planície Entremares é uma região praticamente desprovida de afloramentos rochosos, propiciando que as águas marinhas tivessem livre acesso desde o oceano Atlântico até onde se configura atualmente a baía Sul (setor sul da baía de Florianópolis)”. Nas demais áreas, a presença de rochas e elevações, impediam a circulação do mar. “As terras baixas da planície costeira da ilha têm relação direta com o mar”, salienta Horn. Regiões de baixa altitude que se encontram muito próximas à linha de costa podem sofrer com os processos de erosão costeira decorrentes de uma possível ascensão do nível relativo do mar. “Se o nível do mar continuar a subir, os terrenos mais baixos da ilha podem ser afetados”, salienta.

 Segundo Horn, existem evidências de processos erosivos nas praias da ilha, conforme resultados de pesquisas realizadas no âmbito do Departamento de Geociências e do Programa de Pós-graduação em geografia da UFSC e de outras instituições, comprovado pelo recente documento “Atlas de erosão e progradação do litoral brasileiro”, publicado pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha em parceria com o Ministério do Meio Ambiente. Esses estudos, entretanto, precisam avançar. Essa erosão é conseqüência do degelo glacial provocado pelo aquecimento glacial? “Difícil afirmar com certeza. As evidências permitem inferir que a erosão das praias tem continuado e que as áreas de menor altitude poderão ser afetadas”.
A ausência de um mapa altimétrico de detalhe da ilha de Santa Catarina, com sua topografia, dificulta qualquer previsão. Recomenda-se que os órgãos públicos municipal, estadual e federal, gestores dos recursos naturais da ilha, invistam em recursos que possibilitem uma maior parceria entre a comunidade científica e os tomadores de decisão, visando aprofundar no plano local as pesquisas globais indicando mudanças climáticas nos últimos 50 anos e conseqüências geológicas, geomorfológicas e oceanográficas no litoral da ilha . “É preciso refletir sobre tudo isso. É preciso refletir e monitorar”, aconselha o Prof. Dr. Norberto Olmiro Horn Filho. 


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DEGELO NA ANTÁRTICA*

* A Antártica concentra 90% do gelo da Terra e 68% da água potável, apresentando atualmente massas de gelo desprendidas do continente.
* Há degelo acelerado no Himalaia, Andes, Groenlândia e outras cadeias de montanhas que têm perdido água rapidamente.
* A camada de gelo que cobre a Antártica tem 2.200 m de espessura média, representando cerca de 25 milhões de km2 de gelo, tendo sido necessários 30 milhões de anos para sua formação.
* A camada de ozônio sobre a Antártica situa-se entre 2.200 e 2.300 m de altitude.
* O aquecimento global, entre 1947 e 1997, tem curva ascendente. Gases do efeito estufa: nos últimos 400 anos, 36% a mais de dióxido de carbono e 130% a mais de metano foram lançados na atmosfera.
* Nos próximos 100 anos haverá aumento de 4 a 6ºC na temperatura média do planeta.
* Em 2006 esse acréscimo foi de 0,42 a 0,54ºC a mais.
* Cerca de 15 milhões de km2 de gelo se desprendeu do continente antártico.
* A ilha Rei George, onde está localizada a estação brasileira Comandante Ferraz, na Antártica, perdeu 7% do gelo entre 1956 e 1995. Entre 1947 e 2005, houve aumento de 2,1ºC na temperatura da mesma ilha.
* Nos últimos 50 anos, a temperatura média na Antártica subiu 2,5ºC.
* Os ventos quentes aumentam; os ventos frios diminuem (Antártica).
* A temperatura no mundo é medida desde 1860. Entre 2 a 3 milhões de pessoas poderão ser afetadas pelo derretimento do gelo do planeta resultante do aquecimento global.
 

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SAIBA MAIS
* www.ipy.org (Ano Polar Internacional)
* http://cienciahoje.uol.com.br/ (Revista Ciência Hoje, da SBPC)

*Anotações de palestra do Prof. MSc. Francisco Eliseu Aquino (Instituto de Geociências, da UFRGS). Tema: “Antártida e mudanças climáticas”. XXVII Semana de Geografia da UFSC, maio de 2007.

 

 

 

 

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