Pioneiros do Fotojornalismo

Olívio Lamas



 “Sou um guri”

 O velho guerreiro arrumou as trouxas e buscou refúgio definitivo a poucos metros da lagoa de Ibiraquera, no lado de Garobapa-SC, embora continue em armas. “Estou com 58 anos de idade”, diz, emendando: “Mas ainda sou um guri”, num leve sotaque que lembra o nascimento na cidade gaúcha de Rio Grande-RS, no dia 21 de novembro de 1948. Fotógrafo e repórter-fotográfico que começou como boy na redação do jornal Zero Hora, em Porto Alegre, no final da década de 1960, Olívio Lamas se tornou uma lenda, colocando a sensibilidade a serviço da informação jornalística.
“Minhas fotos sempre chocaram”, disse no final da tarde de 21 de dezembro do ano passado, quando inaugurou mais uma exposição de seus trabalhos, no número 1.000 da estrada geral da praia do Ouvidor (Garopaba), também o endereço de um bar que abriu para o verão. “Sempre vivi nos bares. Conheço os principais bares das principais cidades do Brasil. Foi nesses ambientes que cavei a maior parte das pautas que levava para as redações em que trabalhei”, conta.

 Aliás, são poucas as redações de jornais e revistas em que não marcou presença. Depois de Zero Hora, a Folha da Manhã e o Coojornal, ainda na capital gaúcha, onde fazia frilas para a revista Placar e jornais do eixo Rio-São Paulo. Depois ganhou o mundo. “Chegar à redação de uma publicação no principal centro do País foi o grande sonho de muita gente naquela época. Nós queríamos chegar até o Jornal do Brasil, o Jornal da Tarde, a Folha de São Paulo, às revistas Veja e Placar”, recorda Lamas, sempre com voz pausada, aguardando que as anotações sejam completadas para prosseguir.

 E foi assim que um dia ele assumiu a edição de fotografia da sucursal do carioca O Globo, em São Paulo, onde permaneceu por 14 anos, até se apaixonar por um terreno de dois hectares de frente para a ainda piscosa lagoa de Ibiraquera, por volta de 1987. Para desespero da esposa Maria Elisabete Carvalho da Rocha, com quem completa 32 anos de convivência, Lamas pediu demissão do serviço e empenhou parte da rescisão na aquisição do imóvel. No mesmo local ele reside, no mesmo local abriu o bar “Por do Sol e Arte Fotográfica”. E dispara as velhas armas guarnecidas com filmes fotográficos. “Ainda não estou na digital”. 

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Imagens que chocam

 A pior besteira que o diretor do hospital Emílio Ribas fez, não foi permitir o acesso de Olívio Lamas às instalações, mas alertar que o quarto andar estava interditado. Acompanhado de um repórter que faria o texto, nosso personagem permaneceria uma semana visitando a unidade para uma reportagem sobre o setor hospitalar.
Enquanto percorria as áreas liberadas, observava atentamente a movimentação durante as trocas de turnos do pessoal médico e localizou no horário do almoço o momento propício para dar o bote. Ou seja, passar furtivamente pelos corredores, “na ponta dos pés”, iludindo a vigilância preocupada, para ganhar o piso proibido, por isso cobiçado.
“Os quartos tinham umas janelinhas. Olhei o primeiro, com duas pessoas, o segundo também com pouca gente, e o terceiro onde havia quatro pacientes. Abri a porta e entrei”, conta. Um paciente em particular chamou a atenção. Ele conferiu a abertura e velocidade, mirou a lente, fez o foco e clic, clic... Estava feita a foto que lhe daria os prêmios Esso de Jornalismo, Fenaj, Kodak e Herzog de Direitos Humanos – a primeira imagem de um portador de AIDS em estado terminal.
No quinto ou sexto disparo, surgiu uma enfermeira apavorada, se descabelando e gritando que ele não podia fazer aquilo. “Mas eu tenho autorização”, alegou, dando uma de João-sem-braço. “Mas esse andar está interditado”, repetiu a agora possessa profissional da saúde, enquanto Lamas saía de fininho com um “me perdi de andar”. Segundo Lamas, “íamos ficar uma semana e isso aconteceu no quarto dia. Nunca mais voltei ao hospital”.
“Chocante”. Foi o que lhe disseram editores em diferentes redações. Chocante, mas ninguém queria publicar. “Chocante demais”, asseverou um. Até que a revista Imprensa, então do jornalista Paulo Markum, publicou a foto em página inteira, abrindo o caminho para a conquista dos quatro prêmios e a consagração de uma carreira profissional. Corria o ano de 1988.

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O fino e a essência

 “Meus filhos estavam ficando adolescentes e se deixasse para depois não conseguiria mais tira-los de São Paulo”, explica o repórter-fotográfico, ao falar da transferência em definitivo para Garopaba, distante cerca de uma hora de Florianópolis pela BR-101. Ali, o bom Lamas montou um bunker de guerra, ou seja, um novo fronte de batalhas para se recuperar de um incômodo carcinoma no reto e prosseguir as atividades de fotógrafo.
No centro de seu caminho há um acervo de 37 anos de registros de alguns dos principais momentos da História recente do Brasil, imagens que vão do chocante ao bucólico, passando por momentos como o da primeira campanha vitoriosa do presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2002, em que Lamas foi o fotógrafo oficial.
Entre as chocantes, e que pavimentaram sua transferência da capital gaúcha para São Paulo, estão as fotos da Égua 33 que saiu de um rodeio em Vacaria-RS com fratura exposta numa das patas, e a de um cão bebendo o sangue de seu dono que acabara de ser apunhalado. As fotos mostrando a matança de animais silvestres na região do Taim, no Leste do Rio Grande do Sul, levaram a criação de uma importante unidade de conservação federal na região.

 Mesmo que o xirú velho não possa mais acompanhar as jornadas pela retomada da democracia, nem seguir os passos e registrar as imagens de torturadores e seqüestradores de inimigos políticos da ditadura, dirige suas lentes para a paisagem que o cerca. Até onde as pernas e sua Kombi o possam levar, e até o ponto em que os olhos puderem através da lente autorizar mais um clic, ele vai estar presente.
O mesmo jornalista a quem Lamas serviu cafezinho na redação da Zera Hora no início da carreira, Mário Pereira, vai traçar o perfil e o histórico do precioso acervo de negativos. “Quero seguir com meus registros do litoral”, diz, o que inclui as águas, as florestas e as edificações. Mas, sobretudo, o fino e a essência da mesma sensibilidade que está na origem do que choca e do que deleita. Porque informa criticamente, transmitindo pelos fotogramas uma mensagem, como o fazem os pintores, os cineastas, os poetas e os escultores.

 Tudo isso ajudado por alguma sorte. Por exemplo, quando ele estava iniciando como repórter-fotográfico na Folha da Manhã no turno da madrugada. Antes de começar a jornada à meia noite, foi até um bar próximo, passando pela frente do prédio em que funcionava o DOPS gaúcho, quando uma bolinha de papel caiu sobre sua cabeça. Ficou intrigado e teve uma intuição. Apanhou a bolinha,  desamassou e leu: “Sou frei Beto e estou no DOPS”. Lamas passou a informação ao repórter que investigou e fez uma matéria, ajudando a salvar a vida do religioso. 

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Depoimentos

"Trabalhei com Olivio Lamas por 12 anos quase ininterruptos, em veículos como Jornal do Brasil, Globo Rural e Pequenas Empresas Grandes Negócios. Por mais meticuloso que seja tecnicamente na busca da melhor imagem, Lamas é acima de tudo um repórter, a informação é o seu verdadeiro foco. Crítico, bem-humorado, mordaz e um ás no volante. Seguramente, o melhor companheiro que já tive em 26 anos de Jornalismo".
Carlos Stegmann, jornalista

“Tenho uma amizade de 40 anos com o Lamas, que sempre foi um grande companheiro em todas as batalhas. É um grande fotógrafo. E o mais importante, com bom caráter. Junta as duas coisas. Batalha por aquilo em que acredita, a natureza e a ecologia. Nós o chamávamos de radical de plantão, pois estava sempre cobrando aquilo que que ele achava estar errado”.
Assis Hoffmann, repórter-fotográfico

 


 

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