Pioneiros do Fotojornalismo

Paulo Dutra | parte II

 

Deixando o folclore de lado

 Falar do lado folclórico do fotógrafo Paulo Dutra é a coisa mais fácil do mundo. Bastam duas a três ligações para se ficar sabendo do “disco voador” e do bode que foi pastar no antigo campo do Avaí, ou citar os noivos que ficaram sem as fotos de seus casamentos por falta de filme na máquina. Fácil! Túlio Carpes lançou para o ar uma calota de veículo, no Campeche, e o Paulo fez a foto, pensando em publicá-la num cantinho qualquer de “O Estado”. Amarelou quando viu que ia ser “Manchete” e confessou.
 Sobre a presença do bode no campo do Avaí, perguntem ao Paulo da Costa Ramos. Segundo Osmar Schllindwein, o seo Osmar, foi ele quem mandou o jovem Dutra achar um e fazer a foto. O próprio Schllindwein e o ex-governador Esperidião Amin podem falar sobre as imagens que possuem de seus casamentos. Outros casos cômicos, alimentados muitas vezes pelo próprio personagem, podem ser citados às dezenas, provocando o riso fácil. Difícil é fazer o Paulo Dutra falar.
 Nascido no dia 22 de junho de 1940, em Florianópolis, filho do oficial músico da PM Paulo Cordeiro Dutra, e de Leonina Santos Dutra, d. Nina, passou a infância e adolescência perambulando pela região da praça Getúlio Vargas. Aos 14 anos se mudou com a família para a rua Tomás João dos Santos, próximo ao Banco Redondo. Estudou inicialmente nas escolas Jurema Cavalazzi e Antonieta de Barros. Fez o antigo ginásio no Instituto Estadual de Educação e estava iniciando o Científico, quando sua vida tomou determinado rumo.
 Paulo fala com tranqüilidade. Marcamos uma entrevista e ele sugeriu o restaurante Pitangueiras, às 10h30 do dia 25 de fevereiro desse ano, em Sambaqui. Ele chegou de ônibus, no horário marcado. O restaurante estava fechado, tivemos que ajeitar e secar mesa e cadeiras. O gravador ficou de lado, desligado. Sua fala pausada permitia as anotações. “Certo dia, em 1957, depois das aulas no IEE, eu e um grupo de amigos fomos de bicicleta para o Estreito. Ao passar pela ponte Hercílio Luz, estavam iniciando as locações do filme ‘O preço da ilusão’”, conta. Aí começa a carreira de Paulo Dutra como fotógrafo. Estava com 17 anos de idade.


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O fotógrafo queria voar

  Os produtores, atores e diretores do primeiro longa-metragem produzido em Santa Catarina logo se acostumaram com a presença do falante e simpático Paulo Dutra, inicialmente responsável pela compra dos sanduíches. Depois, o diretor de fotografia Eliseu Fernandes o ensinou a deslizar o carrinho com a câmera sobre trilhos, usar o fotômetro e os segredos da revelação do filme. “Revelávamos pedaços de uns 30 centímetros para conferir a qualidade da imagem”, conta. “O laboratório de revelação estava montado no porão do Teatro Álvaro de Carvalho. Foi então que eu aprendi toda a química da revelação”.
 Armando Carreirão, diretor do filme, precisou de um fotógrafo de cena e entregou uma Rolleiflex (6x6 mm) a Paulo Dutra e ele cumpriu a missão. Terminadas as gravações, Paulo Dutra foi contratado como cinegrafista para uma produtora de cine-jornal montada por Carreirão. “Fizemos uns 50 filmes”, lembra. Ele estava nessa empreitada quando recebeu um convite de Eliseu Fernandes para um estágio de produção e cinema em São Paulo, o que incluiu passagens pela Atlântica e a Herbert Richard, aperfeiçoando-se como cinegrafista.
 “Mas o que queria mesmo era ser piloto de avião da Varig. Em Florianópolis voei muito de teco-teco, alugava no Aeroclube, que na época ficava onde é hoje o Kobrasol, em São José”, recorda. Deu muitos rasantes pelas águas das baías de Florianópolis, para desespero de d. Nina. “Um dia tu vai morrer”, temia a mãe. A sorte dela foi o pânico que tomava conta do filho na hora de baixar a aeronave. “Eu pegava o avião, levantava vôo, fazia o diabo lá encima, mas ficava apavorado ao aterrissar”.
 Por isso não desistiu da fotografia. Com a Rolleiflex emprestada de Armando Carreirão fazia casamentos, festas e  batizados. “Dava um bom dinheiro. Nos bailes de debutantes, eu fotografava no começo e saía para revelar. Quando terminava o baile eu já estava na saída do Clube Doze, com as fotos prontas para ser vendidas. Tanto no Doze como no Lira”.


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 ...virado pra Lua

  Corria o ano de 1962 e Dominguinhos Aquino dirigia o jornal “O Estado”, localizado na esquina das ruas Conselheiro Mafra com Padre Roma, composto em linotipo, com uso de clichês para as imagens. Paulo Dutra procurou Dominguinhos e disse que “queria fazer fotos para o jornal e ele respondeu que não precisava, mas alguém, não lembro quem, disse que precisava”, conta.
 Mandaram que fotografasse personagens do dia-a-dia da cidade, vendedores, ambulantes, pessoas comuns nas ruas, figuras populares. “As fotos saíam na capa, com texto-legenda escrito pelo pessoal da redação, mas eu não recebia pelos serviços”. Passados alguns meses, Paulo achou que devia receber pelo trabalho e “o Dominguinhos me mandou embora e resmungou que eu devia pagar para ter as fotos publicadas”.
 No dia seguinte foi chamado de volta. Recebia através de contra-recibo toda sexta-feira, no final da tarde. “Ele tirava um bolo de notas do bolso do paletó e me pagava”. Foi nessa época que Paulo fez amizades com o ex-governador Aderbal Ramos da Silva, dono do jornal, que sempre o chamava para fazer fotos de festas de batizado, casamento e outras. A essa altura, Paulo era conhecido como “fotógrafo de rua”, diz, se diferenciando dos profissionais de estúdio, tendo sido procurado por Fulvio Vieira, assessor de imprensa do governador Celso Ramos, para trabalhar no Palácio.
 Lá estavam Nilson Silva, Toló, Nalton e Valdemar Anacleto, que chefiava o setor. Superadas as resistências iniciais ao corpo estranho, certa vez Paulo foi enviado para fotografar a formatura da primeira turma de oficiais da PM, onde aconteceu uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça. Por pura sorte, acabou registrando o choque entre dois aviões e um deles caindo em chamas.
 As fotos foram enviadas através de Ilmar Carvalho para as revistas “Manchete” e “Fatos&Fotos”, onde foram publicadas com destaque, o que lhe abriu as portas  no Rio de Janeiro. Logo chegou o primeiro convite e, apesar da insistência de Salim Miguel e Ilmar, Paulo não foi. Algumas semanas depois, novo convite: ele arrumou as malas e foi embora, levando consigo duas câmeras, uma Rolleiflex antiga e uma Laica.

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 “Surgiu um probleminha”

 Os equipamentos que levou tiveram que ser aposentados. Recebeu uma Rolleiflex nova, 35 mm, e uma Nikkormat. “Se fossem roubadas eu teria que pagar”, ouviu ao receber a primeira pauta: cobrir a presença do navio-escola Sagres, da Marinha de Portugal, que estava atracado no Rio. “Trabalhei os primeiros meses sem carteira assinada, morando em pensão e tendo que pedir emprestado para sobreviver. Um dia me chamaram, assinaram a carteira, pagaram os atrasados e me colocaram no hotel Novo Mundo”.
 Assim foram os anos de 1963 e 1964. Logo Paulo estava atuando (também) como fotógrafo da presidência (João Goulart), depois a Agência Nacional (cargo público que lhe garantiu recentemente a aposentadoria pela UFSC). Na “Manchete”, trabalhavam Raul Caldas e Salim Miguel. Fazia matérias com Alexandre Garcia. Tinha carnê de passagem da Varig, “ia e voltava a Florianópolis”.
 Foi numa dessas que Paulo Dutra se casou com Liane Lamego, ele com 21, ela com 15 anos de idade, surgindo os filhos Paulo Henrique Dutra (advogado trabalhista), Ana Cláudia (mora na Alemanha) e Leila Beatriz. “Estão todos bem”, afirma, voltando ao assunto. “Passou um tempo e eu fui para a ‘Manchete’ em São Paulo, depois Belo Horizonte, Salvador. Em Curitiba morou no hotel Lord, a partir de 1975”.
 Certa ocasião, tendo sido escalado para uma permanecia de três dias no Rio, ficou mais de 30, quase sem ter o que fazer e aproveitando o tempo livre para caminhar. Numa dessas foi abordado pelo engenheiro Colombo Salles, então na direção do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, que o confundiu com outra pessoa, mas por ser catarinense deixou um cartão. “Qualquer coisa me procure, sou amigo do Adolpho Bloch, dono da revista”, disse ao se despedir.
 Passados 15 dias, “surgiu um probleminha” na revista e Paulo se lembrou “daquele senhor de cabelos brancos”, com quem foi conversar. Os dias seguintes foram de tensão, até ser chamado na sala da presidência da empresa. “Bloch revelou ter recebido uma carta de um amigo que ia assumir o Governo de Santa Catarina. Vai com esta outra carta para teu Estado e a apresente ao Colombo”, disse o dono da “Manchete”.


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Nem achaque, nem chantagem

 E foi assim que Paulo Dutra voltou para Florianópolis. Foram bons tempos. “Eu recebia quatro salários: do jornal ‘O Estado’, da ‘Manchete’, do Governo Federal e agora do Governo do Estado”, lembra. “Eles tinham interesse em mim, então permitiam que eu recebesse de quatro fontes”. Atuou durante os quatro anos da gestão Colombo Salles e voltou para a revista “Manchete”, no Rio de Janeiro.
 Realizava seguidas viagens, mas “chegou um ponto em que não podia mais sentir o cheiro da gasolina do avião. Eu sempre tinha um conjunto de ternos limpos no armário, pois acontecia de um dia pela manhã estar na Rocinha e de tarde no gabinete de uma autoridade”. Nesse ponto da narrativa Paulo Dutra faz uma pausa. E eu penso em como seria mesmo fácil só registrar o lado folclórico daquele homem.
 “Naquela época eu era o fotógrafo mais bem pago do sul do Brasil”, destaca, tendo alugado uma sala no edifício comercial Ceísa Center para instalar uma agência fotográfica. A poucos metros, ficava a sala onde o jornalista Paulo da Costa Ramos dirigia o “Jornal da Semana”. E não demorou muito para que o jornal criasse a secção Fototeca, com mulheres semi-nuas, fotografadas por Paulo Dutra.
“Deu muito rolo essa Fototeca. Um dia eu estava na praia da avenida Beira-Mar, quando passou pela calçada uma mulher sem, calcinha”, comenta. “Fiz a foto e publiquei. Outra vez foi a Regina Bortolon com  os seios de fora, fotos feitas no Canto da Lagoa, autorizadas por ela e publicadas. Ela entrou com uma ação e ganhou dinheiro e um aparelho de telefone”.
Paulo começa a encerrar a conversa falando de sua última passagem pelo jornal “O Estado”, onde “entrei e saí uma meia dúzia de vezes. A última foi em 1988, após uma prolongada e desgastante greve na redação. Um dia parei na frente do jornal e o Comelli [José Matusalém Comelli, dono do jornal] me atacou, pedindo que voltasse, pois o jornal estava num momento difícil. Só saí quando cortaram o salário”, em meados da década de 1990.
Atualmente Paulo Dutra monta um site na Internet. Seu acervo de fotos e negativos está espalhado por vários lugares. O que puder ser resgatado, será usado em sua incursão pelo universo virtual. “Vou reunir fotos antigas com atuais”, destaca. Por isso carrega uma câmera digital Digiart modelo 590, 5.0 megapixels. “Bem de vida eu não estou, mas vivo bem e viajo muito. Estou contente. Nunca achaquei ou fiz chantagem com ninguém”.    

 

 

 

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