Pioneiros do Fotojornalismo

Amilton Vieira | parte I



 O filho de dona Tomázia


Foi a mãe Tomázia quem primeiro notou o jeito do adolescente para a fotografia. Ele havia tentado uma colocação como ajudante de mecânica de veículos, mas não dera certo. “E era metido a jogador de futebol e sinuca”, lembra o próprio Amilton Vieira, pioneiro no fotojornalismo em Santa Catarina. Também não se dava bem no xadrez e perdia todas as partidas para o amigo Carlos Brasil.
O mesmo Carlos que um dia o convidou para conhecer o laboratório fotográfico que tinha em casa. “A visita a esse laboratório doméstico mudou minha vida e determinou meu futuro. Tomei gosto”, recorda Amilton, nascido em 1941 em Florianópolis, na época estudante de uma escola pública em Coqueiros, órfão de pai aos 12 anos.
Logo estava fazendo fotos. “Comecei fotografando a ponte Hercílio Luz, modelo principal de todos”, nas diversas situações possíveis, “de dia e de noite, com chuva ou com Sol”, salienta. Ele e o amigo usavam uma Rollleiflex 6x6 e filmes Ilford, “o melhor, às vezes Agfa ou Kodak”. Para revelar “tínhamos que fazer nossa mistura com químicos comprados a granel. Preparávamos nosso revelador, de preferência grão fino”, observa o veterano fotógrafo.
A transposição era feita “primeiro em cópia contato, numa caixa por nós bolada, dentro havia uma luz branca, por cima um vidro grosso. Juntávamos o negativo com o papel fotográfico sob o vidro, apertávamos com a tampa da caixa por alguns segundos, e depois era só revelar e ver o que dava. Se muito escuro fazia-se outra com exposição menor, até acertar. Nisso passávamos noites e noites”.
E assim ia se formando um fotógrafo, sob os olhos da mãe, “uma pessoa sábia, que observava meu comportamento e enxergou no interesse pela fotografia a saída para o meu futuro, e também, uma profissão”. Quando passou pelo bairro um fotógrafo uruguaio fazendo fotos de crianças nas escolas, dona Tomázia não perdeu tempo e arrumou um emprego para o filho.
“Na primeira vez que fui ampliar, fiz todas as ampliações ao contrário. As crianças viraram canhotas. Ao colocar o negativo na máscara do ampliador ele ficou ao contrário, com a gelatina para cima. Foram centenas de fotos jogadas no lixo. Uma decepção. Então ele se tocou e começou a ensinar”, lembra. O uruguaio já fotografava em 35mm, usando câmeras Leicas, e uma Agfa, pesada.  
 

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A fotografia em Florianópolis nos anos 60


Amilton estava com cerca de 17 anos de idade quando seguiu com o uruguaio para Santos-SP, onde ganhavam a vida fotografando os turistas na praia, “as famílias com suas criancinhas, e a noite apresentávamos as provas numa vitrine de farmácia. Os que gostavam encomendavam as ampliações. Era uma vidinha difícil, mas vivíamos disso”. Ainda em Santos, entrou em contato com diversos profissionais da imagem, adquirindo “outras experiências”, até ser obrigado a retornar a Florianópolis. “Tive de apresentar-me ao Exército, fora do prazo legal e, dispensado do serviço militar, fui à luta”.
A década de 1950 estava terminando. A cidade contava com quase cem mil habitantes. O mar chegava até as imediações do Mercado Público, o Miramar funcionava, os navios ainda atracavam no porto. “Na época, o Anacleto, os Lenzi, o Felix e outros eram os donos dos principais fotos da cidade. Fora eles existiam os livre atiradores”.
Os principais clientes eram o Governo do Estado, a Prefeitura e os freqüentadores dos clubes Lira e Doze. “Fora deles existia o mercado de 3x4, postais, casamentos, batizados, festas de aniversários e as colunas sociais”. O “filé”, segundo Amilton, “estava em ser exclusivo nos clubes, Doze ou Lira, principalmente por seus desfile e baile de debutantes”.
A atividade rendia “um bom dinheiro” e todos trabalhavam com formato 6x6. Os estúdios de 3x4 usavam chapas 9x12 ou 4x5, possibilitando “retoques para tirar as rugas e outros estragos no rosto das pessoas”. Naquele início da década de 1960, “eu já era um feliz proprietário de uma câmera Rolleyflex e um flash Pic”, para orgulho de dona Tomázia.
Com um ex-participante da missão militar brasileira em Suez, sob a bandeira da ONU, Amilton conseguiu adquirir um equipamento Agfa completo: câmera Agfa-Flex 35mm, com lentes 50mm (normal), 35mm (grande angular) e 135mm (meia-tele). “Foi um feito. Ninguém tinha 35mm, ainda mais com essas objetivas. Minhas fotos surpreendiam principalmente com grande-angular. O feito durou pouco tempo, pois logo todos já tinham suas câmeras compactas, mas sem as objetivas”.
   

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Rumo ao fotojornalismo


Tudo isso serviu de aquecimento. A família ajudou e ele adquiriu o estúdio (foto) que tinha exclusividade com o clube Doze. Mas já era um “empolgado com a atividade jornalística” e aguardava na praça 15 de Novembro a chegada dos jornais “Última Hora” e “Jornal do Brasil”, e das revistas O Cruzeiro (“minha predileta”) e Manchete (“com menos reportagem”).
Fazia parte do “grupo dos fornecedores da alta sociedade catarinense”, na época reunida no clube Doze. “Conheci a família Ramos e outras figuras proeminentes da política e da sociedade”, recorda. Foi nesse período que conheceu Zury Machado, já um importante colunista social. As fotos de Amilton passaram a ilustrar suas colunas no jornal “O Estado”, então instalado num sobrado na esquina das ruas Conselheiro Mafra com Padre Roma. 
“Através dele conheci outras pessoas, alguns jornalistas, entre eles um da minha idade, 20 anos, Osmar Schllindwein, sobrinho do diretor do jornal”, Dominguinhos Aquino. “Ficamos amigos e como já estava cheio desse negócio de fazer sociais, clube, vender fotos etc., combinamos que eu iria para o jornal. Vendi minha exclusividade no Doze e montei, talvez, a primeira estrutura de fotojornalismo dentro de jornal em Santa Catarina”.
Ou seja, um laboratório fotográfico visando especificamente a produção jornalística. “Era tudo muito precário. O laboratório foi instalado no espaço disponível, embaixo da escada, que era o que estava vago”, situação que não impediu Amilton de fazer aquilo que queria: “jornalismo, o que interessava era fazer reportagem fotográfica”.
No começo, tudo era novidade. Mas quando virou rotina, o jovem havia perdido as ilusões. “O jornal só publicava material fornecido pela assessoria do Palácio. Achava vergonhoso, que jornalismo era esse!”. Não existia pauta, “vim conhecer em São Paulo”, salienta. “Ficava sabendo dos assuntos, escutando noticiário de rádio e em conversas com colegas. Escolhia algum que achava que daria boa imagem e ia cobrir”.

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Imagem, a nova sensação


O esforço de Amilton deu certo e logo “os colunistas e redatores perceberam que o jornal ficava mais bonito com fotos” e “passaram a solicitar imagens para suas matérias. Era bom. Eu participava de toda a execução do jornal – da reportagem ao fechamento. Acompanhava a montagem das páginas na bancada, a gravação das páginas em zinco e depois a rodagem na roto-plana, até a distribuição para as bancas e jornaleiros. Tinha a empolgação de todo principiante”.
Olhando aquele período algumas décadas depois, Amilton acentua que a “aceitação do jornal ilustrado com fotos foi espetacular”. O sucesso foi tamanho que “chegamos a fazer páginas inteiras com fotos, de texto apenas um título, uma apresentação e as legendas identificadoras. Os outros jornais vieram na cola, foram lançados novos veículos, já tendo na sua fórmula gráfica a imagem como parte importante na apresentação das notícias”.
A mesma inquietação que o livrou de ser mecânico, jogador de futebol ou de sinuca, e mais tarde se desfazer do “filé” da exclusividade com o clube Doze, levou Amilton para São Paulo. “Eu não era contratado pela CLT. Era o que chamamos hoje de frila fixo ou Pjota, o que recebe dando nota fiscal”.
O jornal “O Estado”, por outro lado, “era muito ruim de impressão, isso foi ficando chato e limitado. Até que cansei e não via possibilidade de melhoria na imprensa local. Havia muita interferência política nas matérias e muita dependência financeira do governo”. Como não lhe interessava retornar à atividade anterior e sem “nenhuma outra perspectiva em Florianópolis”, resolveu se transferir para a capital paulista, “só que desta vez decidido a ser jornalista: repórter fotográfico”. 

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Detalhes
* Amilton foi repórter-fotográfico dos jornais “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Panorama” e “República”, e das revistas “Veja”, “4 Rodas”, “Repórter Três”, “Afinal” e “Globo Rural”, entre outras.
* É editor fotográfico (licenciado) da Editora Globo-SP.
* Ativista sindical (Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e Fenaj), representa a categoria no Fórum Intersindical da Comunicação (FICO).
* Em 1995 foi homenageado pelo MST como “Personalidade da Reforma Agrária” com o prêmio “Luta pela terra”.
* Realizou a exposição individual “Andanças” e participou de amostras coletivas.
* Ganhou três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo – 1966 (“O Estado”) , 1967 e 1968 (o último no “Jornal da Tarde”, com Cláudio Cerri e Oswaldo Maricato).
* Mora em São Paulo. E-mail: amilton@ctres.com.br.  

 


 

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