Repórter Historiador

Marco Nascimento | Memórias de um cinegrafista de guerra - parte III

 

Bendito rolo de fita adesiva

 Os jornalistas que cobriram a guerra no Iraque em 1991 não levaram em suas bagagens apenas equipamentos, papel e caneta. Além do vestuário, sempre havia um suprimento extra de fitas adesivas com cinco centímetros de largura, como se o sujeito tivesse por missão colar cartazes nas paredes. Útil para improvisar soluções com a iluminação e câmeras, a fita também era usada para evitar a entrada de gases tóxicos nos quartos dos hotéis.
“A gente chegava e se trancava no quarto. Colocava a fita em X nas vidraças e vedava todas as entradas de ar”, conta Marco Nascimento (Stica), cinegrafista de guerra e outros temas ao longo de duas décadas, sediado em Londres. Ao serem atacados pelas forças lideradas pelos EUA, os iraquianos reagiram lançando mísseis Scud sobre Israel, que conseguiu interceptar quase todos com os mísseis Patriot.

 Após a fita adesiva ter cumprido seu papel, iam dormir e, não raro, “o aparelho de televisão acendia automaticamente, com uma tela vermelha informando o lançamento de um Scud”, lembra Marco. “Passava um tempo, aparecia uma tela azul e a informação de que o Scud fora derrubado por um Patriot”.
Mas as bagagens não estavam repletas só de fitas. Ampolas de vacina contra o antraz e a varíola, permanecem cuidadosamente guardadas para qualquer eventualidade. Um adesivo fixado na roupa muda de cor na presença de qualquer contaminante, indicando a necessidade de colocação de máscaras contra gases. “Quando a cor muda o sujeito tem de 30 a 40 segundos para colocar a máscara”, assinala.
Em Israel, durante a operação Tempestade no Deserto (ver quadro), “muitas pessoas morreram asfixiadas por colocar as máscaras e esquecer de retirar a tampa de proteção, o que impede a respiração”. Nos Emirados Árabes, um folheto distribuído a turistas e jornalistas avisava: pássaros caindo das árvores indicam contaminação. “O problema é que nessas cidades não existem árvores nem pássaros”, diz Stica.

 Certa vez na Palestina, um garoto “com a idade dos meus filhos e que estava armado lutando”, ensinou Marco a se prevenir do gás lacrimogêneo, “passando alho próximo aos olhos como um índio faz para se pintar”. Além das intoxicações, existiam as bombas. No Líbano, por exemplo, a equipe de Stica estava no sétimo andar de um hotel, quando explodiu um poderoso artefato no quinto. “Nessas horas a gente apanha os equipamentos e sai correndo para ver o que aconteceu”.         


Foto 2| Tell Aviv (Israel), 1984. Foto| Benevides Neto
Foto 3| Marco e Sílio Bocanera, indo de Chipre para o Líbano, 1982. Foto| Ian McCalling (fotógrafo de guerra, da Escócia)

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Um mala, os escudos e a “The road to Badga”

 Quem se envolve na cobertura de uma guerra fica sujeito a todo tipo de imprevistos, como ver surgir sem saber como, um “inglês falante”, ex-membro da SAS da Inglaterra criada para combater o IRA, mercenário que atuava na área da contra-informação. A equipe estava hospedada no Hilton em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes, quando o sujeito grudou. Seu interesse era vender 35 mil máscaras contra gases e tentou a todo custo emplacar alguma matéria.
“Ele nos dava muitas pautas, sabia o que estava acontecendo”, lembra Marco Nascimento, além de “espalhar que Saddan tinha o gás e que já tinha usado contra os curdos”, lembra. Ficou 22 dias no pé da equipe, até que fizeram a matéria com ele sobre máscaras, pois os mísseis Scud estavam caindo sobre Israel e podiam conter gases tóxicos. “Depois outras emissoras foram atrás dele”.
Ainda nos Emirados Árabes, nos momentos que antecederam a primeira invasão do Iraque (1991), Marco e sua equipe tiveram contatos com funcionários da empresa Mendes Júnior que realizava obras naquele país. “Os caras estavam desesperados, pediam que o presidente fosse buscá-los”, recorda. Fizeram matéria com eles, mandaram para os noticiários da Globo.

 No outro dia a mãe de um deles ligou apavorada por que o filho estava no meio de uma guerra. “Quem está no meio de um conflito não tem dimensão do que acontece, mas quem está longe, acompanhando vários noticiários, lendo o jornal, compreende melhor o que está rolando”, explica Marco. Por isso o funcionário ficou contrariado, achando que estavam fazendo mais do que era, ou seja, que não havia guerra nas proporções a que sua mãe havia se referido. “Eles acabaram sendo usados como uma espécie de escudo-humano”.
Um episódio chocante ficou marcado na memória do cinegrafista, ocorrido no final da guerra, quando militares e civis iraquianos e trabalhadores palestinos, retornavam do Kuwait. “Eles levaram kuwaitianos como reféns para ir trocando no caminho, mas as forças aliadas não quiseram nem saber: franceses de um lado, ingleses de outro e norte-americanos fechando o cerco, bombardearam o comboio”.
O caso que ficou conhecido como “The road to Badga”, cuja divulgação foi parcialmente censurada, matou milhares de iraquianos, palestinos e pessoas de outras procedências (ver quadro). “Queimou tudo, inclusive os reféns, e não se sabe quantos morreram. As tropas abriram buracos no deserto para enterrar os mortos e fecharam”, lembra Stica. Mais tarde, soube de pilotos ingleses terem comentado: “Foi como pescar num aquário”.
A censura, aliás, é uma constante, disfarçada em dificuldade de transmissão por parte de quem controla as comunicações via satélite. “Se a notícia não agradasse, não era transmitida. As indicações nas credenciais que recebíamos, orientando os funcionários locais que ajudassem os correspondentes, era uma forma indireta de controle”, observa. 

Foto 4| Edição de matéria no hotel em Teerã (Irã), no enterro do aiatola Komeini. Foto| Magnus Machado
Foto 5| Mussa, guia palestino, na Jordânia, inseparável. Só atacava ordens de Stica, 1990. Foto| Jaime Brito

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Cronologia da guerra |

1990
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2 de agosto
As tropas do Iraque tomam o Kuwait.

Novembro
A ONU autoriza o uso de "todos os meios necessários" para forçar o Iraque a abandonar o Kuwait

1991
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17 de janeiro de 1991
Aviões dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de outros países aliados realizam o primeiro ataque ao Iraque. Em seis semanas, mais de 116 mil viagens de ataque e 85 mil toneladas de bombas. O Iraque revida com mísseis Scud sobre Israel (39 no total), quase todos interceptados por mísseis norte-americano Patriot.

24 de fevereiro
As tropas aliadas lançam grande ofensiva aérea, terrestre e marítima e derrotam os iraquianos em cem horas mais tarde.

27 de fevereiro
O Kuwait é liberado.O presidente George Bush anuncia um cessar-fogo. Milhares de soldados iraquianos são capturados e muitos se rendem sem resistência - estavam exaustos, famintos e com baixo moral. Cerca de 150 mil soldados do Iraque desertaram. Os aliados perderam cerca de 300 homens. Entre os iraquianos são estimados 60 mil a 200 mil soldados mortos.

26 de fevereiro
O Iraque anunciou a retirada de todas suas tropas do Kuwait. Durante a retirada, as forças aliadas bombardearam a longa coluna de tanques, veículos blindados, caminhões e tropas iraquianas, que fugiam do Kuwait em direção à cidade iraquiana de Basra, matando entre 25 mil e 30 mil iraquianos.

Fonte | BBC Brasil

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A Inglaterra não é mais a mesma
 
 Londres é uma cidade com 1.579 quilômetros quadrados e uma população de 7,5 milhões de pessoas. Entre março e outubro a temperatura oscila de 11 a 16 graus centígrados, permanecendo o restante do ano entre 4º e 8º C. Foi nesta cidade que Marco Nascimento morou entre meados da década de 1970 e início de 2000, período em que toda a Inglaterra passou por profundas transformações.
Quando ele chegou, o país era um exemplo de Estado de Bem Estar, existente em diversos países europeus desde o fim da Segunda Guerra, representado na concessão de amplos benefícios sociais à população. Objetivo: frear a propaganda comunista. “A polícia não usava armas e os direitos sociais eram garantidos”, lembra. Aos poucos tudo isso mudou e, na ótica do cinegrafista, auxiliado por alguns “abusos”.
“Se você encontrasse uma casa vazia podia ocupar. Entrava, trocava a fechadura, e o dono só ia reaver o imóvel seis meses depois”, exemplifica. “O sujeito ia na companhia de água e luz, trocava o nome do titular e não pagava os atrasados, nem pagava mais”, acrescenta. Ele também não trabalhava, vivendo com uma pensão do governo. E se o imóvel precisasse de reforma, “aparecia novamente o governo e fazia a obra”.

 Também surgiu a figura do “refugiado econômico”, na maioria italianos e turcos, visando usufruir o “SUS inglês”, que garante pleno atendimento de saúde. “O sujeito pisava em solo inglês e tinha direito a alojamento, comida e ajuda de custo por seis meses. Nesse meio tempo aproveitava para se tratar”, acrescenta.
Casos como esses irritavam os ingleses, abrindo caminho para a ascensão da primeira-ministra Margaret Thatcher e suas políticas neoliberais antes do neoliberalismo. “O tchatcherismo acabou com isso tudo, iniciado com Tchatcher e complementado por Tony Blair”, o ex-primeiro ministro trabalhista britânico. “Ela peitou os sindicatos, que paravam o governo, deixando a sociedade sem combustível, gás e carvão ou coleta de lixo”, lembra. O 11 de Setembro nos EUA “mudou tudo”, inclusive no plano das liberdades individuais.
Até o charme do fog londrino se dissipou, assim como a neve que caía no inverno. “A neblina natural está diminuindo a cada ano”, explica. Além disso, a queima de lenha para aquecimento no inverno e que provocava fumaça, foi proibida. Agora só o carvão mineral que não provoca fumaça. Com isso a intensidade do fog diminuiu sensivelmente. No período de Natal, apostam se vai ou não cair neve. Um floco é suficiente para se dizer que nevou.

Foto 6| Marco Nascimento, Beth Lima (repórter), Margaret Thatcher, Sílio Bocanera e Paulo Pimentel (câmera). Após entrevista com a primeira-ministra da Inglaterra, em Londres, antes da visita que ela fez ao Brasil, em 1997. Foto de um acessor de Thatcher
Foto 7| Da esquerda para a direita: Marco, Gonçalo Gomes (produtor), Meg Cunha (produtora), Sílio, Renato Machado e Paulo Pimentel. Restaurante em Londres, cerca de 1988. Foto de um garçom

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As regalias de Londres

 Apesar de tudo Londres continua no centro das coisas, onde está o zero do relógio (horário de Greenwich) e “de onde se chega rapidamente a qualquer lugar do planeta”, considera Stica Nascimento. “Todas as principais emissoras do mundo têm seus escritórios aqui, onde são controlados por satélite os vôos que partem para a América e outros continentes”.
Londres concentra inclusive o noticiário. A BBC é um exemplo, divulgando um fato ocorrido na Argentina antes que a informação chegue ao Brasil. “Na guerra do Iraque em 1991, Saddan Hussein acompanhava as notícias pela BBC, depois pela CNN, por causa do Peter Arnnet que estava ao vivo em Bagdá”, salienta Marco.
A capital inglesa é também um pólo cultural de excelência, tanto em literatura e cinema, quanto teatro, artes plásticas e a música. Marco observou de perto muitas dessas produções, fazendo matérias para a Globo. “Nos intervalos entre as guerras cobríamos o dia-a-dia de Londres, comportamento, cultura”, diz. Com a repórter Beth Lima cobriu grandes eventos culturais e exposições de artistas do porte de Rembrandt e Picasso.
Mas ocorriam problemas nessas coberturas. Certa feita, ao acompanhar com o repórter Pedro Bial uma manifestação antinazista, um grupo de “skinreads” provocou tumulto e houve intervenção policial, com bombas e sinalizadores de fumaça. “Estava filmando quando um cavalo surge na câmera”, lembra, sentindo uma pancada na mão que segurava o equipamento, machucando.
A tensão só ia embora quando ele voltava para sua casa – uma cobertura da Agyll Mansion, uma construção histórica centenária na High Street Kensington, no bairro Hammersmith, distante cerca de 500 metros do Kensington Palace, onde morava a princesa Diana. Marco, Lesley e os filhos Gabriel e Cauê dispunham de cinco quartos, cada qual com sua lareira, além de uma lareira central enorme, e outras dependências.  
Ali perto ficava o Hyde Park, onde qualquer pessoa pode subir num caixote de madeira e falar o que bem entender. “Uma vez que está sobre o caixote e não pisa em solo da rainha, então pode falar”. Parques e jardins existem por todos os cantos de Londres. Quando a família veio para o Brasil, o apartamento foi vendido para uma baronesa alemã. Em troca, desfrutam hoje da natureza em Santo Amaro da Imperatriz e da visão das pontes e do estreito que separa as baías Norte e Sul de Florianópolis, onde possuem residências.

Foto 8| Cartão-postal lançado no centenário da mansão em Londres onde Stica e a  família moravam

    
  

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Guerra do Contestado | parte II
Inverno de 30º em Salvador
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