Fala Natureza

Paixão pelos animais marinhos transforma trabalho em prazer

 Binóculos, luneta, teodolito (aparelho usado para medir áreas) e uma vista privilegiada do mar são os instrumentos de trabalho de Karina Groch, 33 anos, doutora em Biologia Animal e coordenadora do Projeto Baleia Franca (PBF), sediado em Imbituba, no sul do Estado. Com estes instrumentos, é possível monitorar diariamente a presença das baleias francas, freqüentadoras assíduas da costa catarinense e que compõem um indescritível espetáculo durante a estação mais fria do ano. O carinho de Karina pelos animais marinhos surgiu logo na infância, quando visitava uma vez por ano o litoral, no verão, já que morava em Erechim, noroeste do Rio Grande do Sul.

 Desde 1993, a bióloga dedica boa parte de sua vida à atividade e aos estudos. Apesar da oportunidade de exercer a profissão ao ar livre, próxima à natureza, é preciso dedicação, disciplina e responsabilidade. Há dez anos no Projeto Baleia Franca, Karina precisa de energia para enfrentar a rotina intensa. O dia começa às sete horas, com os relatórios de cada um dos 18 estagiários que coordena e o mapeamento dos 400 quilômetros de extensão de litoral, desde o norte de Florianópolis (SC) até Cidreira (RS). Ali, ela verifica a reação dos animais nas mais distintas condições, em relação às variações do clima e o comportamento dos mamíferos durante as visitas das embarcações turísticas. Em várias situações, a bióloga e a equipe passam dias seguidos acompanhando uma mesma baleia e, uma vez por mês, a rotina é quebrada para o sobrevôo de censagem e identificação individual. A correria não acaba antes do pôr-do-sol. Na manhã seguinte, lá está a brava bióloga no batente outra vez, analisando relatórios, mapas com a mesma energia e prazer da época em que optou por cursar Biologia. E ainda há quem ache fácil o trabalho de observar baleias.

O período que exige mais esforço vai de julho a novembro, o ápice da migração reprodutiva dos animais, mas o trabalho pesado não se limita a estes meses. De dezembro a maio é o momento de organizar e analisar os dados compilados e dedicar o tempo a eventos nacionais e internacionais. É tempo também de dar atenção à família, que fica em segundo plano quando as baleias chegam ao litoral brasileiro.

Reconhecimento

Apesar do Projeto Baleia Franca ter mais de dez anos, somente em setembro de 2003 foi possível inaugurar o Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, na praia de Itapirubá, com recursos da Petrobras, patrocinadora oficial do projeto e apoio das empresas Itagres, FunDive e Intelbras, em terreno doado pela comunidade. Em setembro deste ano, a equipe recebeu um verdadeiro presente ao verificar, durante um sobrevôo, o número recorde de 194 baleias entre a costa catarinense e gaúcha. O volume de cetáceos fez Karina levar dois dias para percorrer toda a área planejada – normalmente o trabalho dura um dia inteiro. “É gratificante sabermos que o trabalho do passado está tendo reflexo positivo”, vibra. A experiência com baleias também lhe garantiu a participação em inúmeros eventos no Brasil e exterior e o conseqüente. Desde 2002, ela integra a delegação oficial brasileira da Comissão Internacional da Baleia e no ano passado foi indicada chefe da Delegação Científica Brasileira. “Foram pequenas sementes plantadas com o passar dos anos”, avalia. Viagens à Argentina e aos Estados Unidos, berço das pesquisas com baleias francas, também são freqüentes para intercâmbios, treinamentos e especializações.

Após concluir o Doutorado no ano passado, Karina tenta dedicar uma parte maior do tempo à vida pessoal. Solteira, mas namorando há 10 anos, ela quer constituir família. “Não casei até agora porque eu quis assim. Caso estivesse casada e com filhos, provavelmente não teria chegado até aqui. Meu namorado sempre teve muita admiração e respeito pela minha carreira e isso foi importante”. Mas uma coisa ela deixa bem clara ao namorado, “não me faça escolher entre as baleias e você”.

Cronologia

* 1993 - estagia no Projeto Tamar, na Praia de Guriri, Espírito Santo.
* 1994 - vai à cidade de Caravelas, na Bahia e integra o Projeto Baleia Jubarte.
* 1995 - vai para o Arquipélago de Fernando de Noronha, onde realiza pesquisa sobre os golfinhos rotadores.
* 1995 - estagia por 20 dias no Atol das Rocas, junto ao Projeto Tamar.
* 1996 - inicia o estágio em Imbituba, no Projeto Baleia Franca.

photos by: Jose Truda Palazzo e Enrico Marcovaldi

       
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