Pioneiros do Fotojornalismo

Rivaldo Souza | parte IV



RIVALDO SOUZA (Criciúma, 2.1.1955 – Florianópolis, 24.11.1989)
Um jeito diferente de ser repórter fotográfico 


O orgulho de dona Bernardina


 Dona Bernardina de Jesus de Souza, 88 anos, lembra “como se fosse ontem” da ocasião em que o fotógrafo Orestes de Araújo apareceu em sua casa no dia 3 de janeiro de 1975. “Ele foi convidar meu filho para trabalhar de fotógrafo no jornal”, lembra. “Fui no quintal, matei uma galinha e fiz um ensopado para os dois. Isso aconteceu um dia depois que ele fez 20 anos”. Na época ela morava na avenida Centenário, em Criciúma, e hoje, viúva e residente em Barreiros (São José), fica emocionada ao mostrar as fotos do filho.
Nascido no dia 2 de janeiro de 1955, filho do relojoeiro Leôncio e de d. Bernardina, Rivaldo Souza começou a se interessar pelo mundo das imagens quando ainda era criança e visitava a casa de um vizinho, Donaldo Martins, que mexia com fotografia e cinema. Passou a infância e adolescência entre os trilhos da estrada de ferro e os caminhões de transporte de carvão mineral, sempre atento aos relatos dos movimentos sindicais dos mineiros.


 “Desde que ele conheceu o Donaldo Martins passou a ler tudo que encontrava pela frente sobre fotografia. Fez curso por correspondência, interrogou profissionais do ramo a quem ouvia atentamente”. Certa época, “conheceu o dono do Foto Vieira, em Tubarão e fazia freqüentes viagens àquela cidade para aprender os segredos da revelação do filme num laboratório”, recorda a viúva Abgail Madeira (Biga).
Aliás, Rivaldo e Biga eram vizinhos, cresceram juntos. “A nossa casa era grande e a turma do meu irmão estava sempre lá, era o clube deles”, lembra Biga. “Chegou uma época, eu já era mocinha, e o Rivaldo estava sempre atrás de mim”, acrescenta, para desespero da mãe dela. Os dois se casaram mais tarde, em Florianópolis, dando origem a Eduardo Tiscoski de Souza, nascido em 15 de fevereiro de 1981.
Com 19 anos de idade já fazia fotos para a sucursal do jornal O Estado, em Criciúma. Após haver estudado nos colégios Lapagesse e Teresa Michel, esse último administrados por Freitas, Rivaldo havia ingressado no curso de Letras. Foi nessa condição que Orestes de Araújo o encontrou no início de janeiro de 1975. “Ele demonstrou interesse em se mudar para Florianópolis e ingressar na equipe em formação”, destaca Orestes, que não se recorda da galinha ensopada que d. Bernardina preparou. 


Detalhes de uma trajetória
  

 “Ele chegou tateando o terreno, mas aos poucos foi se ambientando e foi ganhando a simpatia dos colegas”, recorda Orestes de Araújo. Na época em que ele começou, o jornal o Estado ainda funcionava na rua Felipe Schmidt. Assim que se firmou como profissional, passou a fazer frilas para o Jornal do Brasil, com o correspondente Raul Sartori, e para a revista Visão, com o jornalista Pedro Schmidt. Também fotografou para o Jornal da Semana e a revista Quem, passando pela redação do Bom Dia, Domingo, tendo assinado fotos com pseudônimo no tablóide alternativo Afinal, todos em Florianópolis.

 Na década de 1980, já com alguns prêmios conquistados, atuou na sucursal de Florianópolis do Jornal de Santa Catarina, sendo chamado para integrar o grupo pioneiro na criação do Diário Catarinense, onde foi fotógrafo, sub-editor e editor de fotografia. Integrou, a partir de 1987, a equipe do governador Pedro Ivo Campos, a quem acompanhava nas viagens e nas audiências, solenidades e despachos.
Entre os prêmios que ganhou, um foi da Calói – um homem em Joinville usando a muleta para impulsionar um dos pedais da bicicleta, valendo uma viagem de 30 dias para Nova Iorque, em 1980. Também recebeu o Prêmio da Estrada de Ferro (uma pomba sobre um trilho) e da Associação Nacional de Veículos Automotores, entre outros. Morreu no final da tarde do dia 24 de novembro de 1989, tendo sido sepultado no Cemitério de Barreiros, no município de São José.   

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Depoimentos

Colega solidário


 Conheci o Rivaldo na segunda metade dos anos 70, ele recém vindo de Criciúma pra trabalhar na redação de O Estado. Tinha um jeito simples do interior, mas era um repórter fotográfico arguto, autodidata, sempre pronto a discutir pautas, dar sugestões, um cara com sensibilidade apurada, permanentemente em busca da melhor foto.
Na época eu trabalhava com esporte, cobria futebol e o jornal dava grande valor às  participações dos principais clubes catarinenses, tanto em campeonatos estaduais como em nacionais. De forma que viajávamos quase todas as semanas, repórter e fotógrafo, e em várias oportunidades o parceiro foi o Rivaldo.
Nessas ocasiões é que conheci ainda melhor o colega solidário e pronto para as melhores coberturas. Com ele não tinha tempo ruim. O bom humor predominava. Sempre com uma boa história pra contar. E ligado no clic da máquina fotográfica, mesmo que para um registro qualquer de um fato curioso, um acidente na estrada, ou acompanhando com atenção a entrevista pra captar a melhor expressão do entrevistado, o melhor lance do jogo...
Fomos amigos de trocar visitas e dar muitas risadas com suas histórias engraçadas. Em 84 deixei o jornal, mas continuamos nos encontrando pela cidade. Cada um enfrentando novos desafios profissionais. E foi com surpresa que, à época morando no interior, fiquei sabendo da morte prematura do baixinho. Uma perda difícil de assimilar. Por muito tempo fiquei me perguntando, sem compreender, o que o havia motivado a partir. Deixou saudades.
Pedro Schmitt, jornalista


Sabia trabalhar em equipe

Tinha no Rivaldo um filho e creio que ele também me tinha um pouco como pai. Era espirituoso, brincalhão, às vezes chamado de encrenqueiro, pois questionava as coisas e estava certo ao agir assim. Mas era acima de tudo um grande companheiro, sabia conquistar as pautas, lutava por elas, mas nunca passou a perna num companheiro por causa disso. E sabia trabalhar em equipe, numa época em que a informação sobre o trabalho circulava e todos aprendiam coletivamente.
Orestes de Araújo, repórter fotográfico


Bem nas fotos

“Profissionalismo, competência e total dedicação. Assim se pode resumir o trabalho de Rivaldo Souza. Como repórter-fotográfico era um obstinado na busca por novas informações e diferentes composições para as suas fotos, que sempre resultavam em imagens que retratavam a realidade do cotidiano catarinense. Nas muitas vezes em que sentávamos para conversar, Rivaldo contava das peripécias e estratégias para conseguir uma foto, muitas vezes burlando as eventuais blindagens feitas em determinados assuntos ou pessoas. Mas desistir não era de seu feitio.
Na luta sempre, dizia com empolgação, e sempre trazia o material necessário para bem informar os leitores. Nas reportagens diárias dos jornais estaduais, era fácil identificar o trabalho do fotógrafo, que sempre conseguia algo mais em seus enquadramentos. Rivaldo foi um dos personagens da imprensa catarinense que sempre é lembrado quando o assunto envolve um grande furo de reportagem ou uma imagem marcante. O fotógrafo se foi, mas ficaram os seus ensinamentos e a sua inesquecível obra, que para muitos ilustrou com fidelidade uma época da história de Santa Catarina. Sempre esteve bem nas fotos”.
Cao Carvalho, jornalista


 

 

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