Repórter Historiador

Marco Nascimento | Memórias de um cinegrafista de guerra - parte IV




Um encontro com colegas de Florianópolis

 Cansado de saber que as imagens mais fortes não são aproveitadas no noticiário, o cinegrafista se vê tentado a não fazer mais certos registros, por parecerem inúteis.  “A pior coisa que pode acontecer com a gente é deitar a cabeça no travesseiro e não conseguir dormir por ter deixado de fazer essa ou aquela cena”, comenta o veterano profissional da imagem Marco Nascimento, numa conversa com colegas de profissão promovida pela revista Mural.
Além de quatro cinegrafistas em atividade em Florianópolis, Marco Nascimento pode dialogar sobre suas vivências como cinegrafista de guerra baseado em Londres, com outros profissionais, como o produtor de vídeo José Juarez Stakonski, o historiador Felipe Corte Real de Camargo e o jornalista Rafael Carvalho. Os cinegrafistas Edson Silva, Alexandre Cruz, Alexandre Pinho e Davi dos Santos participaram do bate-papo.

 Entre lascas de churrasco, muita salada e alguns goles, o tema central da conversa girou em torno das condições de trabalho e da missão do câmera. Marco Nascimento, sob os clics permanentes do irmão Marco Cezar, discorreu sobre sua atividade como funcionário da Rede Globo em Londres, da BBC e de outras emissoras européias, durante o período em que residiu na capital inglesa, entre o final dos anos 1970 e o início da década de 2000.
Hoje morando um pouco em Santo Amaro da Imperatriz e outro tanto numa cobertura nos altos da rua Felipe Schmidt, em Florianópolis, Marco Nascimento debateu sobretudo com os colegas em torno de um tema delicado, o da relação dos profissionais da câmera com os repórteres. “Se houver sintonia entre o repórter e o cinegrafista, não é necessário um assistente de câmera. Aliás, o fundamental em todas as situações, especialmente as de guerra, é o trabalho de equipe”, destacou.

 Durante filmagens de conflitos bélicos ou de rua, a presença de um assistente ou o olhar atento do repórter pode evitar que alguém atinja o cinegrafista por trás, enquanto ele está com um olho aberto no visor e o outro fechado. “Existem situações em que a gente se vê sozinho, como se fosse uma árvore de Natal, com câmera, tripé, cabos e baterias, tudo pendurado na gente”.
No caso de Stica (Marco Nascimento), funcionário de uma emissora pequena em comparação com a CNN (Estados Unidos) e a BBC (Inglaterra), o trabalho era redobrado. “Nas guerras sempre vai um produtor e um assistente de câmera, mais o repórter e o cinegrafista, num total de quatro pessoas. Emissoras como a BBC, por exemplo, chegam a atuar com equipe de até oito integrantes. Mas nem por isso chegávamos depois nas coberturas e até por causa da equipe menor, tínhamos mais agilidade e estávamos na frente muita vezes”.

Foto 1| Cinegrafistas Edson Silva, Davi dos Santos, jornalista Rafael Carvalho, Stica e os cinegrafistas Alexandre Cruz e Alexandre Pinho
Foto 2| Com o repórter Pedro Bial, Paulo Pimentel e jornalistas portugueses, em 1988
Foto 3| Com Renato Machado, em Paris

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Veterano da imagem continua no ramo

 Imagine Marco Nascimento chegando numa cabine para transmitir por satélite as imagens captadas no dia. “É um cubículo”, lembra. Ele senta diante de uma mesa de operação e tem por trás um grande espelho. Atrás do espelho há um funcionário do governo local encarregado de observar o que está sendo transmitido. Se aparece alguma sonora ou imagem inconveniente, o diligente censor bloqueia a transmissão, fazendo aparecer barras coloridas na tela.
“Isso aconteceu com freqüência na Arábia Saudita, mas todos os países controlam ou monitoram essas transmissões”, observa. Em Israel não há censura, mas ao receber a credencial, o jornalista se compromete a submeter o material a verificações, caso seja necessário – os israelenses acompanhavam de perto os passos dos correspondentes e sabiam de antemão quais as matérias produzidas. A censura se tornou mais aguda durante a primeira guerra no Golfo, contra o Iraque.
 
 Além disso, agentes de serviços secretos de diversos países se infiltram entre os jornalistas e correspondentes internacionais, “colocando em risco equipes inteiras”, salienta Marco Nascimento. Cerca ocasião, o produtor de uma equipe de televisão norte-americana que realizava cobertura de guerra, era integrante de uma agência de informações daquele país. “A gente notou isso pelas perguntas que ele fazia, sem nenhum interesse jornalístico”. Os deslocamentos também são acompanhados, quase sempre limitados, sempre visando dificultar a obtenção de imagens e informações, prática comum em quase todas as nações, independente da coloração político-ideológica.
Seguindo num ritmo informal, a conversa chegou a uma questão inevitável: vale à pena tudo isso? “A gente ganha bem, mas corre risco de vida 24 horas por dia”, afirma, lembrando os primeiros tempos da atividade perigosa. “Depois de passar 82 dias no Oriente Média por volta de 1990, certa vez voltei para casa. No aeroporto de Londres era aguardado com novos equipamentos e a mala de roupas que haviam apanhado em minha casa. Não pude nem ver a família e já segui para outro trabalho”.

 Seu filho mais velho, Gabriel, enfrentou momentos de pânico durante a primeira guerra no Golfo, ouvindo o noticiário das emissoras sobre o conflito. “Na escola pediram um trabalho escrito sobre a guerra e ele se recusou a fazer. Depois de muita conversa é que foram saber o motivo”, recorda o pai. Esse foi um dos motivos que o fez deixar a Inglaterra e retornar ao Brasil, onde poderia criar melhor os dois filhos – além de Gabriel, Marco e Lesley são pais de Cauê. 
 E dorme tranqüilo. Afinal, ao longo de sua carreira, fez todas as imagens possíveis de ser feitas, sem se importar para o fato de elas virem a ser usadas ou não. Se alguma coisa ficou para trás, não foi por opção. Os que conversaram com ele em meados de agosto no restaurante Beira-Mar Grill a convite da revista Mural, notaram a humildade do veterano, evidenciando a persistência, o companheirismo e, sobretudo, um profundo senso ético em relação ao trabalho que executou e continuará executando.   

Foto 4| Marcos Antônio Gonçalves (cinegrafista) em Sidney (Austrália), em 1985
Foto 5| Stica junto a estátua de Fernando Pessoa
Foto 6| Repórter Glória Maria no Egito


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 Troféu de guerra

 
     

Foto 7| Mini-capacete: presente de Ayrton Senna  
Foto 8| Placa DDR (Alemanha Oriental)
Foto 9| Presente de um general soviético tirado do quepe

 

     


Foto 10| Pedras recolhidas pelo mundo


 


 

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