Repórter Historiador

Guerra do Contestado | parte I




Marcos José Alves 
Um novo monge no Irani

 Chove torrencialmente. Raios deixam traços no céu escuro. Os trovões ribombam pelos campos e serras. A estrada não é iluminada e o motorista vence com dificuldade a lama, os buracos e o cascalho até o destino final. Os termômetros registravam 12 graus centígrados. Foi assim que o fotógrafo Marco Cezar, o músico e pesquisador do Contestado Vicente Telles e o repórter, chegaram a uma casa no interior de Vargem Bonita, no Oeste catarinense, no dia 21 de julho último.
 Somos recebidos à porta pela esposa do dono da casa e o jovem Marcos José Alves, 29 anos de idade, casado, nascido e residente em Palmas-PR, onde trabalha como funcionário de uma quitanda de beira de estrada com frutas e outros alimentos. Marcos veste camisa e calça de brim, sorridente, receptivo. Não parece, mas é o novo monge que percorre a região do Contestado catarinense dando conselhos e receitando remédios para diversos males.    
Até o final do ano, ele vai estar instalado na região do Banhado Grande, no município de Irani, mesmo local onde, em 1912, o monge José Maria liderou a luta armada de moradores locais contra o despejo das terras em que moravam, dando início à chamada Guerra do Contestado que se estendeu oficialmente até 1916. Só que dessa vez não existem intenções belicosas, apenas o desejo de atender populações caboclas da região que têm em São João Maria o grande guia espiritual. 
 Marcos se apresenta como representante da quinta geração de monges. O primeiro e mais famoso foi João Maria de Agostini, um italiano imigrante que percorreu os sertões brasileiros no século 19, fazendo caridade e profecias, aconselhando e receitando remédios. São desse tempo as “águas de João Maria” – fontes ainda existentes e que foram abençoadas por ele. O segundo foi João Maria (Anastás Marcaf), aparecido entre o final do século 10 e início do século 20. O terceiro, José Maria, se tornou o pivô do combate de 22 de outubro de 1912, em Irani, onde faleceu e está sepultado. O quarto monge, seguindo a linha apresentada por Marcos José Alves, foi o pouco conhecido Leocádio Correia (aparecido em Paranaguá-PR).
Em seus atendimentos ao povo que o procura, Marcos incorpora o espírito de São João Maria, embora nem de longe tenha a mesma aparência atribuída ao santo popular: não é idoso, nem usa barbas e cabelos compridos, e também não se apóia em nada para caminhar. Mas as mensagens que transmite guardam profundas semelhantes com as pregadas pelo primeiro monge, como o advento próximo do Apocalipse referido na Bíblia por São João.  

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“Colônias” de João Maria

 As coisas de que ele fala podem parecer estranhas, ainda mais a quem penetra a primeira vez nesse universo, o universo mágico do homem caboclo do Contestado, repleto de alegorias cristãs dos primeiros seguidores de Jesus Cristo. Como médium, Marcos mantém contato com as “colônias espirituais” de João Maria, indicadas exatamente pelas fontes ao lado dos quais ele pousava em suas andanças pelos sertões do Sul do Brasil. Ali estão aqueles que retornarão a Terra depois do apocalipse ou do fim dos tempos. “Voltarão mais evoluídos”, assegura.
 Alguns sinais dessa “evolução” já estão presentes. “Esse plano não termina. As pessoas vêm mais evoluídas em espiritualidade, não a espiritualidade parada, serena, calma, mas querendo saber o porque do porque”. No passado “as pessoas morriam não sabiam porque. Não sabiam se seria um carma ou benefício”, o que acontece hoje em dia. “Meu trabalho é com a legião espiritual de João Maria. Ainda existem colônias espirituais onde ficam depois da morte. As fontes representam as colônias espirituais. Onde João Maria pousou tinha fonte”.
 Durante a conversa, Marcos lembra que “no passado o mundo foi destruído pelo fogo e não existia água. Onde ele [João Maria] pousou e não havia água, ela apareceu e não seca nem morre”. A mensagem apocalíptica fica bem clara quando diz que “a cada mil anos acontece” a destruição pelo fogo. “Vai haver, sempre teve e nada vai mudar”. O “mil anos” a que se refere “depende a conta, da medição que se faça” – são os tempos da bonança que se seguem aos das tempestades.
Questionado sobre perigos como o nuclear e do aquecimento global, e de que maneira as pessoas com quem ele tem contato avaliam as ameaças, Marcos pensa um pouco antes de responder. Diz: “O povo não está nem aí para eles, está voltado para a sobrevivência dente por dente carne por carne. O povo não está preparado para nada. As pessoas não param para olhar o povo. Hoje é o muito aquilo do momento”. E completa com um alerta às elites nacionais que, ao tomar conhecimento disso tudo,  “podem achar que já seja tarde”.

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 Frases

* “Antes de morrer o ser humano tem dois momentos para refletir, ao perdoar e ao se perdoar”.
* “O homem atualmente preocupa-se com os outros e se esquece se si. Mas você é responsável por si. O corpo é propriedade da gente e por isso precisa andar, fazer caridade”.
* “O homem pensa durante 24 horas, inclusive quando dorme”.





Fale com o monge
Marcos José Alves: (46) 9101.4769 (telefone de sua mãe, dona Salete).

Foto| Folheto com imagem de João Maria e uma oração, distribuída pelo novo monge
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Entenda o Contestado

 É como se três rios desembocassem num mesmo ponto causando inundação: a) disputa da atual região Oeste do Estado entre Santa Catarina e o Paraná; b) a construção de uma estrada de ferro e a expulsão de antigos moradores da região do vale do rio Peixe; c) a religiosidade própria das populações da região com base em São João Maria, servindo de referencial político-ideológico nas lutas travadas.
Já sabemos que em meados do século 19 apareceu na região o monge João Maria de Agostini que percorria a pé os sertões fazendo curas, receitando remédios, aconselhando, profetizando. Dormia muitas vezes ao relento, se alimentava frugalmente, acampando próximo a fontes de água, muitas ainda preservadas. Tudo isso ficou profundamente marcado na memória das populações locais. Depois dele apareceu Anastás Marcaf, que viveu até o início do século 20. Por volta de 1911 apareceu o terceiro monge, José Maria.
Por essa época, a empresa norte-americana Brazil Railway estava concluindo a construção do trecho catarinense da ferrovia São Paulo-Rio Grande, passando pelo vale do rio do Peixe. Em troca da obra, a empresa ganhou 15 quilômetros de terras em cada lado da estrada de ferro, onde residiam milhares de pessoas. Ao ser feita a exploração dos pinheiros e da erva mate, e depois a venda das terras a imigrantes vindos do Rio Grande do Sul, milhares de caboclos foram expulsos das áreas que ocupavam.
 Muitas dessas famílias, sem ter para onde ir, seguiram para Taquaruçu, então no município de Curitibanos, onde começou a organização do movimento pela posse da terra, alimentada pela religiosidade cabocla. É quando José Maria aparece em Taquaruçu, aumentando ainda mais a afluência de deserdados, o que provocou a ira de chefes políticos locais que apelaram ao Governo do Estado. Seguiu de Florianópolis uma força policial.
Expulso com alguns homens de Taquaruçu, José Maria seguiu para o Irani, onde em 22 de outubro de 1912 aconteceu o primeiro de uma série de combates da chamada Guerra do Contestado. Na época, o Governo do Paraná controlava toda a região a oeste do rio do Peixe, onde se localiza Irani. Por isso, a chegada de José Maria foi tida como uma invasão provocada por Santa Catarina, visando fazer cumprir três sentenças judiciais do STF que determinavam a entrega daquele território pelos paranaenses a nosso Estado.
No Combate de Irani morreram 11 sertanejos e 10 militares, entre eles o então comandante da Polícia Militar do Paraná, coronel João Gualberto, além do próprio José Maria. Os combatentes se dispersaram, voltando a se reagrupar em Taquaruçú quase um ano depois, reforçados por milhares de novas adesões à causa. Esse ajuntamento foi reprimido, os sertanejos fugiram novamente, formaram novos “redutos”, e assim sucessivamente até 1916, quando a guerra iniciada em 1912 foi oficialmente encerrada, embora focos de guerrilha prosseguissem até a década de 1930.
 
Foto 6| Túmulo do monge José Maria, próximo ao local do combate onde foi morto
Foto 7| Local do combate de 22 de outubro de 1912, em Irani, marco inicial do conflito Contestado

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Área onde se desenvolveu a guerra do Contestado
25 a 28 mil quilômetros quadrados

População rebelada (estimativa)
20 mil pessoas

Combatentes rebeldes
Cerca de 8 mil

População dos “redutos”
300 a 5 mil habitantes

Efetivo da repressão ao movimento sertanejo
6 mil homens (metade do efetivo do Exército em 1914) e cerca de mil civis (vaqueanos)

Número de mortos
3 mil (estimativa)

Fonte: “Os errantes do novo século”. Duglas Teixeira Monteiro. São Paulo: USP, 1972
 
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Vicente Telles
A musicalidade da memória cabocla

 Dias antes do 7 de Setembro de 1979, o músico e ex-sargento do Exército Vicente Telles recebeu em sua casa um grupo de mães, cujos filhos estudavam num colégio de freiras em Irani. Reclamavam da exigência de boas roupas para o desfile e elas não tinham como adquiri-las. Descendente de participantes nos dois lados do conflito do Contestado, Telles teve na hora uma idéia: promover um desfile de caboclos com seus trajes do dia-a-dia, incluindo carroças, cavalos e as tralhas de cozinha, além dos cães que acompanhavam estas famílias.
“Conversei com as freiras no dia seguinte, expliquei a importância do desfile para aquela gente, mas que não havia recursos para a compra de roupas novas. Elas aceitaram e o desfile foi organizado desse modo”, lembra Vicente. Os caboclos desfilaram alegres, descontraídos, “demonstrando orgulho”, mas a reação do público não foi das melhores. Achando que Telles estaria avacalhando com o 7 de Setembro, muitos se dispuseram a linchá-lo, tendo sido salvo pelo gongo. Ou melhor, pela intervenção do promotor público de Joaçaba, Alexandre Muniz de Queiros, pai do ex-reitor da UFSC, Antônio Diomário de Queiroz, que tomou o microfone e saiu em sua defesa.
Desde então, Vicente tem dedicado seus dias à recuperação da memória dos caboclos da região do Contestado, sobretudo de Irani, onde mora, no mesmo sítio onde ocorreu o combate de 1912. Foi através dele que o ex-governador Esperidião Amin iniciou os trabalhos de “descoberta” do conflito no início dos anos 1980.    
 Telles recebe em sua residência centenas de alunos de escolas da região, além de percorrer os municípios próximos realizando um trabalho de animação. “A história precisa ser viva e despertar a emoção, o sentido do civismo”, costuma repetir. Nesse trabalho ele conta com o apoio do ator Pituca e do professor de História das UnC Delmir Valentim.  No último dia 20 de julho, obtivemos uma amostra  dessa atividade pedagógica permanente, com a participação de cerca de 80 alunos da pré-escola e ensino fundamental de Irani.
Elas recebem símbolos do Contestado, como chapéus com fitas brancas, bandeiras e bandeirolas, cruzes, um facão de madeira, ouvindo relatos do conflito e ouvindo histórias e composições de Telles com seu acordeão. “As crianças se envolvem e se identificam com os personagens do Contestado e saem daqui com duas coisas que não adquirem dos livros escolares: a emoção e o civismo”. Com 73 anos de idade, Telles usa nas apresentações um chapéu feito do couro de uma jaguatirica morta num acidente na rodovia BR-153, o mesmo chapéu que simboliza o monge João Maria.  


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 Parque terá investimento

  O Parque Temático do Contestado de Irani, projetado pelo arquiteto Íris Lopes da Silva, deve receber do Governo do Estado em 2008 investimentos de R$ 3 milhões, visando à conclusão de suas instalações. A garantia foi dada no início de julho pelo secretário de Turismo, Cultura e Esportes Gilmar Knaesel e o vice-governador Leonel Pavan, ao prefeito Fábio Antônio Fávero. “O município não tem como investir essa quantia, possui 10 mil habitantes e um IDH baixo”, justifica Fávero.
Só o anfiteatro no meio de um lago, com amplas arquibancadas, obra iniciada há 10 anos, precisa de um investimento final de R$ 1 milhão. No interior do parque com área de 300 mil metros quadrados já existem diversas instalações, como o Museu do Contestado e o monumento Mão de Cimento, do escultor gaúcho Mano.

 O espaço também abriga um cemitério histórico, ao lado do Museu, e o túmulo de José Maria. “Precisamos com urgência de um espaço para a divulgação da história e da cultura para o turista”, destaca o prefeito, que comemora a promessa de investimento “que ocorre no contexto da descentralização”, destaca o prefeito Fábio Fávero. A idéia é ampliar o tempo de permanência dos visitantes na cidade, com a conseqüente ampliação da infra-estrutura hoteleira e gastronômica.
Em setembro será a iniciada a construção da Casa do Artesanato, estimulando a produção de materiais relacionados ao Contestado, como imagens do Monge, bandeiras, facões de madeira e a erva-mate. A segunda versão do espetáculo “Heróis do Contestado” (produção local) está pronta para ser exibida.
A Fundação Catarinense do Vale do Contestado (Conttur), por outro lado, organiza roteiro turístico incluindo os imigrantes alemães, italianos e outros, mas tendo como foco central o Contestado. Em outubro, por volta do dia 22, acontece a 2ª Semana Cultural do Contestado de Irani. “A conclusão do parque é fundamental para o desenvolvimento da cidade e a valorização do passado de lutas dos nossos caboclos”, complementa o prefeito.

Foto 10| Cemitério do Contestado integra o complexo do parque, junto com o palco e o túmulo do monge, no sítio do combate de 1912
Foto 11| Obra inacabada pode ser concluída pelo Governo do Estado
 

 

 

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