Andanças pelo mundo

Choque cultural




 Quando estava me preparando para vir para a China há mais de um ano atrás, uma das minhas maiores preocupações era o famigerado “choque cultural”. Como eu já havia morado no exterior, isso não deveria ser um empecilho ao ponto de se perder o sono, afinal “lá todo mundo deve falar um pouco de inglês, e assim vou me virando”. Quanto à comida, “bem, já fui a vários restaurantes chineses, adoro comida chinesa, isso vai tornar a adaptação menos brusca”. Ao chegar aqui, vi que nada poderia estar mais longe da verdade.




 A vasta maioria da população desse enorme país de 1,5 bilhões de habitantes não entende absolutamente nada quando você fala em inglês. Alguns até dizem “Hello!” quando passam por você, afinal você provavelmente é o primeiro estrangeiro que eles já viram fora da tela da TV, mas não espere muito mais que isso. Quero ressaltar que estou falando do ponto de vista de um indivíduo que reside aqui e convive com eles no dia-a-dia. Se você vier num pacote turístico, certamente os guias ou agentes de viagem lhe darão toda a assessoria em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e, devido à proximidade geográfica e o número de visitantes, também em japonês e coreano.

 A língua considerada padrão é o mandarim, considerado uma das línguas mais difíceis no nosso planeta azul. Porém, como aqui existem 56 grupos étnicos diferentes, cada um com sua respectiva língua, há uma variação enorme de dialetos que se desenvolveram ao longo da história da expansão do país. Cada um dos caracteres chineses, que geralmente tem o som de uma sílaba, pode ter quatro pronúncias diferentes. Isso significa que a sílaba “DA”, por exemplo, tem (no mínimo) quatro significados distintos, dependendo da entonação que você usa. Como se nao bastasse, existem fonemas (sons) que não existem em nenhuma outra língua. Haja esforço!

 A comida servida em restaurantes chineses no ocidente é adaptada ao paladar e disponibilidade de ingredientes locais, então não espere encontrar o mesmo sabor que você acha no restaurante chinês da praça de alimentação do shopping center. Como em todo país de grandes proporções geográficas, a diversidade gastronômica é evidente.
Moro no nordeste do país, a antiga Manchúria. A comida típica daqui inclui massas, arroz, sopas, carnes, pães, biscoitos e outras iguarias elaboradas de mil formas diferentes, com mil nomes diferentes. Até agora não vi nada de muito estranho no menu daqui, mas no sul do país eles tem um ditado que diz: “Anda no chão e não é carro, voa e não é avião, a gente come”.  Ainda bem que moro bem longe de lá. 

 Aqui em Changchun, cidade com aproximadamente 8 milhões de habitantes, além da comida local, há uma enorme proliferação de fast food à la McDonald’s, Pizza Hut, KFC, etc., sempre lotados, principalmente pelos ávidos e obesos adolescentes com desejos insaciáveis pela comida que vem do mundo capitalista. É um luxo ao qual eles nao poderiam se dar a 10 anos atrás. 
O nordeste da China é uma região que começou a ser amplamente habitada relativamente há pouco tempo, muito provavelmente devido ao extremo frio do inverno, que geralmente dura sete meses. O frio aqui é um fator que muitas vezes assusta pessoas que, de outra forma, viriam estabelecer residência aqui. Lembro-me quando saí de Floripa, pleno fevereiro, verão, quase 40 graus. Desci em Changchun com 25 graus negativos, sensação térmica de -32°. No inverno passado chegou a 34 negativos, sensação de -40°. Para quem nunca experimentou tais extremos, é uma sensação indescritível. O aquecimento central é obrigatório por lei. De outra forma, seria humanamente impossível se viver aqui.

 Abraços!
 Eduardo Machado 
 Correspondente do Oriente

 Contato| brazileduardo@gmail.com

 

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