Pioneiros do Fotojornalismo

James Tavares | parte VI

 


O aprendiz que virou feiticeiro

 James Tavares se tornou uma lenda no foto-jornalismo em Florianópolis. Tanto por sua produção quanto pelas piadas e pegadinhas que sempre apresenta. "Jacaré" o seu apelido, fruto da irreverência e bom-humor de um outro repórter fotográfico, Rivaldo Souza. "O Baixinho era f...! Quando queria espalhar alguma coisa na cidade, ele chamava alguém ao pé do ouvido e começava perguntando se sabia da última, contata pelo James". E foi assim que o apelido pegou.
Nasceu em 12 de janeiro de 1959, em Florianópolis, filho do policial civil já falecido João Manoel Tavares e de Maria de Lourdes Tavares, hoje com 80 anos, no bairro José Mendes, em Florianópolis. Fez estudos iniciais no colégio Barreiros Filho, que funcionava na antiga Escola Alemã, na rua Nereu Ramos (Centro), se formando técnico em Administração pela Academia de Comércio.

 Conseguiu o primeiro emprego em 1976, na sucursal do JSC, em Florianópolis, na vaga do boy Lauro Cordeiro, que havia entrado de férias. Não tinha nem idéia que sua vida mudaria radicalmente. James foi indicado por um amigo de infância, Bernardino João da Silva, chefe de circulação da sucursal e aposentado pelos Correios. Laureci Cordeiro, irmão de Lauro, temendo que o irmão pudesse perder o emprego, tratou de iniciar James na profissão de cinegrafista e fotógrafo.
A redação em Florianópolis era dirigida pelo jornalista José Reinoldo Rosembrock.

 Certo dia, James estava sozinho na redação, quando o telefone tocou. Ele atendeu. Alguém no outro lado da linha queria falar com José Reinoldo, ausente para um cafezinho. “Quem é”, perguntou. “Mário Petrelli”, respondeu o outro. James correu até a copa e avisou: “Tem um Petrelli chamando o senhor”. Ele não sabia que havia falado com o dono do jornal.
Depois de um período ajudando Laureci com as filmagens e fotos, James teve que cumprir o serviço militar obrigatório na Base Aérea de Florianópolis, por cerca de um ano. Ao dar baixa, retornou, ainda na condição de aprendiz, até que o fotógrafo e cinegrafista Celso Santos pediu demissão e ele assumiu a vaga. Na época, o jornal dispunha de câmeras Pentax, Minolta e Miranda. Por ocasião da Novembrada, James já estava com uma Cânon, usando três lentes emprestadas por Tarcísio Mattos, de 24, 50 e 200 mm.

 Só por volta de 1983 ele passou a usar câmeras Nikon, a marca preferida dos profissionais do ramo, resistentes a quedas, poeira, umidade, vento e outros. Como cinegrafista operava uma câmera Bolex Baillard, 16mm, cuja abertura de diafragma tinha que ser encontrada sem a ajuda de fotômetro. “Era preciso medir a luz, com o olho, e a distancia para poder fazer o foco”, assinala. Tudo corria bem, até que um dia Laureci chamou James e disse que ele já estava pronto, podendo ir à rua fotografar e filmar. Sua primeira grande cobertura foi a Novembrada e, graças a ele, imagens raras daqueles dias ficaram congeladas atravéz de suas lentes.
 Enquanto atuou na sucursal do JSC em Florianópolis, prestou serviços para a Agência de Comunicação da UFSC (Agecom), durante 10 anos. Depois de sair do JSC, passou cinco anos fotografando para o departamento comercial do Diário Catarinense (RBS). É fotógrafo da sucursal do jornal A Notícia em Florianópolis.
 

Cinegrafista desastrado

Sua primeira missão foi cobrir uma festa de escolha da Rainha dos Balneários, em Arroio do Silva, no sul do Estado, para o programa que Carlos Muller mantinha na TV Coligadas. “Começou a chover, escureceu tudo. Me lembrei de o Laureci haver dito para abrir o diafragma nessas ocasiões e fiz isso, coloquei 5,6”, recorda. “Mas o evento era na areia da praia, que reflete muito a luz solar e torrou tudo”, ou seja, quase velou o filme. “Cai do cavalo”.
Ele só foi saber disso após retornar e revelar o material. Durante o baile, usou câmeras Bolex Baillard e Pentax SP. Enquanto fotografava, deixou a filmadora sobre uma mesa e algum gaiato alterou de velocidade do número de quadro filmados por segundo – normalmente saem 24 quadros e alguém baixou para 16, fazendo as candidatas ao título parecerem personagens de Charles Chaplin na hora das projeção. “O Carlos Muller não pode apresentar nada no seu programa do outro dia e ficou sem falar comigo durante muito tempo”.

Lise Minelli correu

 Ao se iniciar no ramo, perdia muitas fotos, mas sempre contou com a compreensão de Mário Barbetta, em Blumenau. “Ele me segurava todas”.
Certa feita, a cantora e atriz Lise Minelli chegou em Florianópolis à convite do músico Luiz Henrique Rosa, falecido, tendo desembarcado reservadamente no hangar hoje usado pelos Bombeiros no Aeroporto Hercílio Luz, longe das câmeras e luzes. “O motorista de uma Kombi da Infraero que havia servido na Base comigo me deu uma carona. Era quem ia apanhá-la”. O veículo parou em frente às escadas do avião por onde ela desceria. James aprontava a Pentax SP para fazer as fotos, mas foi contido por dois seguranças. Lise correu, James perdeu as fotos. No dia seguinte ela deu uma coletiva na redação do jornal O Estado.

Ficou na fila

 Na redação ficaram sabendo do tombamento de um caminhão com produto químico em pó na BR-101, altura de São Miguel, em Biguaçu. James seguiu com o motorista Pedrinho, encontrando um grande congestionamento pela frente.
 - Vai pelo acostamento, Pedrinho!
 - Não vou! O guarda multa.
James insistiu, mas quem conhece Pedrinho sabe o quanto é cabeça dura, ou melhor, o quanto teme ter que pagar uma multa. Mesmo dirigindo um carro do JSC, devidamente caracterizado, o que assegura algumas regalias no trânsito.
Passou um menino numa bicicleta. James a pediu emprestada. Não. Propôs pagar. Sim. Mas teve que levar o guri na garupa por cerca de dois quilômetros. James fez as fotos, conseguiu carona com o motorista de caminhão, e deixou Pedrinho esperando no congestionamento.


O avião e o cheque sem fundo

 Marcos Bücheler era vice-governador e o avião em que retornava de uma viagem caiu num baixio próximo ao manguezal do rio Tavares, na Costeira do Pirajubaé, junto com outras autoridades. James foi até lá. Chovia muito. Nenhum pescador ou dono de barco quis levá-lo até o local do acidente. Apareceu Lourival Bento (O Estado). James encontrou um que levava, mas queria dinheiro. Deu um cheque sem fundo. Ele e Lourival foram ao local, procuraram e não acharam nada. Estavam voltando quando o pescador alertou para a presença de algo branco que nunca esteve ali. Foram até o local. Era a cauda do avião que afundava aos poucos no lamaçal. De volta ao jornal, justificou a despesa, fizeram boquinha, mas deram o dinheiro e ele correu até o banco para fazer o depósito.  


 

 

 

Tarcísio Mattos | parte VIII
Lourival Bento | parte VII
Osvaldo Nocetti | parte V
Rivaldo Souza | parte IV
Homenagem | O clic de Olívio Lamas
       
 
   
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