Repórter Historiador

Inverno de 30º em Salvador

Fotos| Celso Martins

 O seguro morreu de velho

Existem várias maneiras de se conhecer uma cidade. O ideal é ter um amigo ou parente que possa nos conduzir. Quando isso não é possível, procurar uma agência de turismo é a melhor alternativa. E logo me vi a bordo de um microônibus cheio de senhoras e senhores brasileiros, norte-americanos, portugueses e italianos, ouvindo de um guia as informações sobre Salvador. Fundada em 1549, por 200 anos foi capital e a cidade mais importante do Brasil.

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 Forte da Barra, berço de Salvador


Quem salta de um veículo que conduz turistas é logo cercado por quase duas dezenas de vendedores de colares e outros artesanatos em investidas agressivas. Eles são surdos às negativas. Esperam o sujeito terminar de dizer que não quer para colocar nas mãos mais algum produto. Se achar caro, oferecem quatro ou cinco de preços diferentes. Se comprar um, se arrisca a ter que levar mais, tal a insistência. Depois que a gente consegue se livrar dos ambulantes, tem que desembolsar R$ 6,00 para entrar no Forte da Barra, onde nasceu a cidade de Salvador. A volta para o veículo é ainda mais dramática, pois aquele que conseguiu lhe empurrar um badulaque reaparece insistente, ao lado de outros, enfileirados. Ao se livrar de um, aparece outro e outro e mais outro. Nada contra, apenas relatando.

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 A riqueza do Pelourinho

Largo do Pelourinho e adjacências (Sé, Terreiro de Jesus, Carmo). Construção e cultura. Se ao leigo o conjunto arquitetônico residencial dos séculos 17, 18 e 19, fascina, a um especialista no ramo deve chocar. Só para se ter uma idéia do valor desse patrimônio: 165 templos católicos em Salvador, dos quais 36 tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1984, quase todos localizados no centro histórico, protegido pela Unesco desde 1985. Desses, o Iphan destaca o Pelourinho como o mais importante e principal pólo de atração turística.

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 Fotos proibidas


Na entrada, uma senhora avisa que é proibido fazer fotos. “É por causa do flash”, explica o guia e historiador Lázaro Encarnação. “Pois não usarei flash”, decidi. Usando o dispositivo automático de foco, registrei o que pude da igreja e convento São Francisco, meu santo preferido. O conjunto em estilo barroco foi erguido entre 1749 e 1755, tempo em que estavam chegando os primeiros imigrantes açorianos ao litoral catarinense. No claustro térreo, existem 37 painéis de azulejos vindos de Portugal entre 1743 e 1746, inspirados em gravuras do pintor flamengo Oto von Veen. O interior da igreja é admirável e se pode ver isso nas fotos possíveis de ser obtidas, feitas entre a passagem de um e outro segurança e do insistente “foto-não-pode!” do guia.

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 Cenário deslumbrante

A Baía de Todos os Santos é o cenário do café da manhã no hotel. Trapiches se estendem pelas imediações. Os navios ancorados aguardam vaga no Porto de Salvador. Embarcações cortam suas águas cristalinas e azuladas conduzindo pescadores, turistas e moradores. Banhistas, nadadores e mergulhadores. Fortes, muitos fortes, e várias fortalezas. A ilha de Itaparica ao fundo. O funcionário de um bar explica: “A pessoa paga R$ 25 para ter acesso. Se não consumir o valor recebe de volta a diferença”.

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O som que curtimos  

Ouvimos música no microônibus que nos conduz à Mata de São João, a cerca de 80 quilômetros de Salvador, sede-mãe do projeto Tamar (Praia do Farol). Nas caixas de som, Caetano, Caymmi, Gal, Bethânia, Gil. Os músicos locais são os músicos nacionais. Baianos privilegiados!
 
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 As praias

É verdade: as edificações nas proximidades das praias não são mais altas que os coqueiros. São raras as construções junto à areia, como temos em Canasvieiras e outras da Ilha de Santa Catarina e congêneres. Ficam todas afastadas. Perto do mar, só as dunas com vegetação característica e pés de coco. Além dos banhistas, somente antigos pescadores mantém suas barracas com teto de palha nas praias – as mais apreciadas pelos turistas europeus de canelas brancas. Nascido em Salvador e há 10 anos atuando como artesão, o jovem Paulo Gleibson reclama de perseguições na Praia do Farol, em Mata de São João. “As licenças são liberadas com objetivos político-eleitorais. Nós só podemos trabalhar depois das 11 da noite, quando os fiscais vão embora. Vivemos sob opressão”. Lá como cá, reprime-se a livre iniciativa produtivo-comercial, chamada informal, por isso marginal, tratada como caso de polícia.  

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 A lagoa escura do Abaeté


Caymmi tem razão: no Abaeté há uma lagoa escura, arrodeda de areia branca. Muito antigamente viviam ali famílias de pescadores. As lavadeiras limpavam as roupas naquelas águas. Elas têm a mesma cor de Abaeté, o jovem filho de indígena com branco que se apaixonou pela sereia Iemanjá, pagando o preço com o exílio no fundo do lago. É a lenda que uma guia turística nos conta. As lavadeiras foram tiradas da beira da água e levadas a um espaço coberto com tanques coletivos. O campo de futebol foi desativado e a vegetação de restinga recuperada. “A água é doce. A lagoa fica a 18 metros acima do nível do mar”, explica o gestor ambiental Franklin Mollinari, responsável pela Área de Preservação Ambiental (APA) do Abaeté, unidade estadual de conservação. A lagoa resulta do represamento das chuvas e de cursos d’água de dunas formadas a partir da praia de Itapoã. E viva Caymmi!

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 As baianas baianas

Algumas foram encontradas nas ruas e desconheço os nomes, mas são figuras características da cidade. Josiane Santos e Cláudia Barbosa recebem os grupos de turistas nas lojas em que trabalham. Simone Reis serve um delicioso prato (“arrumadinho”) no hotel. “As mulheres negras mais lindas de Salvador trabalham nos shoppings da cidade”, destaca o jornalista Jamil Castro.  


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 As mansões dos barões

Avenida Sete de Setembro. Muitas das esplendidas e grandiosas residências dos antigos barões do cacau da Bahia estão preservadas, servindo de acesso a conjuntos de condomínios. Lembra o destino dado a Casa do Barão e ao casarão do Santa Catarina Country Club, em Florianópolis. A via é arborizada, repleta de museus. As construções, no alto, ficam de frente para a Baía de Todos os Santos, cujo acesso se dá por teleféricos e trapiches.



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 Roteiro extra-oficial


O jornalista Jamil Castro é carioca e atuou no jornalismo em Florianópolis na década de 1980. Hoje, é editor do Correio da Bahia e empresário do ramo de assessoria de comunicação em Salvador há quase duas décadas. Com ele, visitei Humaitá, Ribeira com seu sorvete famoso desde 1931 e o famoso Bonfim. “Até o Bonfim os turistas acompanhados de guias aparecem, mais para frente não”, explica. “Estamos numa península com belas praias”, salienta. Existem muitos fortes, igrejas, construções residenciais antigas, umas bem preservadas, outras ruindo. Um patrimônio inigualável. As praias estão repletas de banhistas e guarda-sóis, bares e restaurantes com alimentos típicos lotados. “Entre 70% e 80% dos moradores de Salvador são de origem africana e existem bairros exclusivamente negros”, salienta Jamil. Em decorrência disso, a cultura é de base luso-africana, da culinária à música, passando pela religiosidade e o modo de ser baiano.
   

 

 

 

       
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