Repórter Historiador

Guerra do Contestado | parte II


Combate do Irani
Início do Movimento do Contestado


 22 de outubro de 1912. O dia está nascendo. Nas imediações do Banhado Grande de Irani duas forças se movem para o combate desde as 3 da madrugada. O contingente do Regimento de Segurança do Paraná é comandado pelo coronel João Gualberto. Caboclos, antigos moradores de Passo Fundo e Soledade, no Rio Grande do Sul, estabelecidos na região e tido como posseiros, e veteranos maragatos, são liderados pelo monge José Maria.
No dia anterior, José Maria havia recebido a visita do coronel prefeito de Palmas Domingos Soares, em missão diplomática, querendo acabar com o ajuntamento. Pediu um prazo de 48 horas para se retirar com seu pessoal. Talvez quisesse ganhar tempo. O coronel João Gualberto não aceitou o acordo de dispersão feito entre Soares e o monge. Mandou reunir seu pessoal e atacar. Tinha uma metralhadora na qual confiava. No trajeto, durante a noite, um caboclo de nome Roque acendeu uma vela para iluminar a travessia de um riacho, assustou a mula sob a qual ia a arma que caiu na água. Na hora do combate ela "engasgou".

 Os homens de José Maria chegaram em Irani corridos de Curitibanos por causa de intrigas do coronel Francisco Albuquerque, superintendente (prefeito) local. Ao chegar ficaram dois ou três dias na casa de José Fabrício das Neves. Depois foram para a de um irmão deste, Thomaz Fabrício das Neves. Passados quatro dias, Thomaz os levou para a casa de um tio, Miguel Fabrício das Neves. E foi dessa casa que José Maria partiu no final da madrugada de 22 de outubro de 1912 na direção do Banhado Grande de Irani, montado num cavalo branco e acompanhado de um corpo de lutadores de elite, chamados Pares de França.

 O coronel João Gualberto teve que refazer às pressas as táticas que havia planejado para o combate. Não contava mais com a metralhadora. Estava com um contingente dividido. E foi com espanto que os militares paranaenses viram surgir das matas e dos banhados duas centenas de combatentes montados e à pé, com armas de fogo e facões, uns poucos de madeira. Toda a ação durou cerca de meia hora. Ao final, João Gualberto e José Maria estavam mortos. Entre os militares, 10 morreram no local. Os números oficiais falam em 11 caboclos mortos.

 Felipe Manoel dos Santos (Felipe Quitério), com cerca de 20 anos, morreu no combate. Manoel Alves, também jovem, teve o mesmo destino. Entre os moradores de Irani que lutaram figuram José Fabrício das Neves, José Alves Perão (José Felisberto), Bento Manoel dos Santos (Bento Quitério) e seus filhos Alfredo e Saturnino (além de Felipe), assim como os Belchior, os Brun, os Bello e muitos Fabrícios das Neves. O coronel Miguel Fragaso, antigo maragato da coluna de Gumercindo Saraiva, permaneceu no comando de uma força de reserva, para intervir caso os homens de José Maria e José Fabrício fossem batidos.

Foto 2| José Fabrício das Neves e seus homens em 1919 (Catanduva-SC). Acervo: Cecília Boroski (Concórdia-SC).
Foto 3| Local do combate principal.
Foto 4| Túmulo de José Maria.



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Repressão no pós-combate


 No dia seguinte ao do combate de Irani, foi aberto um inquérito policial em Palmas-PR, conduzido pelo comissário Domingos Nascimento Sobrinho, onde foram arroladas 63 pessoas - "José Fabrício das Neves e outros". Enquanto isso, no Irani, um espião militar a paisana chegou na casa de Miguel Fabrício das Neves, dizendo-se alfaiate e em trânsito. O sujeito foi alimentado e depois lhe indicaram o caminho a seguir. Poucos dias depois chegaram outros militares a paisana, abrindo caminho para as forças sob o comando do coronel do Exército Antônio Sebastião Basílio Pyrhro.

 Homens como José Fabrício das Neves e José Alves Perão, entre outros, foram se refugiar nas proximidades do rio Uruguai, seja em Queimados e Engenho Velho (Concórdia), Itá ou as regiões dos atuais municípios de Ipumirim e Arabutã. Os moradores consideravam essa região os "sertões de Irani", inóspita, com poucos e bem vigiados acessos, muitos cursos d'água e serras. Tudo isso dificultou a ação do coronel Pyrhro e de outros que tentaram penetrar ali para prender os combatentes. Fabrício estava "entrincheirado", cercado por centenas de caboclos e ele e José Maria conseguiram assentar, num projeto informal de colonização executado por eles.

 Enquanto uns tiveram que fugir, outros foram obrigados a permanecer. Em meados de maio de 1913, Miguel Fabrício e seu sorinho Thomaz Fabrício das Neves foram presos e levados "a ferros" para o presídio de Palmas, onde ficaram quase 50 dias, sendo afinal absolvidos pelo judiciário. Dos 63 arrolados no inquérito, apenas sete foram condenados, mas nenhum deles chegou a ser preso. José Fabrício morreu numa emboscada no final de janeiro de 1925, sendo degolado e o corpo atirado nas águas do rio Irani. José Perão viveu escondidos nas florestas da região de Irani até 1940, quando se mudou com a família para o município de Coronel Vivida-PR.

Foto 6| José Alves Perão e d. Olímpia, final da década de 1950. Acervo: Vicente Telles (Irani-SC).
Foto 7| Thomaz Fabrício das Neves e a família em Coronel Domingos Soares-PR. Acervo: Autora Tortelli (Cel. Domingos Soares). 

   

Foto 8| Túmulo de José Fabrício das Neves


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Armados para defender as terras


 A memória desses combatentes, considerados por alguns como "bandidos" ou "assassinos", começou a ser trabalhada por Antônio Martins Fabrício das Neves, hoje com 84 anos. Ainda adolescente costumava ouvir e anotar os relatos de participantes diretos do combate de Irani (1912), transformados em décimas (versos) em meados da década de 1930. Em 1990, Antônio deu uma longa entrevista ao Museu de Concórdia. Oito anos depois, recebeu o historiador Paulo Pinheiro Machado, que gravou a conversa. A leitura dessa produção nos obriga a uma revisão profunda do que vem sendo escrito sobre esse episódio de 22 de outubro de 1912.

 O fato de José Maria ter saído de Curitibanos (Santa Catarina) e se deslocado para Irani (então sob jurisdição do Paraná), teria sido encarado como uma provocação dos catarinense, visando a presença de forças federais e o cumprimento das três sentenças do STF, mandando que o Paraná entregasse aquela região. Foi isso que determinou a ida do coronel João Gualberto com uma força a Irani. Mas, segundo Antônio e outros entrevistados, o entrevero aconteceu por questões de terras. José Fabrício e outros moradores da região haviam acertado com o cartório de Palmas a regularização das ocupações dos terrenos. Reuniram os documentos solicitados e partiram, sendo recebidos a tiros.

 Juca Perão, filho de José Alves Perão, residente em Coronel Vivida-PR, ouviu várias vezes o pai comentar que a luta se deu por questões de terra. Recentemente, um autor militar paranaense, João Alves da Rosa Filho, comentou o fato de um coronel de Palmas ter escriturado em seu nome todas as terras entre Irani e o rio Uruguai. O escritor Maurício Vinhas de Queiróz também faz referências a esse problema. Ou seja, mais do que uma "invasão" de um estado por outro, tivemos no Irani um levante de posseiros contra uma tentativa de desalojá-los. Afinal, o "coronel" que escriturou as terras em seu nome e passou algumas adiante, Amazonas Rio do Brasil Pimpão, fez parte do estado-maior de João Gualberto, quando este atacou os rebeldes de Irani.



Foto 9|
Região de Engenho Velho (Concórdia), antigo domínio de Fabrício, inundado pelo lago da hidroelétrica de Ita.
Foto 10| Antônio Fabrício das Neves (setembro de 2006, Irani-SC).
Foto 11| Sebastiana Vieira Perão e o retrato de João Maria (julho de 2007, Coronel Vivida-PR).

   

Foto 12| José (Juca) da Silva Perão (julho de 2007, Coronel Vivida-PR).

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Música
” Epopéia do Contestado”, segundo ato

Vicente Telles Filho trabalha nova versão para 2007

 Desde que lançou “Epopéia do Contestado – História em Música” (2001), Vicente Heleodoro de Paula Telles, Vicente Telles ou simplesmente Vicentinho, não sossega. Trabalho com nove faixas e a participação de 15 músicos convidados, onde o jovem de 25 anos figura como produtor, arranjador, e executante de várias. “Epopéia” está entre as melhores peças musicais do Estado, talvez a principal em se tratando de Contestado.
Nem por isso Vicentinho está satisfeito. Nascido no dia 25 de outubro de 1982 em Joaçaba, mas residente em Irani desde os primeiros meses de vida, é filho do músico, compositor e pesquisador Vicente Telles, 73 anos, e da advogada Dolores Paulina Telles. “No começo eu aprendi com meu pai, depois fui um pouco autodidata, tive aulas com professores do Rio de Janeiro (UFRJ).

 “Quero deixar mais estilizado, mas com as raízes da região”, diz Vicente Filho ao comentar que não está satisfeito com o trabalho de 2001, que precisa ser refeito.
“Esse estilizar é justamente deixar com mais cara de música da nossa região, coisa que não ficou muito nesse cd atual pelo excesso de orquestra e coisas desse gênero”.
Isso significa que o pudim de leite servido em 2001 retorna ao cardápio acrescido de coco ralado e calda, muito mais saboroso. “O trabalho atual está muito agauchado. É preciso incorporar essa influência, pois está presença, mas não precisa ser bailão”.
A presença da orquestra, por outro lado, será melhor analisada”, explica. “A cultura musical da região é muito ampla, vinda desde o Rio Grande do Sul e países latinos. Aqui a gente nasce e cresce ouvindo tango e a milonga”. Mas há também a musicalidade elaborada localmente, com raízes andinas, que precisam ser incorporadas à nova gravação, à base de violão, acordeão e percussão.
Percussão que não tem raízes locais, mas dão “um sabor na música”, explica Vicente Filho, que pretende ver o novo CD no mercado até o final do ano. A nova versão vem sendo elaborada no sótão da casa de seu pai no Irani, mundo dos equipamentos necessários, num mundo onde a Internet elimina algumas dificuldades da distância geográfica.

 

 

 

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