Pioneiros do Fotojornalismo

Lourival Bento | parte VII

 

Desafiando o perigo e as alturas

 Itajaí, meados da década de 1960. O adolescente Lourival Manoel Bento trabalha como caixa de um supermercado e usa o primeiro pagamento na compra de uma câmera Kodak Rio 400. Com ela passou a fazer fotos da família e subiu no prédio mais alto que havia para obter uma panorâmica da cidade. Desde então tomou gosto pela fotografia e as alturas, apesar de sofrer de vertigem. Quando viu uma imagem surgir do papel fotográfico revelado em um laboratório escuro, ficou mais apaixonado ainda pelo ofício.
Blumenau, 1971. Lourival estava com cerca de 18 anos ao ser convidado para trabalhar como fotógrafo no Jornal de Santa Catarina (JSC) e cinegrafista da TV Coligadas. Foi chamado por Natanael Ferreira, passando a atuar ao lado do pernambucano Carlos Leão e os blumenauenses Renato Haskel e Mário Barbetta.
E foi assim que o filho do estivador Manoel Bertoldo Bento, falecido, e de dona Dulce da Silva Bento, 76, pôs a mão numa câmera fotográfica Miranda, com lente normal (50mm) e uma filmadora  Bolex Baillard (filme 16mm). Nascido em Itajaí no dia 9 de abril de 1953, Lourival Bento permaneceu pouco tempo em Blumenau.
Em 1973, com 20 anos de idade, pisou a primeira vez na Ilha de Santa Catarina, indo atuar na sucursal do JSC e TV Coligadas na Capital. “A ilha é um palco e o espetáculo é a natureza. E de graça, 24 horas por dia”, leu de suas anotações o veterano repórter fotográfico no final da tarde do último dia 10 de outubro, quando foi entrevistado num restaurante da orla de Santo Antônio de Lisboa. “Essa eu mesmo bolei”, fez questão de dizer. Essa paixão o prende à cidade. Nunca aceitou convite que implicasse ter que deixar Florianópolis.
 Dois anos após ter chegado à cidade, Lourival foi convidado pelo colega Orestes de Araújo para integrar a equipe do jornal O Estado. Teve início então uma carreira de mais de duas décadas, cobrindo enchentes e acidentes, correndo risco de vida em várias ocasiões, tendo passado fome, sede e frio. Além de O Estado, atuou nas sucursais de Florianópolis de veículos como Veja, O Estado de São Paulo, Placar, a revista Isto É e Jornal do Brasil.
Ao longo desse tempo realizou 18 exposições e preparara mais uma. Em meados da década de 1990 participou de uma exposição ao lado de 180 artistas plásticos de todo o Brasil, em Balneário Camboriú. “Eu era o único fotógrafo. No fundo sempre me senti um pouco artista”, disse. Há 10 anos com equipamento digital, Lourival deixou a reportagem fotográfica, mas não abandonou a fotografia, aprimorando o lado arte do ofício que escolheu na adolescência. E também sente uma coceira: a qualquer momento pode retomar a atividade jornalística.
Com 54 anos, mantém o mesmo entusiasmo que o fez ensinar os segredos do ofício a futuros profissionais de mão-cheia, como o nosso Marco Cezar, vindo de uma formação fotográfica de estúdio, Carlos Silva (Berbigão) que foi tirado de um emprego de chapeiro em lanchonete para ser laboratorista do jornal O Estado, e Gilberto Gonçalves, hoje editando o jornal Folha do Norte da Ilha. Entre outros.

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O inferno e o diabo


 A foto em que o então deputado estadual Francisco Kuster (MDB) aparece com um pedaço de madeira enfrentando policiais militares, e que rodou meio mundo, foi feita por Lourival Bento durante a Novembrada de 1979 em Florianópolis. Foi um dos episódios que ficou marcado na memória do profissional.
Nessa ocasião ele não foi molestado, mas em outras duas foi chamado à Polícia Federal para dar explicações sobre fotos. Uma delas mostra os falecidos Olívio Lamas (repórter fotográfico) e Aldírio Simões (jornalista) e o carnavalesco Maurício Amorim, com um prato de farinha de mandioca e um canudinho, simulando o consumo de cocaína. “Perguntei para o Aldírio se podia publicar. Ele disse que sim. O Cacau publicou. Fomos todos chamados a depor”.
 Em diversas ocasiões ele teve que fugir da redação. Ao fazer uma matéria sobre a vida noturna em Florianópolis, Lourival foi abordado por um freqüentador do antigo Bar da Pedra, que queria ser fotografado. Já estava alto, empolgado, bem acompanhado. A imagem foi parar na capa de uma edição de segunda-feira do jornal O Estado. A família do fotografado, quando o viu naquele estado, correu com ele usando rolo de macarrão e muita língua, enquanto o coitado foi direto para a redação do jornal.
- Quero falar com esse tal de Lourival Bento. Já que estou no inferno quero falar com o diabo, anunciou muito zangado ao se apresentar na redação. Com a ajuda de um antigo funcionário, seo Olegário, Lourival fugiu pela janela e ficou 10 dias escondido.

Foto 4| Fazendo a fot oficial do governador Esperidião Amin. Estúdio da TV Barriga Verde, Florianópolis (1983). Foto: José Carlos Soares (Zico).
Foto 5|  Cobrindo as obras de pavimentação da Serra do Rio do Rastro. Foto: Laureci Cordeiro.

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Batismo de repórter

1972. Lourival Bento havia se deslocado de Blumenau para uma cobertura em Itajaí. Na volta se deparou com um Fusca em chamas e quatro pessoas dentro dele. “Elas gritavam e pediam socorro. Como eu não podia fazer nada, tratei de filmar e fotografar. Não sabia direito como operar com pouca luz, coloquei 60 de velocidade, 5.6 de abertura, filme 125 ASA e disparei. Com a filmagem foi a mesma coisa”. As cenas foram exibidas no Jornal Nacional (Globo) e as fotos abriram a capa do JSC.

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Revolta das águas


 As cheias que castigaram Tubarão (1974), Blumenau e região (1983-1984), foram registradas pelas lentes de Lourival. Em Blumenau ele acompanhou de perto a destruição provocada pelas águas do rio Itajaí-Açu. Uma foto do então governador Esperidião Amin foi publicada em vários jornais do mundo, como o The New York Times. “Ele aparecia num caminhão anfíbio do Exército vistoriando os danos e coordenando a ajuda”, lembra.
Em Tubarão testemunhou o enterro de cerca de mil pessoas numa cova coletiva. “Mil pessoas?”, questiono. “Mil pessoas. E falavam que tinha morrido umas cinco mil”. Ele registrou cenas de desespero, saques reprimidos à bala, passou fome e frio e viu muitas pessoas na mesma situação. “Tudo o que você possa imaginar aconteceu em Tubarão naqueles dias”.



Foto 6| Equilibrista da ponte Hercílio Luz em 1975 (Foto: Lourival Bento).

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Serra do Rio do Rastro



O jornalista Aldírio Simões trabalhava como repórter esportivo no jornal O Estado e foi escalado para cobrir um jogo entre Figueirense e Internacional de Lages, em Lages. Ele seguiu com o repórter-fotográfico Lourival Bento que na época locava e dirigia seu próprio veículo para o jornal, como os demais fotógrafos. Acostumados a alcançar o planalto serrano pela BR-282, resolveram inovar e tomaram a Serra do Rio do Rastro, que ainda não havia sido asfaltada.
Num determinado ponto da estrada Lourival perdeu o controle da direção e o veículo foi parar junto a um precipício. “Metade do carro ficou dependurada. A sorte é que o motor ficava atrás”, lembra. Conseguiram retirar o veículo e seguiram caminho, chegando a Lages na metade do segundo tempo do jogo. Fizeram as fotos e as entrevistas e correram de volta, agora pela BR 282. Ao chegar a redação quase foram linchados. “Por que não foram pela estrada normal?”.

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Foto 7| Esculpindo o coração de cristo. Treze Tilhas, 1988 (Foto: Lourival Bento).
Foto 8| Navio Malthesa-S afundado em Laguna-SC, final da década de 1970 (Foto: Lourival Bento).


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Leme enroscado


 Há cerca de seis anos Lourival foi contratado pelo programa de gerenciamento costeiro para fotografar o litoral catarinense. Percorreu de Itapoá a Florianópolis, onde o avião abasteceu e seguiu viagem. “Na saída eu escutei um barulhinho esquisito, mas não dei bola”, recorda o fotógrafo. Na altura da Pinheira, o piloto pediu que ele botasse a cabeça para fora e olhasse algo esquisito que estava acontecendo. “A roda traseira tinha caído e estava presa a uma corrente. Essa corrente havia se enroscado no leme”.
Seguiram-se momentos de grande tensão. Estavam sobre o Oceano Atlântico, sem colete salva-vidas. O piloto, sem ação, se comunicou com o Aeroporto Hercílio Luz. “A certa altura, Aquele lá em cima me olhou novamente a corrente se desprendeu do leme como por milagre”, lembra. E assim conseguiram chegar ao Hercílio Luz, onde um pequeno exército de bombeiros e pessoal da Infraero os aguardava.

Foto 9| Lourival e Rivaldo. Festa de reveillon no hotel Maria do Mar em Florianópolis (1992).

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Pisando em falso


Ele foi o primeiro repórter fotográfico a chegar ao local do acidente com o avião da Transbrasil em abril de 1980, no morro da Virgínia (Ratones) em Florianópolis. “Estava chovendo. Fazia muito frio”. Era noite e ele teve dificuldades para fazer as fotos. “As pessoas que estavam lá caminhavam no escuro e pisavam nas coisas pensando ser uma pedra ou pedaço de pau, mas eram os passageiros. Alguns chegavam a gemer, mas não havia como prestar socorro”. Também dessa vez as fotos foram parar em jornais de vários países.  
 
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Olha o passarinho!


 O avião do então governador Henrique Córdova caiu na região da Base Aérea de Florianópolis. Lourival foi escalado para fazer as fotos. Ao sair, o jornalista Vilson Libório desafiou: “Faço minhas necessidades em cima da mesa se tu conseguir essa foto”. A área estava interditada a jornalistas. Militares da Aeronáutica protegiam o local da queda.
Lourival chegou e perguntou a um funcionário da Infraero o local do acidente. “Ele disse que em 10 minutos largava o serviço e também queria ver. Iria comigo”. Depois de atravessar o mato e passar por cursos d’água encontrou o avião, se deparando com soldados nervosos. E foi logo perguntando quem gostaria de ter uma foto de lembrança com o avião fumegando. Os militares caíram na conversa, se assanharam e posaram para a foto que foi parar na capa do jornal O Estado no dia seguinte.
“Eles devem ter sido punidos”, lamenta. Vilson Libório, ao ser cobrado, alegou que a foto não fora tirada no local que o fotógrafo indicava.
No rastro de Cinderelo
Cinderelo era o nome de um foragido da Penitenciária acusado de vários crimes. Lourival foi a seu encalço. Subiu o morro onde imaginava que pudesse estar escondido e num boteco deixou um bilhete com seu endereço e telefone. Queria se encontrar com ele, fazer fotos. O repórter Eduardo Paredes estava junto. Certo dia Lourival foi bater ponto numa lanchonete em frente de casa, onde avistou a passagem de uma viatura da Polícia Militar com um oficial na direção. O homem diminuiu a velocidade, olhou para o bar e seguiu.
Pouco depois o mesmo sujeito fardado reapareceu, no momento em que um freguês do bar, funcionário aposentado da Caixa Econômica Federal, passava mal, sendo levado pela viatura. Ao chegar em casa, a mulher disse que um homem fardado o havia procurado. Lourival ficou intrigado. No dia seguinte, ao chegar à mesma lanchonete, o aposentado que havia passado mal disse: “O cara que me levou era o Cinderelo. Ele disse isso no caminho”.

Foto| Lourival Bento

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Testemunhos

“Fera no teclado”

 “Conheci o Lourival Bento em abril de 1973, quando cheguei em Floripa para trabalhar na sucursal do JSC. Ambos tínhamos pouco mais de 20 anos - eu era um foca completo, o Loro já tinha certa experiência de jornal, e me ajudou muito no início. Durante cerca de um ano, fizemos juntos uma série de matérias, das quais, tanto tempo depois, só guardei uma na memória: em plena era Médici, denunciamos a prática de tortura em menores na Delegacia de Furtos e Roubos. A reportagem até causou certo ‘auê’, mas, é claro, nada aconteceu com os policiais, enquanto nós tivemos que dar explicações no DOPS durante um bom tempo. Lembro também, embora vagamente, de algumas cervejadas juntos na noite. Depois, cada um foi tratar da vida, e faz uns bons 20 anos que não o vejo. Ironicamente, a lembrança do Loro que eu tenho mais viva não é a do excelente fotógrafo que ele sempre foi, mas a do exímio datilógrafo. O cara era fera no teclado, de longe o melhor que conheci - não obstante seu português fosse semelhante ao do ‘seu Creisson’”.
Flávio de Sturdze, jornalista.


Ousadia e coragem

“Lourival – ou Loro - é, sobretudo, ousado, além de rápido e corajoso. Talvez ele tenha sido o único a fotografar a ponte Hercílio Luz lá do alto de uma de suas torres. Só em olhar para cima eu ficava tonto. Ele era capaz de convencer um político a ficar ao lado do seu arque-inimigo para produzir uma pauta da redação. Pendurar-se em árvores em áreas inundadas, tentar fotografar a cidade de aviões em shows de acrobacias aéreas, tudo isso era fácil para quem sempre teve como virtude ser um ótimo fotógrafo. E é.”
Laudelino José Sarda, jornalista e professor.


Mané de Itajaí

"O Lourival Bento é daqueles fotógrafos de jornal que poderíamos enquadrar na categoria de 'repórter', puramente repórter. Naquela redação de O Estado dos anos 80 tínhamos vários assim, mas alguns pendiam mais para a estética, para a 'luz e sombra', para a plasticidade, o que também é importante. Mas as fotos do Lourival encaminhavam a reportagem, ou seja, ele 'obrigava' o repórter a conduzir suas 1.000 palavras através de sua imagem. Tivemos inúmeras aventuras juntos, mas uma inesquecível: na enchente de Blumenau, em 83. Á pé, abaixo de muito barro e chuva, entramos numa cidade ilhada e acompanhamos até o drama daquelas famílias que tinham mortos para enterrar, mas não tinham aonde. Estava tudo embaixo d'água. Nossa amizade é tão grande que ele foi padrinho, com a Maria Helena, da minha Gabi, que agora já tem 26 anos. Grande compadre, que fiquei 15 anos sem ver e que de repente me aparece na janela de um dos quartos do Lar dos Velhinhos da Serte, na Cachoeira do Bom Jesus. Lá estava ele, com sua câmera, cumprindo a missão que Deus lhe deu: fotografando nossos Irmãos mais velhos na Semana do Idoso. Beijo no teu coração, manezinho de Itajaí".
Fernando Bond, jornalista. 
 

 

 

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