Fala Eficiente

Homem de ferro e fibra de carbono

 

 Completar um Ironman é uma idéia distante para boa parte das pessoas. Para o estudante de Educação Física André Palermo Szücs o desafio de nadar 3.8km, pedalar 180 km e correr 42.2 km também parecia uma missão impossível até que em maio deste ano encarou o maior desafio de sua vida.
Natural de Florianópolis, ele nasceu há 27 anos sem a parte inferior da perna direita e com malformação dos dedos das mãos. Com um ano e meio de idade aprendeu a caminhar com o auxílio de prótese e desde a adolescência possui paixão por esportes e um grande fascínio por superar seus próprios limites.
Aos 12 anos começou a praticar mountain bike e por duas vezes – nos anos de 1995 e 1996 – realizou a volta à Ilha de bicicleta. Como não bastasse, no ano de 2000 foi juntamente com quatro colegas pedalando até o Rio de Janeiro, em uma jornada de 25 dias.

 Em determinada ocasião, durante uma semana seguida testou sua resistência subindo o Morro da Cruz. “Minha mãe sempre perguntava para quem eu queria provar alguma coisa”, lembra. “Mas era um interesse pessoal. A questão da superação é de cada um”.
Antes de encarar o Ironman 2007, André possuía habilidade como nadador, modalidade que pratica desde os 21 anos e acumula resultados significativos.
Há cerca de um mês ele ganhou o ouro nos 50m livre e a prata nos 100m livre representando o Brasil nos Jogos Mundiais da Federação Internacional de Esportes para Cadeirantes e Amputados (Iwas) na cidade de Taipei, capital de Taiwan. 
Entre seus principais títulos, também está a primeira colocação do Circuito de Maratonas Aquáticas de Santa Catarina na categoria específica para portadores de necessidades especiais (PPNE).


Novos passos

 Com extenso currículo como desportista, André Szücs não possuía experiência como corredor, fato este que julgava uma das principais dificuldades para disputar o Ironman.
Há cerca de dois anos começou a utilizar uma prótese de fibra de carbono específica para corridas e deu início a prática da nova modalidade. O equipamento foi adquirido com auxílio da lei estadual de incentivo ao esporte (Fundesporte) e da Challenged Athletes Foundation (CAD), uma entidade norte-americana com sede em San Diego, Califórnia.
A partir daí vieram os primeiros treinamentos. A distância máxima percorrida por André havia sido oito quilômetros, até que no dia 27 de maio teve um final feliz em uma história que você pode acompanhar com as palavras de quem viveu as mágicas 14h 50min 39.

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O dia inesquecível
Por André Szücs


 Ainda na madrugada, às 4h15, eu já tomava meu café da manhã e para minha surpresa não estava nervoso. Às 5 horas da manhã eu já estava na tenda de troca junto com mais de 1250 atletas que chegavam, ainda apreensivos, como eu, por todo o esforço que nos seria exigido o dia inteiro.
No fluxo da multidão, calmamente coloquei a roupa de borracha, segui até a praia, posicionei-me na largada e nos últimos instantes de calmaria, quando bate aquela absurda sensação de fraqueza ao saber que eu encararia, daqui a 2 minutos, uma prova muito longa e cansativa, só me restou esperar a corneta soar.
Como esperado, a natação foi bem tranqüila, completei em 130º lugar. Na etapa do ciclismo, eu tive sensações interessantes. Num piscar de olhos completei os primeiros 90 quilômetros. É impressionante como o contato verbal nessa hora causa um efeito muito positivo. Praticamente todos que me ultrapassavam se comunicavam de alguma maneira com mensagens de incentivos: os americanos falavam “Good job”, e eu retribuía “thanks, good race”.
 O primeiro momento crucial foi na barreira dos 130 quilômetros. Meu pescoço estava simplesmente travado, uma dor insuportável que se somava às dores na lombar, um incômodo no joelho, cansaço generalizado, os dedos da mão duros e gelados.
Eu queria parar! Comecei a pensar em cafezinho com biscoito, enrolado no cobertor vendo TV, a melhor tradução para isso é “delirando”. Nessa altura eu estava na Beira Mar Norte encrencado, pois ainda me restavam 60 quilômetros de bike e uma maratona a cumprir!
Para o meu espanto completei o ciclismo! Posição geral 813.

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“Uma maratoninha pela frente”


 Ao chegar do ciclismo, fui tomado por uma emoção quando entrei na tenda de trocas, todos os meus amigos da faculdade estavam ali me esperando para entoar em alto e bom tom palavras de incentivo. Ao sentar no banco para trocar a sapatilha pelo tênis, o capacete pelo boné e mais alguns anexos pertinentes, desabei em choro por ter recebido tanto apoio de tanta gente.
Ao sair para começar a corrida, ainda com lágrimas nos olhos, encontrei minha irmã Bárbara. Ela disse:
- E aí, como você está?
- Tô aqui ainda, não sei como.
- Uma maratoninha agora André, força!
Eu precisaria de muita energia pra concluir os absurdos 42.2 quilômetros. Andei um bom pedaço, intercalei entre trotes e caminhadas por um longo percurso sempre pegando do pessoal de apoio banana, refrigerante, isotônicos, pão, bolo.
Na altura dos 12 quilômetros eu sentei-me pra descansar.  Passou uma onda de desânimo por mim, muitas coisas me incomodavam. Quando me levantei para continuar um amigo se aproximou de mim esbanjando muita energia e alegria, o que de imediato me motivou a acompanhá-lo durante o percurso. Esses foram os momentos mais tranqüilos da maratona.
Conversamos o tempo todo, contamos piadas, parávamos juntos ao pessoal de apoio para lanchar. Surpreendentemente tínhamos completado a primeira volta de 21 quilômetros. Ora, se nós havíamos completado a primeira volta, que era a pior e maior das três totais, só pude me obrigar a fazer as outras duas de 10,5 quilômetros com o pé nas costas!
Na 3ª volta, ao chegar na reta final, pensamentos de missão cumprida estavam começando a aparecer. Inacreditavelmente eu estava prestes a completar o Ironman 2007.
Nunca havia sentido tanto prazer ao ver uma linha de chegada. Ao entrar pelo corredor, no meio da multidão de torcedores, fui prazerosamente cegado pelos holofotes que iluminavam mais um membro da família. Honrosamente, terminei o Ironman na posição 1063. Posso dizer que eu fiz o meu trabalho, atendendo aos requisitos da frase de apoio estrangeira: “Good Job!”

Conheça um pouco mais sobre André Szucs no www.andreszucs.blogspot.com

"A gente não quer caridade e sim conquistar espaço pela qualidade”.
 "Descobri que a limitação física não existe. Quem manda é a cabeça”.
"Quem faz um Ironman é capaz de qualquer coisa".

 

 

 

       
Homem de ferro e fibra de carbono
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