Saudades

Abertura do verão de 1983




Em 1979, depois de muito agitar, tomei jeito e entrei para a televisão e minha vida nunca mais seria a mesma. Para melhor e para pior. Em 1980, perdemos Rômulo Coutinho de Azevedo, que Caetano Veloso costumava chamar de ponto de equilíbrio de Floripa. Em 1982 nasceu minha primeira filha, Maria Cláudia, em abril, e dois meses depois estava na Espanha, curtindo, como torcedor, minha primeira Copa do Mundo. A primeira e a melhor, tanto para mim, ainda um gurizão, sozinho e com liberdade, como para o time, que dirigido pelo mestre Telê Santana, encantou o mundo.
Um ano depois, em 1983, viajo pela segunda vez para os Estados Unidos, a convite do dono da Ilhatur, Antônio Pereira Oliveira, para conhecer a Disney e o Epcot Center. Na volta da viagem de uma semana fico no Rio para contratar o cantor Tim Maia para uma festa de abertura do verão, em dezembro, na Praia da Joaquina. Pediu-me o então prefeito de Florianópolis, Cláudio Ávila da Silva, que criasse um evento para a cidade dar as boas vindas à sua melhor estação.
Caetano Veloso acabara de gravar Sina, com Djavan, e um refrão dizia: "quero que tudo saia, como o som de Tim Maia...". Tim, eu conhecia desde quando surgiu, porque tínhamos, em casa, em Coqueiros, seu primeiro LP, Cabelo black power, já era conhecido.
Mas perdeu credibilidade: ninguém mais o contratava com medo de levar cano. Marcava os shows, mas não ia. Estava sendo vencido pelas drogas. Ficava em casa e se passava, refém de si mesmo. Cada vez mais gordo, brigou com empresários, com a Globo, com a irmã, com o sobrinho, com o filho, com as ex-mulheres, com o ex-amigo Roberto Carlos, com a imprensa, com a balança e com os fãs. Não teve mais nada tocando no rádio.
 Mas tinha um repertório que no meu entender, cairia como uma luva numa praia como a da Joaquina, numa noite de dezembro, ainda sem muitos turistas. A cidade era nossa. Só nossa.  Não custava tentar. Tim Maia fazia o gênio maldito. Um cara difícil. E isso me interessava.
Cheguei dos Estados Unidos e fui contratá-lo no Rio. Levei 50% do sinal, em espécie, como exigia. Já não tinha mais empresário. Assumiu tudo. Não nos conhecíamos. Achei seu telefone e liguei. Mandou que fosse vê-lo, num edifício na Gávea, onde morava também o cantor Luiz Melodia. Levei minha prima, Fernanda, que mora no Rio, para ir comigo. Tinha carro e conhecia a cidade.
Tim foi na hora com a nossa cara, que naquela época não era assim tão feia. Exigiu que fossemos ao show que faria no dia seguinte na Ilha do Governador, onde ofereceu, "para Cacau, de Floripa, e sua prima Maria Fernanda, a música O Descobridor dos Sete Mares”. Estava selada uma forte parceria. Fizemos juntos pelo menos mais uns dez shows e algumas festas particulares, aqui, na Ilha, e no apart-hotel onde morava na Barra da Tijuca. Foi quando voltou aos shows, aos palcos, aos aeroportos...


_____________________________________________________________________________________________________________


Na Joaca

 A festa de Floripa foi um sucesso. A Praia da Joaquina era um sucesso. Cinco da tarde, a turma de sempre estava saindo bêbada do bar do Chico, encontrando gente de roupa, mochilas, de cara limpa, que vinha em grande número para a festa da noite. Só não vinha o Tim Maia. Programei sorteios, desfiles, outros shows. Era uma noite inteira de festa, com Banda Brilho, Ricardo Graça Mello, Tubarão, o Kiko, que acabou nu no palco, fogos, etc. A RBS TV fez a cobertura do evento.
Como o previsto, a banda Vitória Régia chegou no dia do show, às 10 horas da manhã. Mas cadê o Tim? Desespero na Joaquina. Foi um dia inteiro de tensão, estresse, medo. Devo ter ligado umas 30 vezes para São Paulo. O cantor ficara em São Paulo, negava-se a entrar no avião com medo do mau tempo na capital paulista. E ficou bebendo uísque e cheirando cocaína no hotel.
Não sei como, quem foi o autor do milagre, acabou embarcando no último vôo, não deixou ninguém sossegado a bordo e, na Joaquina, foi direto para o quarto do hotel dormir, onde chegou a milhão, num carro dirigido pelo nobre Ezequiel Maia. Foi hilário. Completamente doido, Tim Maia teve cobertura da Polícia Militar, com escolta de pelotão de motos, do aeroporto até o hotel, porque senão não chegava mesmo. Seu avião pousou às 21 horas. 
 A festa rolando, a multidão crescendo e o Tim dormindo. Fui atrasando seu show. E o povo nem aí. A ordem era ver o sol nascer na praia. E chegou a hora do Tim Maia. Fui ao seu quarto para a ingrata missão de acordá-lo. Não queira nunca isso para a sua vida, caro leitor. Um pouquinho só melhor, Tim tratou, ainda no quarto, de deixar tudo como antes, esticando cinco carreiras e tomando duas latas de cerveja quente antes de descer.
Do hall do hotel até o palco, um parto. Fizemos 20 metros em quase duas horas. O Tim foi pelo meio do povo e muita gente achando ele parecido com o Tim Maia. Sem saber que era o próprio.
Para colocá-lo no palco, pedi ajuda. Marcos Heise estava lá e ajudou a empurrar na escada. Subiu, tentou cantar, fez graça, perdeu o baseado, falou um monte e o resto não me perguntem porque não saberei responder. Sei que vi, com a praia lotada, o sol esplendoroso do domingo nascendo no local da festa. Tim Maia roncava de janela aberta. Desconfio que estava sonhando. Ou querendo cantar.

________________________________________________________________________________________________________________________________ 

Paz & Amor

 Calculamos em 20 mil pessoas o público daquele sábado de dezembro na Joaquina.  Os VIPs se hospedaram no hotel. A turma que eu badalava pela coluna, e que tinha um pouco mais de condição, lotou o hotel, que também não dormiu, num vai-e-vem inesquecível. Muitos nem conseguiram chegar. Parou tudo. Do morro da Lagoa até a Joaquina estava tudo trancado. Pessoas deixaram seus carros pelo caminho e foram a pé, atravessando as dunas. Era uma época que ainda dava para deixar 20 mil pessoas virando uma noite de sexo, drogas e soul na praia sem mortos e feridos.
O público, aliás, foi o melhor da noite, cada um fazendo o seu show. Foi uma noite de pura magia. Talvez uma das melhores que vivi em Florianópolis.




________________________________________________________________________________________________________________________________

Estive lá

Lendo tua coluna no clicrbs de hoje, retornei aos bons tempos dos shows de abertura do verão. Esses períodos na ilha eram sempre mágicos. Naquele ano de 82, eu estava lá na Joaca curtindo o show e a loucura, com amigos e amigas da universidade. Realmente foi o que escrevestes. Todos e todas curtimos muito. Foi bom ler e relembrar os bons tempos aí na Ilha maravilhosa.
Forte abraço do teu sempre leitor, ainda que distante.

E-mail enviado ao colunista por André Videira

 

 

       
Abertura do verão de 1983
Bar do Chico | 1980
Jorge Benjor ao ar livre | 1980
Aquela outra Floripa | 1980
Gilberto Gil na Ilha
Beto Stodieck por Cacau Menezes
       
 
   
desenvolvido por VirtuaComm Soluções Internet