Especial | Guerra do Contestado - parte III

1914 | A investida rebelde sobre Lages

 

Paulo Pinheiro Machado*
(Especial para a MURAL)


“São desoladoras as notícias que chegam da região conflagrada pelos fanáticos. As comunicações telegráficas com a Vila de Curitibanos estão interrompidas há alguns dias. As autoridades superiores do Estado sabem, por telegrama de Lages, que aquela importante e próspera localidade serrana foi atacada na noite de 25 [de setembro] por uma horda de fanáticos de cerca de 500 indivíduos, 200 dos quais se apresentaram montados. [...] Em Lages é grande o sobressalto da população que está em armas, na expectativa de um ataque.”
(Jornal O Dia, 29/09/1914)

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 Entre os meses de setembro e dezembro de 1914 a cidade de Lages esteve no alvo dos sertanejos rebelados, durante a Guerra do Contestado (1912-1916). Fortificações e trincheiras foram construídas no entorno do atual centro da cidade, que possuía pouco mais de 10 mil habitantes no seu núcleo urbano. Muitas famílias mandaram suas mulheres e crianças para Florianópolis e outros municípios do litoral. A cidade era conhecida como uma segunda capital do Estado, berço de Vidal de Oliveira Ramos, que já havia assumido o governo do Estado por dois mandatos. Seu irmão, Belisário Ramos era Coronel da Guarda Nacional e prefeito da cidade desde o início do século. O governador naquele momento era o também lageano Felipe Schmidt.
No segundo semestre de 1914 o movimento sertanejo se encontrava plenamente configurado, havia crescido nos anos anteriores agregando, dentro do discurso místico da “Guerra Santa”,diversos grupos sociais insatisfeitos com a política republicana e a transformação de seus meios de vida. O poder inicial das virgens já estava suplantado pela maior importância dos “comandantes de briga”. Além do grupo inicial de seguidores do monge José Maria, os redutos ou “Cidades Santas” conseguiram atrair antigos políticos federalistas, chamados “maragatos” (derrotados na Revolução de 1893 a 1895), opositores políticos dos Coronéis que mandavam na política do planalto, posseiros expulsos de seus sítios  pela empresa ferroviária Southern Brazil Railway e sua madeireira, a Lumber and Colonization Company.
O movimento vivia o seu momento de maior radicalização e expansão. Até julho de 1914 os sertanejos só se defenderam dos ataques dos “peludos”- como eram chamados os soldados do governo - assim ocorreu no Irani, em Taquaruçu e Caraguatá. A partir de julho de 1914, quando se firma a liderança de Chiquinho Alonso (Francisco Alonso de Souza) entre os rebeldes, os ataques sertanejos se multiplicam por uma extensa área geográfica. Era objetivo dos sertanejos fazer crescerem os seus redutos e vingar as afrontas até então feitas pelo governo apoiado nos Coronéis e nos executivos norte-americanos da ferrovia e da Lumber.

Foto 1| Bandeira dos seguidores de São João Maria. Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).
Foto 2| Lanças fabricadas pelo ferreiro Rogério Stüp para a defesa de Lages. Foram as primeiras peças reunidas por Danilo Thiago de Castro para seu museu. Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).

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Meio Exército contra os caboclos

 Em 14 de julho forte ataque foi desfechado sobre a Vila de Canoinhas pelas forças “peladas” de Aleixo, Papudo e Tavares. Na seqüência, foram atacadas várias estações da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no vale do Rio Iguaçu. Em agosto foram tomadas as Vilas de Papanduva e Itaiópolis. Surpreso e incapaz de controlar a região, Gustavo Lebon Régis, Secretario Geral do Estado que comandava o Regimento de Segurança do Estado de Santa Catarina, demitiu-se.
Em início de setembro há um forte ataque rebelde às estações da Estrada de Ferro no vale do Rio do Peixe, como os povoados de São João e Calmon, onde havia uma grande serraria da Lumber, que foi destruída. As Vilas de Rio Negro e Três Barras, além da cidade de Porto União da Vitória, estavam ameaçadas. Os diretores da Lumber mandaram telegrama ao governo federal informando que todo o planalto estava “infestado de fanáticos”, pedindo providências para a garantia da segurança “individual e das propriedades”. A resposta a esta ofensiva sertaneja foi um pedido conjunto dos governos do Paraná e Santa Catarina por uma intervenção maciça das forças federais.
 Desde a tragédia do Irani (outubro de 1912), pela quinta vez montava-se uma expedição do exército, nesta oportunidade com maior efetivo e maior orçamento. O General Setembrino de Carvalho foi nomeado Inspetor da XI Região Militar (que incluía Paraná e Santa Catarina), foi disponibilizada farta verba orçamentária e mais de 7 mil soldados, o que equivalia a metade do efetivo do exército. Porém, esta notícia não atemorizou os caboclos. Em 25 de setembro a Vila de Curitibanos era atacada por uma grande coluna rebelde que, por 5 dias, destruiu prédios públicos e propriedades do Coronel Francisco de Albuquerque, chefe político local, aliado dos Ramos, de Lages. (PPM)

Foto 3| Igreja Matriz de Lages. Sua construção começou dois anos antes do cerco rebelde a Lages, sendo concluídas em 1922.
Foto 4|  Facão de madeira . Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).

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O reduto do Cerrito

 Em final de setembro o grupo sertanejo que havia ocupado Curitibanos rumou em direção a Lages, procurando reforçar-se no oeste e sul do município, nas regiões da Serra do Rio Canoas, em Campo Belo, São José do Cerrito, Coxilha Rica e Capão Alto. Nestas localidades era forte a presença de pequenos sitiantes e posseiros, muitos tinham parentes em Curitibanos e em Canoinhas.
Logo formou-se no Cerrito um reduto, denominado Campina dos Buenos, chefiado por Maria Sete Pêlos, uma cabocla esposa do “Par de França” Joaquim Vacariano. Os “Pares de França” ou “Pares de São Sebastião” compunham uma guarda sertaneja de elite. Era uma forma muito peculiar de apropriação da leitura da História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França. Vários “Pares de França” eram naturais do Cerrito, como o próprio comandante Adeodato. Um primeiro combate ocorreu no dia 30 de setembro, ao lado da Vila de Campo Belo, onde as forças oficiais foram vencidas pelos caboclos.
 A tropa oficial estava esgotada por um dia inteiro de marcha, os cavalos sedentos e, na proximidade de Campo Belo, travaram tiroteio intenso com piquete rebelde, experiente e bem armado. Os moradores da Vila de Campo Belo foram atingidos por várias balas perdidas. As forças oficiais abandonaram o combate deixando 4 soldados mortos. O comandante do Regimento de Cavalaria queixou-se ao governo do Estado que seus praças dispunham de carabinas comblain sem baionetas, o que dificultava o combate com os rebeldes que sempre depois das primeiras descargas de winchesters punham-se a lutar no corpo-a-corpo, com arma branca.
O grupo rebelde que acumulava forças no oeste do município para investir sobre a cidade de Lages era heterogêneo em sua composição. O Capitão Euclides de Castro, do Regimento de Segurança do Estado faz uma estimativa das forças atacantes, discriminando suas origens e motivações.

Foto 5| Lages em 1913. Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).
Foto 6| Os rebeldes liderados por Castelhano chegaram até as proximidades do atual campus da Udesc no bairro Conta Dinheiro, em Lages.


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“Tenho saído por lugares suspeitos e sempre procuro orientar-me sobre os fanáticos. As notícias sobre o número de fanáticos são diversas, entretanto posso afirmar a Vossa Exa. que o inimigo acampado na serra do Cerrito e suas proximidades é em número de:
Fanáticos ................................200
Amedrontados .........................100
Comedores de carne ................100
Despeitados de Curitibanos .......100
Criminosos ...............................50
Total  .....................................550”*

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O tom pejorativo da descrição do Capitão não deixa de revelar seu cuidado em distinguir diferentes motivações dentro do grupo sertanejo. O grupo de 200 “fanáticos” são os comandados pelo chefe Chico Ventura, um dos primeiros seguidores do monge José Maria e animador do povoado de Taquaruçu. Os 100 “amedrontados” são caboclos, muitos cerritenses, que aderiram ou foram arregimentados compulsuriamente para participar dos piquetes rebeldes. Os 100 “comedores de carne” eram parte da plebe rural desenraizada, muitos expulsos de suas terras pela Brazil Railway e pela Lumber que participaram de vários redutos e, enquanto não ocorria o ataque a Lages, arrebanhavam o gado das fazendas da região para abastecer os redutos. Os 100 “despeitados de Curitibanos” são sertanejos chefiados por Paulino Pereira e pelos irmãos Sampaio, de Curitibanos, inimigos políticos do Coronel Albuquerque e, por extensão, dos Ramos de Lages. Os 50 “criminosos” eram federalistas, seguidores dos chefes Negro Olegário (Olegário Ramos) e Castelhano (Agustín Perez Saraiva) que, em Lages, planejavam uma desforra contra seus antigos desafetos da guerra federalista de 1893-95. (PPM)

* Ofício do Capitão Euclides de Castro ao Secretário Geral dos Negócios do Estado, 22/10/1914. Arquivo Público de Santa Catarina.

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A Brigada gaúcha em cena

 As forças oficiais, reunidas para a defesa da cidade de Lages, eram formadas por um Regimento de Cavalaria do Estado com 50 praças, chefiado pelo Capitão Euclides de Castro; 271 praças e 10 oficiais do 54º Batalhão de Caçadores do Exército, chefiados pelo Tenente-Coronel Aleluia Pires e pelo Capitão Vieira da Rosa e uma guarda “patriótica” de 400 homens do município, formada às pressas pelo Major da Guarda Nacional Manoel Thiago de Castro. O Coronel Emiliano Ramos, primo de Vidal e Belisário, trouxe um grupo de 150 homens de Capão Alto. O Capitão Leogídio de Mello, Delegado de Polícia de Curitibanos, encontrava-se também em Lages com 30 policiais. As forças oficiais perfaziam um total de 1011 homens, sem contar a Guarda Municipal. Por um capricho político, o comando do conjunto das forças não era exercido pelos oficiais das unidades federais, mas pelo fazendeiro e Capitão da Guarda Nacional, Caetano Vieira da Costa, que tinha a confiança dos Coronéis Vidal e Belisário Ramos.
 O Prefeito de Lages afirma que gastou 23 contos de réis em obras de defesa para a cidade e mais de 4 contos na manutenção de piquetes de vaqueanos civis contratados. Os cofres municipais foram esvaziados e boa parte desta fortuna foi levantada por subscrição entre fazendeiros. Um segundo combate ocorreu próximo a cidade, no Cajuru, mas foi apenas um tiroteio que manteve o impasse. Durante o mês de outubro as forças legais ficaram basicamente na cidade de Lages, reforçando suas trincheiras e cercas de arame farpado, mantendo sentinelas 24 horas por dia.
Os rebeldes continuavam a agregar novas forças no interior do município, atacando várias fazendas para acumular gado e arregimentar peões e agregados. Os fazendeiros seguiam para Lages e despachavam muitas famílias para o litoral. Com o aumento da presença rebelde em Lages, o governo do Rio Grande do Sul enviou 490 praças da Brigada Militar para vigiar os diferentes passos do rio Pelotas e impedir uma invasão rebelde no planalto gaúcho, que poderia contar com um apoio razoável dos antigos “maragatos” adversários de Borges de Medeiros. (PPM)

Foto 7| Grupo de rebeldes em Curitibanos, armados com facões de madeira. Tamanho 8,8x13,8mm. Foto n° 439, Arquivo B, Gaveta 2, Pasta 11. Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).
Foto 8| Grupo de lageanos prontos para a defesa da cidade. Tamanho 12,8x17,8mm. Foto n° 445, Arquivo B, Gaveta 2, Pasta 11. Acervo Museu Thiago de Castro (Lages-SC).



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As orelhas de Castelhano

 Por obra do destino, a ofensiva rebelde foi estancada em 1º de novembro com a morte do comandante rebelde Chiquinho Alonso, atingido em combate na estação Rio das Antas, no vale do Rio do Peixe. A expansão rebelde, que incluía tentativa de tomada de centros importantes como Canoinhas, Campos Novos, Rio Negro e Lages, esgotou-se por falta de comando e, de certa forma, por dispersão excessiva de suas forças. No reduto-mor de Caçador Grande teve início um complexo processo de sucessão política entre os “pelados” que só se definiu depois de 15 de novembro, com a proclamação de Adeodato como comandante geral, feita pelo velho Elias de Moraes.
O novo chefe, para afirmar sua autoridade, ordenou um recolhimento geral de todos os piquetes rebeldes ao reduto-mor. O chefe Chico Ventura recebeu e cumpriu esta ordem de Adeodato logo depois de um terceiro combate ocorrido em 17 de novembro, na Chácara de Victor de Brito, em Campo Belo, quando uma unidade do 54º Batalhão de Caçadores, chefiada pelo Capitão Vieira da Rosa, travou sério tiroteio com os sertanejos, mas sem conseguir desaloja-los de suas principais posições.
A maior parte dos piquetes caboclos evacuou para os redutos do norte (Taquaruçu, Caçador Grande e Bom Sossego). Permaneceu no interior de Lages, com um pequeno piquete, o chefe Castelhano, descontente com a ordem de Adeodato. Castelhano pretendia cruzar o Pelotas e internar-se no Rio Grande do Sul, mas foi capturado e morto em Cerro Negro, por forças chefiadas pelo fazendeiro Caetano Ribeiro da Silva, em 6 de dezembro de 1914. Suas orelhas foram decepadas para serem exibidas em Lages. A partir deste momento Lages não era mais um alvo provável dos sertanejos, mas o movimento rebelde ainda estava muito distante do seu término.

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(*) Paulo Pinheiro Machado é professor do Departamento de História da UFSC (Florianópolis-SC) e autor do livro Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916). Campinas: Ed. UNICAMP, 2004.

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Memória bem guardada


 Danilo Thiago de Castro tinha 17 anos de idade em 1937, quando começou a reunir pedras, empalhar pássaros, conservar pequenos animais em formol e reunir objetos antigos que ninguém queria mais. Alguns anos depois (1943) fundou oficialmente o Museu Histórico Manoel Thiago de Castro (1872-1941), uma homenagem a seu avô. Funcionava num quarto de sua casa, ao ser visitado em 1948 por uma comissão de vereadores de Lages.
Através da lei municipal nº 281, de 9 de julho de 1960, o Museu foi considerado de utilidade pública, assinada pelo então prefeito Vidal Ramos Júnior. Danilo permaneceu até o fim de seus dias à frente do Museu Thiago de Castro, tendo virado ponto de referência na cidade: se alguém possuía um objeto antigo e não sabia o que fazer com ele, procurava por Danilo, que sempre dava um jeito de receber e abrigar a oferta. Foi assim que reuniu milhares de documentos escritos, cerca de três mil fotografias e quatro mil livros, periódicos e folhetos.
O acervo é dividido em religioso, arquitetônico, comunicações, mobiliários, numismática, vestuário e guerras. Os documentos são de origem judicial, legistivo e do executivo municipal, incluindo manuscritos sobre ensino, política e religião, mapas e levantamentos cartográficos e topográficos, censos e os de cunho etnográfico, guerras, revoluções e movimentos sociais. Também existem coleções de revistas e jornais. (CM) 


 

 

 

 

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