Pioneiros do Fotojornalismo

Tarcísio Mattos | parte VIII


O NASCIMENTO UM REPÓRTER-FOTOGRÁFICO

 O jovem que entrou no "caldeirão" do bairro Saco Grande como Paulo Tarcísio da Silva Mattos, aos 18 anos de idade, saiu algum tempo mais tarde como Tarcísio Mattos, herdeiro direito da primeira geração de repórteres fotográficos de Florianópolis. A transformação começou quando ele se apresentou para ocupar uma vaga no laboratório fotográfico do jornal O Estado. Missão: revelar os filmes e ampliar as fotos de ninguém menos que Orestes de Araújo, Rivaldo de Souza, Lourival Bento e Sérgio Rosário, a nata do fotojornalismo na década de 1970 (ao lado de James Tavares, Laureci Cordeiro e Osvaldo Nocetti, em outros veículos).
 Magrinho e ágil, Tarcísio já usava o olhar como ferramenta, experimentado na câmera Tuka desde 8 anos e numa Yashika quanto completou 14. Com 16 anos já era assistente do fotógrafo Marcos Quint em seu estúdio no bairro do Estreito. Foi com essa experiência que ele aceitou correr o risco. Mais que um emprego, estava encarando um desafio e pavimentando o caminho do aprendizado.
"Foi uma fase extraordinária da minha vida", observa Tarcísio. "Convivia diariamente com os quatro principais repórteres fotográficos da cidade, principalmente o Orestes e o Rivaldo”, destaca. Na época o material fotográfico “era relativamente barato” e permitia ao jovem manter um laboratório fotográfico particular. “Eu escutava as conversas deles e em casa ia aplicando o que aprendia".
 O aprendizado logo se materializou na conquista de um prêmio em 1980. “Fiz a melhor imagem do Carnaval daquele ano e ela foi também publicada no jornal O Estado”, lembra. “Minha primeira foto foi publicada no dia 26 de outubro de 1979, sobre o Dia do Soldado com o repórter Vilson Libória. Ninguém queria ir, pois era uma pauta nqm [nem-que-morra, obrigatória, de interesse comercial da empresa] e me escalaram”. Por essa época ele já havia adquirido uma câmera Cânon FTB e estava pronto para deixar o laboratório e se tornar fotógrafo. Isso ocorreu pouco depois, com a saída temporária de Rivaldo de Souza.
Filho de Salomão Mattos, jornalista e diretor por muitos anos da Imprensa Oficial do Estado (Ioesc), falecido em 1989, e de Otília Censi Mattos, Tarcísio nasceu no dia 22 de janeiro de 1959 em Blumenau-SC, se transferindo com a família para Florianópolis dois anos depois (1961).
Devido à ocupação do pai, passou a infância entre as máquinas e papéis da Ioesc, quando adquiriu o gosto pela profissão que seguiria mais tarde. “Essas imagens sempre foram muito presentes, a mistura das tintas, a montagem das páginas, as linotipos, a impressão e o produto final saindo no outro lado”, recorda.

Fotos 2 e 3| Mergulho no patrimônio histórico e natural do sul do Brasil.

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No DC


 Após seis anos no jornal O Estado, Tarcísio foi para o Diário Catarinense, levado por Rivaldo de Souza e Flávio de Sturdze. “O DC chegou com tecnologia de ponta e isso me interessou, com novas posturas e métodos em relação ao laboratório, o arquivamento do material e os equipamentos fotográficos. Tudo era muito diferente do que havia conhecido, os equipamentos dos mais modernos”, destaca.
Durante os primeiros anos ele atuou na cobertura do dia-a-dia na cidade e no Estado, mas esteve presente no Copa de 1986 no México – a primeira vez que um veículo de comunicação de Santa Catarina envia uma equipe para cobrir esse tipo de evento. Também cobriu corrida de Fórmula 1 de 1986 em São Paulo. Tudo isto o credenciou a assumir a coordenação de fotografia do jornal.

Foto 4| Ulysses Guimarães, Pedro Ivo Campos e Pedro Simon (Florianópolis, campanha presidência de 1989).

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MOS, Soma e Tempo Editorial


 Misto de ativista e empreendedor, Tarcísio deu visibilidade e dimensão à sua produção e apresentou pontos de vista sobre a vida e a política nas fotos que produziu. Ativista por ter entrado de corpo e alma da vigorosa campanha do Movimento de Oposição Sindical (MOS), criado em 1982, visando a conquista da direção do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina. "Conseguimos isso três anos depois, tendo sofrido uma derrota no caminho", lembra Tarcísio, um dos primeiros diretores do mesmo Sindicato em sua nova fase.
Tarcísio fala com o mesmo entusiasmo do tempo em que se apresentou para trabalhar no jornal O Estado. Com o olhar sempre atento e em movimento atrás de cada detalhe, ele recebe a equipe da revista Mural em seu apartamento na região central de Florianópolis. "A foto jornalística sempre me chamou a atenção desde os tempos em que lia as revistas Realidade e Cruzeiro. Era aquele tipo de foto que me atraía”, salienta. É desse modo que o repórter fotográfico expressa as suas “inquietações, dúvidas e críticas, uma forma de manifestação política e social".
 O Tarcísio empreendedor está presente na criação da primeira agência de foto-jornalismo do Estado, a Soma, em 1988, ao lado de profissionais de peso como Eduardo Marques (que continua), Suzete Sandin (atualmente no Canadá), Sérgio Moreira e Carlos Silva. “Sonhava com alguma coisa desse tipo desde 1982”, diz, lembrando as parcerias estabelecidas então com agências de foto jornalismo de Brasília (Ágil) e São Paulo (Angular, de João Bittar). Mais tarde trabalhou com a agência F-4. Foram esses contatos que possibilitaram a publicação de seus primeiros trabalhos em todo o Brasil, em especial as fotos das enchentes de 1983 no vale do rio Itajaí (Isto É, ensaio na revista Fotóptica).
A preocupação com a qualidade da produção e o uso de equipamentos de ponta, inclusive na transmissão de imagens, esteve presente desde o início, assim com a digitalização do material fotográfico. Toda essa experiência desembocou na empresa Tempo Editorial, sucessora da Soma, com 10 mil imagens disponíveis para pesquisa on line de um arquivo off line com 100 mil fotografias (www.tempoeditorial.com.br).     

Foto 5| Lula, candidato a presidência (Caçador-SC, 1989).
Foto 6| Vale do Itajaí, cheias de 1983.

 

 

 


 

Lourival Bento | parte VII
James Tavares | parte VI
Osvaldo Nocetti | parte V
Rivaldo Souza | parte IV
Homenagem | O clic de Olívio Lamas
       
 
   
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