Repórter Historiador

Guerra do Contestado | parte IV


No coração da revolta
TAQUARUÇÚ

 Patrícia Palhano tem 14 anos de idade. Os olhos brilham ao falar da participação na peça "Contestado – Vida e realidade", em que o grupo "Sangue Jagunço" reconstitui os quatro principais combates da Guerra do Contestado (1912-1916): Irani, Taquaruçu, Caraguatá e Santa Maria. "É legal, muito importante", diz a menina, residente em Taquaruçu.
"Importante porque fala da história dos nossos parentes e avós", acrescenta, destacando que o conflito é tema de conversas em casa. Ela é uma das dezenas de crianças, adolescentes e adultos do município de Fraiburgo, mobilizadas na encenação dirigida pelo professor Lindomar Palmeira (Kiko), 32 anos, descendente de russos e indígenas da localidade de Taquara Verde (Caçador), formado em Educação Física com especialização em treinamento esportivo.
O que move Kiko e atores como Edmilson Cordeiro é a memória ainda presente dos fatos ocorridos em Taquaruçu, o verdadeiro coração do Contestado. Era ali que o monge José Maria se encontrava desde agosto de 1912, quando se deslocou para o Irani no início de outubro do mesmo ano, a convite dos principais líderes do lugar, entre os quais Praxedes Gomes Damasceno.
 Foi em Taquaruçu que surgiram os Pares de França, unidade de combate de elite criada por José Maria e os líderes do Contestado, uma espécie de estado-maior do comando de resistência ao despejo das terras que ocupavam há pelo menos dois séculos. Os mesmos Pares que seguiram o monge até o Irani, retornando após o combate na expectativa de que em um ano ele retornaria acompanhado do Exército Encantado de São Sebastião.
São as memórias desses feitos que estimulam velhos e jovens moradores da região a reabilitar perante a opinião pública aqueles que, um dia, foram considerados criminosos e tratados como tais. Tudo isso acontece em Fraiburgo, distante 375 quilômetros de Florianópolis, com 37 mil habitantes fixos, aos quais se somam os cerca de 10 mil temporários no período da colheita da maçã, entre janeiro e abril de cada ano.

Fotos 1 e 2| Representação da dor e da morte em Taquaruçu: o ator e diretor Lindomar Palmeira (Kiko) ergue o pequeno João Paulo Rodrigues.

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Memória preciosas


 Além de Patrícia Palhano outros moradores de Taquaruçu se juntaram aos esforços de pessoas de outras áreas do município para a encenação de “Contestado – Vida e realidade”. É o caso de João Paulo Rodrigues, 9 anos, que ao lado de Patrícia brilha na cena final. “É a segunda vez que eu estou dançando”, diz com alegria e igual brilho nos olhos.
Solteiro e residente em Taquaruçu, o agricultor Marcos Delfes, 24 anos, foi estimulado por uma tia a participar da peça. "Eu sempre gostei de conversar com os mais antigos, ouvir suas histórias", conta Marcos, que fez o papel de caboclo e agora representa um soldado.
Entre os moradores da região central de Fraiburgo integrados ao esforço de valorização da memória cabocla, estão Gisele Tartaré, que faz o papel de Maria Rosa, a estudante de Enfermagem Ana Paula Rodrigues Alves, 23 anos, há 11 anos envolvida com a dança, e Alessandra Machado, 15 anos, que se apresenta como Chica Pelega. "É interessante essa participação pois a gente aprende num pouco da história da personagem", explica.
 Outros moradores de Fraiburgo estão presentes, como o menor Luan Antônio dos Santos, 16 anos, residente em Vila Salete. "Ele era meio viradinho", diz o professor Kiko. "Ele entrou num programa social da Prefeitura e há três anos faz o papel de um rebelde do Contestado". Luan está feliz com a ocupação.   
 O esforço de valorização da memória dos caboclos e em especial dos descendentes dos antigos combatentes do Contestado tem apoio da Prefeitura Municipal, através do Departamento de Cultura dirigido pela professora Márcia Cardoso. Isso inclui a coleta de depoimentos em vídeo com antigos moradores. "Muita coisa se perdeu, outras foram levadas para Caçador, mas ainda resta muito a ser recuperado", destaca Márcia.
 
Fotos 3 e 4| Marco da religiosidade cabocla é atrativo turístico mantido pelo principal hotel da cidade.

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Pelas almas penadas


 Já passa do meio-dia quando chegamos a Taquaruçu, distante cerca de 20 quilômetros do centro de Fraiburgo, percorrendo uma estrada sem pavimento. Somos recebidos com um farto almoço preparado por Claudice Delfes, irmã de Edson de Lorenzi, nosso guia. A nossa frente foram colocados sete ou oito tipos de saladas, arroz, pato assado e recheado, carnes de porco e de gado assadas ao forno e mais alguma coisa que devo ter esquecido.
Edson é professor de Geografia e funcionário do Departamento de Cultura, filho de imigrantes de origem italiana vindos de Urussanga-SC na década de 1940. Ele também batalha pela valorização da semente crioula através exposições anuais, sempre no primeiro domingo de agosto. Até agora foram reunidas 27 espécies de abóbora, milho, arroz, soja e feijão, entre outras. Nessas ocasiões os caboclos apresentam suas receitas de biju e danças tradicionais.

 Enquanto ajuda os visitantes no corte das carnes, comenta sobre a tradição da Recomenda das Almas, realizada entre quarta-feira de Cinzas e sexta-feira Santa, quando um grupo de pessoas com instrumentos e cantoria percorre as casas. Eles em frente a uma residência, rezam, tocam e cantam. Passados uns 15 minutos, não tendo sido convidados a entrar, seguem caminho. Em geral são recebidos pelas famílias, degustam doces e salgados, bebem alguma coisa e continuam em frente. "A Recomenda é para aqueles corpos que ficaram expostos e suas almas penando. A reza anual é para tranqüilizar essas almas", destaca Edson.


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Caveira no anzol



 O trabalho com a memória dos caboclos de Taquaruçu começou há cerca de 20 anos, quando o músico e pesquisador Vicente Telles, residente em Irani, visitou o local e conversou com as lideranças. "As pessoas tinham medo de falar. Foram rotulados como bandidos, assassinos, tinham medo, achavam que ainda podiam ser presos. Os que ficaram aqui foram os que conseguiram fugir do Exército".
Edson tem 35 anos e reside no mesmo sítio em que Praxedes Gomes Damasceno mantinha um sortido comércio, junto a um antigo banhado agora represado e denominado Lago de São João Maria. Os vestígios da construção foram mantidos. Ele faz palestras nas escolas e guia alunos em visita a Taquaruçu. Um dos pontos de visitação é o "Museu do Jagunço", instalado em duas dependências de uma antiga escola. "Cidade Santa de Taquaruçu", diz a placa no alto. O Museu foi inaugurado no dia 3 de agosto de 2003.
 Junto à Gruta do Monge, nas imediações, há uma cruz de cedro que está brotando, plantada por João Maria Palhano em 1988. No antigo Cemitério do Taquaruçu, cercado de taipa, os túmulos são trabalhados em pedra e poucos com identificação. Num deles há uma escultura de Nossa Senhora Aparecida em pedra. 
"No dia do combate foram contados 140 corpos, mas os que vivenciaram tudo aquilo falam em mais de 600. Muitos foram morrer nos matos. Formou-se uma nuvem de corvos, um cheiro forte, cães e porcos comendo cadáveres. As balas dos canhões caiam sobre as casas explodindo". Cinco ou seis anos depois do confronto, alguns padres recolheram as ossadas pelos matos e o campo, enterradas sem identificação.
Muitos morreram no rio Taquaruçu e "há cerca de 30 anos um sujeito que foi pescar fisgou uma caveira no anzol. Pegaram essa caveira, a colocaram numa caixinha, e a enterraram no cemitério sem identificação". 

Foto 7| Lago de São João Maria. Casa de madeira erguida no local onde havia uma igreja bombardeada, repleta de mulheres, crianças e velhos. O armazém e residência de Praxedes Gomes Damasceno ficavam nesse local.
Foto 8| Cemitério dos caboclos combatentes de Taquaruçu.

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SAIBA MAIS

Reduto de Taquaruçu.


 * Segundo semestre de 1913.
* Líderes: Praxedes Gomes Damasceno, Eusébio Ferreira dos Santos, Manoel Alves de Assunção Rocha, Francisco Paes de Farias, Cirino Chato e outros.
* Uma neta de Eusébio, Teodora, órfã de mãe, tem visões e garante ter falado com José Maria (morto no combate de 22 de outubro de 1912 no Irani). O fato se espalha. Centenas de pessoas estão no local e muitos chegando.
* Teodora “perdeu o aço” (legitimidade) e foi substituída por Manoel, filho de Eusébio. A Cidade Santa está formada. Os caboclos viam José Maria e São Jorge à cavalo nas formas das nuvens e vislumbravam a figura de São João Maria entre as frestas das matas. Manoel foi substituído por outro neto de Eusébio, Joaquim.
* Em 28 de dezembro as forças policiais vindas de Curitibanos, Campos Novos e Caçador se aproximam, sendo enfrentadas e vencidas. Em janeiro de 1914 começa a mudança para o reduto de Caraguatá. O Supremo Tribunal Federal nega pedido de habeas corpus em favor dos sertanejos. O deputado estadual Manoel Correia de Freitas tenta a paz e visita os dois redutos.
* No dia 8 de fevereiro de 1914 cerca de 700 soldados com canhões e metralhadoras atacam o reduto, massacrando cerca de 600 moradores, boa parte ocupada no plantio de feijão. Os demais já estavam em Caraguatá.

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Reduto de Caraguatá


 * Localizado em Perdizes Grande (município de Lebon Régis), numa área de posse de Manoel Alves de Assunção Rocha.
* Maria Rosa “ouve” José Maria e repassa as ordens aos demais. Ela é filha de Elias de Souza, lavrador na Serra da Esperança.
* Elias Antônio de Moraes é outro líder expressivo, juiz de paz e major da Guarda Nacional. Buscou Venuto Baiano para ser “comandante de briga”, formando um novo estado-maior no lugar dos Pares de França, um corpo de espiões e grupos responsáveis pelo recrutamento de novos combatentes.
* No dia 9 de março de 1914 os militares estacionados na estação de Caçador marcham sobre Caraguatá, enfrentando franco-atiradores nas matas. A retaguarda foi atacada. Desorientados pela ação de guerrilha dos caboclos, 26 militares são mortos e 21 feridos. Os rebeldes obtêm nova vitória. Uma epidemia de tifo força a mudança de reduto. Quando os militares chegam ao local se limitam a queimar as casinhas restantes.

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Reduto de Bom Sossego

 * Espécie de reduto-mor durante alguns meses. Pipocam redutos por vários lugares, como São Sebastião, Pinheiros e na região de Lages. Os militares são fustigados por ações guerrilheiras em seus trajetos. A “virgem” Maria Rosa “perdia o aço”, abrindo espaço para os “comandantes de briga”. O movimento cresce. Parte dos mil trabalhadores demitidos da estrada de ferro que liga a São Francisco do Sul vai engrossar as fileiras rebeldes.
* O capitão Matos Costa, primeiro militar a compreender a revolta dos caboclos, visitou o reduto de Bom Sossego, disfarçado de vendedor ambulante, com a cabeça raspada e fita branca no chapéu. Ele conferenciou com Maria Rosa e seu pai Elias. Franscisco Alonso e outros cabecilhas desconfiam da conferência. Maria Rosa é destituída do poder e o reduto transferido. Novos líderes assumem a direção do movimento. 
(Saiba sobre os demais redutos na próxima e última reportagem da série)

Fonte| VALENTINI, Delmir José. Da Cidade Santa à Corte Celeste: Memórias de Sertanejos e a Guerra do Contestado. 3ª ed. Caçador: Universidade do Contestado-UnC, 2003.   

 

 

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