Saudades

Cláudio Silva: o Miro - Por Cacau Menezes

 Muitas coisas em comum além do mesmo nome e da mesma profissão me ligavam ao colunista Miro. Cláudio Silva, assim como eu, era mais conhecido pelo apelido do que pelo nome. Bonito, magrão, alto, cabeludo, moreno, vaidoso, namorador, praieiro, boêmio, manezinho juramentado, nascido na aristocrática Av. Trompowsky,  Miro foi um dos personagens mais fortes da Ilha nos últimos 30 anos, com certeza.

Apaixonado pela época boa do Rio de Janeiro, pelo filet mignon do Degraus, por festas, cubas-libres, carnaval, jogatinas, e tudo o que pintava, Miro deixa ainda muitas saudades. E por isso estamos aqui para lembrá-lo, mesmo que seja rápido. Tínhamos o mesmo nome e quase os mesmos gostos. Disputamos a primeira namorada, Cacá Orle, rodada-a-rodada, dia-a-dia, hora-a-hora.

Miro foi meu amigo de encontros diários no Largo Benjamin Constant, no centro de Floripa, onde se reunia a Turma do Kioski, maior ícone da cultura pop de Florianópolis em todos os tempos. Jovens de 15 anos pra cima com motos, carros e sonhos mudaram usos e costumes na então província sob a liderança de dois “anormais”, Beto Stodieck e Rômulo Coutinho de Azevedo. Dia sim, dia não estávamos no Kioski,  com calças saint tropez e boca de sino, longos cabelos, bolsas, chinelos, tiaras, lenços, óculos...  Tínhamos tudo da Califórnia, nosso ponto de referência, éramos felizes e sabíamos disso. Muitos do Kioski tombaram pelo caminho. Acidentes de carro ou moto, aids, overdoses e cirroses. Poucos piraram. Lobo, Polli, Schmitão, Décio Madeira Neves. Poucos não chegaram aos 60. Rômulo, Beto, Peixoto, Toló, Miro. Exagerados éramos nós. Cazuza não era nada.

 A cidade, que a tínhamos na mão, do delegado ao prefeito, do juiz ao médico, nos permitia pisar fundo. Vivíamos como hippies chiques. Dormíamos em casa com as famílias, ganhávamos os carros e as motos dos país, mas vivíamos “acampados”. Nossa filosofia também era paz e amor e nosso som vinha do Grand Funk, Jethro Tull, Crosby, Stills, Nash & Young. Ah, sim, Roberto Carlos em ritmos de aventura também. Nossa geração era romântica, carinhosa, “afeminada”. Já éramos metrossexuais.

Lembro de todos os momentos do Miro. Dirigindo o corcel amarelo do irmão galego Silva, namorando a Beth e depois a Cacá;  indo comigo para o Rio de fusquinha, onde teve que vender, na volta, sua linda jaqueta jeans para pagar a gasolina, que era dividida entre os quatro passageiros. Lembro quando foi preso no meu Rock, Surf e Brotos da Joaquina na histórica blitz do super Eloy; ou dançando valsa nos bailes de debutantes e aniversários de 15 anos onde era sempre disputado. Ser convidado para dançar a valsa com a aniversariante era sinal de status e poder. Miro sempre era. Sabia dançar, era bonito e gostava de luzes, de smoking, de brilho.

 Quando saímos da adolescência, mesmo assim continuamos bem relacionados, até que, já crescidos, passamos a conhecer o outro lado da vida: a disputa. Quando deixei o jornal O Estado, Miro foi chamado para o meu lugar. A amizade deixou, então, de ser a mesma. Miro não poupou os problemas que tive com Elvira numa fase ainda insegura do nosso casamento e das nossas vidas. Foi impiedoso. Até que bebeu do mesmo veneno. Já muito bem comigo mesmo, e com uma nova vida familiar, deixei-o de lado. Não me arrependo. Voltamos a ser amigos e isso nos deixou bastante felizes. A nós e aos amigos em comum. Freqüentávamos uma vez por semana o clube dos gastrônomos na sauna Brasão e ali quase fomos pro brejo, tanto era o consumo de cocaína entre os membros do grupo. Casei, tive filhos e comecei a diminuir meu ritmo. Miro, pelo contrário, continuava pisando fundo. Em todas as direções.

Solteiro, começou a usufruir de certa forma do prestígio de ser o segundo colunista mais lido da cidade e dos verdadeiros amigos que nunca o abandonaram. Conheceu Marília, seu maior amor, e com ela teve Thiago, o único filho. Foi a mulher que mais amou. E como o casamento não deu certo, porque Miro não conseguiu deixar a vida de playboy de lado, adiantou sua morte. Noite, dia, prostitutas, dívidas, loucuras...vida absolutamente desregrada. Veio a doença, o sofrimento, a morte. Há dois anos a cidade sente a sua falta. Muito mais o jornal O Estado, que até hoje não encontrou seu substituto. Miro era popular, gostava do Mercado Público, de dominó, de cerveja, de carnaval, de festa, dos amigos pobres, da vida louca. Mas nunca fez mal a ninguém, a não ser a ele mesmo.

Do amigo Cacau Menezes.

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