Fala Mulher

Maria, a dona do equilíbrio e da coragem

 

 Quem passa pelo canal da Barra da Lagoa não imagina que por ele atravessa em um pranchão de surfe dona Maria Florindo Vieira, uma vovó de 78 anos. Ela faz a travessia sem nunca ter aprendido a nadar. Maria é dessas mulheres que ama a vida e encara todos os desafios com muita coragem e uma certeza inabalável de que tudo o que deseja pode ser alcançado. Há dois anos ela aprendeu a ler e escrever. Viúva há 12 anos, é mãe de 14 filhos, tem 28 netos e três bisnetos. “Sempre é tempo de começar e de aprender”, garante essa guerreira que desconhece o desânimo.
Maria Florindo é uma mulher multifacetada. Literalmente, pinta e borda. “Eu pinto meus quadros, meus panos de prato, bordo, frequento grupo de idosos, sou evangelista, vendo rifa, participo de grupo mulheres, vendo as coisas que faço, alugo minha casa para turista, faço todo o serviço doméstico, participo das festas da igreja, jogo bingo. como de tudo, vou buscar sozinha meu dinheiro. Sou feliz. Gosto muito de mim”, avalia-se.
Simpática e muito receptiva com todos, ela diz que gosta muito de falar com as pessoas. Adora contar suas histórias. “Eu acho que minha vida é uma lição para outras pessoas. Pra essa juventude toda que conversa comigo. Digo pra eles terem coragem para fazer as coisas. Eu não tenho medo de nada. Acho que sou capaz de fazer e faço. Tenho saúde. Muito raramente tomo um remédio para a pressão. Só quando sinto um pouquinho de tontura. Mas em seguida fico boa e já saio fazendo minhas atividades”, explica a inquieta senhora.
 Só uma coisa sempre incomodou a vovó do pranchão. Ela nunca havia realizado o sonho de aprender a ler e escrever. “Quando eu era criança queria aprender a ler, mas o meu pai sempre dizia: ‘o homem tem que estudar para servir a praça (Exército), mas as mulheres devem ficar na roça, porque querem aprender a escrever para mandar recado pro namorado’. Toda vez que eu ia pegar um ônibus, tinha que perguntar para o motorista onde ele passava. Perguntava para as pessoas onde ficava alguma rua e, às vezes, me enganavam. Ficava perdida. Era tudo muito difícil sem saber ler ou escrever”, descreve. Há uns dois anos surgiu a oportunidade de aprender a ler e como dona Maria não é mulher de deixar as oportunidades passarem foi pra escola. Todos os dias, com sua bateirinha, ela atravessava o canal da Barra da Lagoa e ia para a escola. “Agora eu leio tudo. Anoto as minhas vendas. Tenho um caderninho onde treino a minha letra”, esclarece orgulhosa de si. Como a cultura da época era de casar as filhas cedo, as mulheres iriam apenas se dedicar aos trabalhos domésticos e por essa razão a maioria das famílias investia em ensinar atividades do lar. Nesta forma de pensar, como explicou dona Maria, saber ler e escrever era desnecessário. No entanto, nunca se conformou com essa imposição.
 Maria Florindo Vieira é muito querida por todas as pessoas da região. Isso é decorrência da sua sabedoria para se relacionar com elas. “Todo mundo aqui na Barra me chama de vó. Todos gostam de mim. Eu não falo da vida de ninguém. Não julgo as pessoas. Se me pedem conselho eu dou, senão me calo. Meus filhos, netos, bisnetos e noras e genros também gostam de mim. Não dou trabalho pra ninguém. Cuido de mim e das minhas coisas. Meus filhos pedem conselho meu pra ir pro mar. Sei quando vai dar trovoada forte, sei quando o mar vai ficar perigoso lá fora, conheço os ventos, a lua, o tempo. Se vai dar enchente, eu sei. Então se digo pra eles que está perigoso lá pra fora, eles ficam aqui pertinho. Eu nunca erro essas coisas. Mas eu também sei outras coisas como a época certa de cada plantação. Sei até como chocar um ovo pra dar pinto macho ou fêmea. Eu sou muito esperta”, define-se a doce senhora.



Crença em sortilégios, antiga característica

 São muitas as histórias de bruxas, feiticeiras e lobisomens que povoam a imaginação dos habitantes da cidade. Algumas pessoas garantem que não é fruto da imaginação. E é em razão delas que Florianópolis ganhou o apelido de Ilha da Magia. Vó Maria mantém a tradição de contar histórias sobre elas para netos e bisnetos e também para curiosos.
Lobisomem | “Meu pai contava que na Lagoa havia um casal cujos nomes eram Maria e João. Eles saíram à noite para arrumar as coisas para a pesca da tainha. Na região onde hoje fica o Restaurante Dunas ele subiu as dunas e sumiu. A mulher dele, a Maria, ficou esperando, achando que ele tivesse ido fazer xixi. Quando de repente desceu do lugar onde ele havia subido um bicho peludo que a atacou. O bicho arranhou as pernas dela e rasgou a baeta toda (saia de pulúcia) e voltou correndo para as dunas. Ela ficou gritando pelo marido. E ele apareceu. Perguntou aonde ele andava e contou a ele o acontecido. Fora atacada por um lobisomem que parecia um porco. Ainda a caminho da Joaquina ela disse: ‘arrepara homem, o que o bicho fez comigo!’ Ele riu muito e quando ele riu ela viu as farpas da saia dela ainda presas aos dentes dele. Olhou assustada e disse: ‘já sei tu é o lobisomem. Ta aí as farpas da minha baeta nos teus dentes’. Desse dia em diante ele nunca mais virou lobisomem. Quando o segredo dele é revelado quebra o encanto”, relata Dona Maria.
 Feiticeira | “Aqui na Barra, meu pai tinha um amigo chamado Reginaldo, o Nadinho. Todos os dias o Nadinho puxava a lancha dele bem pra cima da areia. Num local aonde a maré não chegava. Mas quando era de manhã, a lancha nunca estava no lugar em que ele havia deixado. Um dia ele chegou em casa e comentou com a mulher dele – conhecida como dona Pequena – que ia pegar quem tava saindo com a lancha dele. Faltavam alguns minutos para a meia-noite ele foi pra lancha e se escondeu na popa. Ficou lá bem agachadinho. Nisso vieram três feiticeiras todas vinham no mesmo passo. Elas andam assim e falam uma língua que a gente quase não entende e diziam: ‘catinga de sangue reali (real)’. Isso significa cheiro de gente. As três puseram a lancha no mar. Foram para a Índia. As três saltaram juntinhas e seguiram no mesmo passo até sumirem. Foram pegar areia e cravo da índia. Ele saiu sem que elas vissem e também pegou pra mostrar que teve lá e voltou para o barco. Elas voltaram para o barco depois. Ele chegou em casa quase de manhãzinha e disse pra Pequena: ‘hoje eu peguei as feiticeiras’. Mas levou o segredo com ele. A pessoa que vê uma feiticeira e revela vai parar no fundo de uma cama como se elas tivessem dado uma surra nela. Elas fazem uma feitiçaria”, conta Maria.
Bruxa | “A bruxa é uma velha bem feia e mal vestida. Ela fica tão pequenininha que passa pelo buraco da fechadura das portas. No meio da madrugada ela entra pelo buraco da fechadura e chupa o céu da boca das crianças. A criança fica magra, não quer pegar o peito da mãe. Ela seca até morrer. Às vezes, a benzedeira dá um banho de palma de São Jorge e a criança fica boa”, completa.
Essas são algumas das muitas histórias que a vovó do pranchão conta aos netos.  Eles são apaixonados pela avó. Têm orgulho dela. E, sempre que terminam as histórias, ela ouve em coro: “conta mais, vó”.

 

Fotos| Marco Cezar
Texto| Rita de Cassia Costa


 

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