Fala Mulher

Takahashi traz novo conceito à cerâmica de Caldas



 O surgimento da cerâmica no mundo é um fenômeno milenar. No entanto, o aparecimento da técnica de cerâmica Raku tem origem no Japão no século XVII, segundo os registros mais remotos. Por cerca de 400 anos, o Raku esteve essencialmente ligado ao fabrico das taças de chá, um ritual da cultura japonesa. Esta técnica de craquelamento e carbonização, extremamente delicada e artística, já pode ser encontrada no município de Santo Amaro da Imperatriz, Caldas, no ateliê da ceramista Lica Takahashi.
 A diferença entre um trabalho autoral e um industrial é que no primeiro não existem duas peças iguais no processo de “vidragem” e é, por essa razão, que o Raku é uma técnica manual tão especial. O trabalho consiste em cozer peças em altíssimas temperaturas (em torno de 1000 ºC ou até mais) por até 12 horas e no final do processo deixar arrefecer o mais rápido possível, retirando as peças imediatamente para fora do forno. A peça, ainda incandescente, tem de ser colocada num local preparado para o efeito, onde sofrerá variados efeitos químicos e físicos determinados tanto pela temperatura, quanto pelos materiais utilizados. Todos estes efeitos são relativamente difíceis de controlar de modo que há sempre um lado imprevisível nos resultados obtidos. E foi justamente esta imprevisibilidade que encantou Lica. “Sempre fui muito perfeccionista e controladora. E nesta técnica, uma vez que a peça vai pro forno, perco relativamente o controle. Nenhuma sai exatamente igual”, explica a ceramista.
 Outra preocupação de Lica é trabalhar com materiais naturais. “Alguns pigmentos e esmaltes que resultam das cores vermelha, laranja e amarelo são tóxicos, porque contêm chumbo. Prefiro trabalhar com os naturais, porque alguns utensílios as pessoas usam para colocar alimentos”, explica. A cerâmica entrou na vida de Lica só depois que ela deixou a gerência de um resort, onde trabalhou por sete anos. Além disso, o nascimento do filho a fez repensar seus conceitos sobre qualidade de vida. “A rotina do hotel era muito estressante e eu queria ter mais tempo com meu filho. A partir daí fui em busca de algum trabalho que me desse prazer e também desse algum retorno financeiro. Hoje, passo 12 horas aqui no ateliê e nem sinto o tempo passar. Minha cabeça está sempre criando, mesmo quando estou em casa”.
 O custo de fabricação da cerâmica Raku é relativamente alto. “O preço do esmalte e da argila ainda é alto, mas o resultado é compensador. Apesar de pagar o aluguel do ateliê, já começo a ter lucro com as vendas. Também tenho peças para venda de algumas amigas que fazem cerâmica como a Vânia Bueno que foi quem me ensinou a técnica, Zélia Piazza e Selma Silveira”, revela. No charmoso ateliê, os utilitários, pingentes e peças decorativas encantam turistas e todos que conhecem o lugar.

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A chegada da família ao Brasil


 A família Takahashi chegou ao Brasil em 1950. “Meus pais vieram do Japão para Caxias do Sul para trabalhar na agricultura. Nasci em 1968, mas na juventude comecei a ter dificuldades de entender meus pais. Os costumes brasileiros eram muito diferentes do que o meu pai queria pra gente. Éramos obrigados a falar japonês e a nos comportar numa disciplina extremamente rígida. A região de Caxias é colonizada, principalmente, por italianos, ninguém falava japonês”, confidencia.
 Dividida entre três culturas – Japão, Brasil e Itália – Lica passou por um longo período com inquietações que a levaram ao Japão aos 22 anos de idade. “Eu queria entender, porque eles eram daquele jeito. Morei lá por três anos e meio. Foi uma experiência nova. Consegui entender meus pais. Na época eu já tinha algum interesse por arte e conheci algumas coisas lá, mas a cerâmica não havia entrado na minha vida. Eu nem imaginava que faria qualquer coisa parecida”. Ela imaginava que não tinha nada em comum com o pai. No entanto, a conexão entre eles já estava estabelecida há muito tempo, mesmo antes da jovem perceber. “Lembro que meu pai tinha talento para desenho. A gente precisava de algum desenho para a escola e ele fazia com perfeição. Antes de ele falecer, voltou para o Japão e se concentrou na pintura. Estudava muito o assunto. Era um pesquisador e foi desenvolvendo sua técnica. Foi tão bem nos trabalhos que pintou, que tinha quadros dele no Museu de Tóquio”, relembra. Estava, então, finalmente, estabelecida a conexão entre as duas gerações.  Em 1988, ela se forma em Hotelaria pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).


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O primeiro contato com a argila
 

 O primeiro contato com a argila foi na Escola de Oleiros, em São José (SC). Aprendeu torno elétrico e as primeiras noções de queima em forno à lenha, em 2002 depois de ter deixado o hotel em Caldas da Imperatriz onde trabalhou três anos como gerente e quatro como subgerente. Mas o impulso para o nascimento da ceramista foi um concurso de castiçais promovido pela Universidade Estácio de Sá, em São José, em 2003, que a premiou com o primeiro lugar. Em 2005, ela frequentou o Curso avançado de cerâmica no Moquém Cerâmica Contemporânea, em Ratones, E neste mesmo ano, por meio de um Wokshop de Raku, ministrado por Vânia Bueno ela se apaixonou pela técnica criada por seus ancestrais. Em 2007, abandonou completamente a hotelaria e passou a viver do novo ofício. “Senti que era isso que eu tinha vindo para fazer no mundo”, conta.
 Ela continua seus estudos sobre a técnica e já está se arriscando em altíssimas temperaturas. Sua técnica vem crescendo junto ao seu desenvolvimento pessoal. A maternidade, suas origens, tudo vem se fechando num ciclo novo que a descendente de japoneses leva para o trabalho. Em 2008, criou o espaço Lica Cerâmica, onde seu trabalho é exposto e vendido ao público.

* Maiores informações: Rodovia Princesa Leopoldina, 1900, Caldas da Imperatriz, Santo Amaro, SC. Fone: (48) 9911 6833
www.ceramicalica.com.br
 

 

 

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