Fala Fotógrafo

Paulo Greuel |


TROPICAL DANDY*

De volta ao Brasil, Paulo Greuel faz da praia do Campeche seu novo estúdio  fotográfico


TROPICAL DANDY
De volta ao Brasil, Paulo Greuel  faz da praia do Campeche seu novo estúdio fotográfico.

Texto e entrevista| Caio Cezar

 Chego ao apartamento em frente ao mar do Campeche no horário combinado, dez e meia da manhã. Pelo interfone, Paulo pergunta se é o Sedex. Acho graça e digo que não, “é o Caio”. Ele ri e abre a porta.
Depois explica que está esperando uma foto sua que devia chegar de São Paulo naquele dia. Liga pro cara do laboratório, que explica que o serviço só seria terminado no dia seguinte, porque a cor não tinha ficado a contento. Paulo diz que tudo bem, despede-se do cara e dá um suspiro: “Só vão mandar amanhã. Tô curioso pra ver como ficou”.
A foto faz parte da exposição “Paraíso Tropical”, que fica de 25 de novembro deste ano a dez de janeiro de 2010 no Museu de Arte de Joinville, e encerra a trilogia iniciada em XXXX com “Sonho Tropical”, todas com cenas praianas. Com suas fotografias, Paulo não quer reproduzir a realidade, mas criar um mundo paralelo e imaginário, de cores ultra saturadas e desfoques propositais. A fase “tropical” é também uma forma de matar as saudades do Brasil, mais especificamente do Campeche, depois de 33 anos na Alemanha.
Tomando Prosecco e ouvindo jazz, durante duas horas e meia Paulo falou sobre o início da paixão pela fotografia, a vida na Alemanha, seus amores, praia do Campeche, fotografia e outros assuntos.Alemanha, arte e fotografia, entre outros assuntos.

REVISTA MURAL| Como começou tua ligação com a fotografia?
PAULO GREUEL|
  Em 1966 fui pela primeira vez para a Alemanha com minha mãe e meu pai, que era dentista. Ele foi fazer um curso de aperfeiçoamento em Düsseldorf e levou todos os filhos. Acabamos mudando pra lá. Tinha um laboratório no porão da nossa casa e eu ficava brincando. Voltei pra Blumenau só em 1973, porque eu queria sair de casa e fazer minhas coisas.

RM| Aí você já sabia que queria ser fotógrafo?
PG|
Ah, já. Quando voltei trouxe uma câmera e conheci um pessoal, artistas, o pintor Rubens Oestroem, o Daniel Curtipassi e outros. Um dia encontrei o Rubens na Rua XV e ele estava indo procurar trabalho como ilustrador num pequeno estúdio de Blumenau. Aí ele me convidou pra ir junto, que de repente aparecia alguma coisa pra mim também.

 RM| Era tipo uma agência de publicidade?
PG|
Chamava Centro de Propaganda. Era um estúdio gráfico, pequeno, com 5 pessoas. O Daniel Curtipassi era o diretor do estúdio. Eles eram ligados à Gráfica 43 e desenvolviam toda essa área visual pra eles.
(Paulo pede licença e vai até a cozinha. Volta com um Prosecco geladíssimo e duas taças. É um homem sofisticado. Só por educação, bebo com ele, e retomamos o assunto.)
 
RM| Você tava falando do estúdio em que foi pedir emprego com o Oestroem.
PG|
Pois é. Daí disseram que não estavam precisando nem de ilustrador nem de fotógrafo, mas alguém para revelar os filmes coloridos e tal. Eu disse: “Revelar filme colorido eu não sei, mas se alguém me ensinar eu faço. Posso começar amanhã”. Daí me contrataram. Na Alemanha nessa época estava muito em voga esse negócio de fotografia solarizada, essas coisas. Daí comecei a fazer isso no estúdio do Daniel. Ficava o tempo todo no laboratório, com calor de 40 graus.

RM| Blumenau inteira curtindo em Itapema e você trancado no laboratório...
PG|
É, todo mundo na praia e eu trabalhando. Mas é isso que faz a diferença, né?.. (risos). Mas daí eu e o Daniel tivemos um desentendimento e eu saí, fui mandado embora. Aí eu fui comprar cães na Europa para um cara de Campinas...

RM| Como assim, comprar cães?
PG|
Na época eu tinha uma pousada de cães em Blumenau...

RM| Pousada de cães?
PG|
É. Pegava os cachorros e treinava para exposições.

 RM| E como você aprendeu isso?
PG|
Ah, porque lá em casa a gente sempre teve cachorro. Antes de ir pra Alemanha meu pai já tinha cachorro.  Daí fui comprar esses cães na Europa e quando voltei pra Blumenau o fotógrafo desse estúdio já não trabalhava mais lá, e o estúdio tinha um novo diretor, que era um cara que eu já conhecia de antes.  Ele disse: “você pode trabalhar aqui”. Respondi que tudo bem, desde que fosse pra trabalhar como fotógrafo. Daí comecei lá.

RM| Em que ano?
PG| Em 75. Comecei em maio e fiquei até o final do ano. Daí fui pra Europa de novo.

RM| Trabalhava com publicidade lá?
PG|
Comecei a trabalhar como assistente de um fotógrafo inglês. Era um estúdio com quatro fotógrafos, e quem me admitiu foi o dono, Fred Stundl, que era fotógrafo publicitário. Ele falou uma coisa importante pra mim: “se quiseres trabalhar aqui, vai ter que trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, não podes fotografar e tens que resolver tudo”. Aceitei as condições. Naturalmente ele estava exagerando, mas queria dizer que agenda de fotógrafo é irregular, às vezes vara a noite e às vezes fica uma semana coçando. Quando não tinha foto pra fazer eu ficava inventando as minhas coisas, olhando livros de fotografia e fazendo alguns testes.  Até tinham uns testes engraçados, meninas que queriam tirar fotos nuas mas ficavam naquela de “Ah, não sei” ...

RM| Ficavam tímidas...
PG|
É. Daí eu dizia: “não tem problema, eu só olho pela câmera”! (risos). Teve uma que foi lá no camarim, tirou a roupa e gritou: “tá olhando pela câmera  E eu, lá do estúdio: “tôôôô!!!” (risos)
 
RM| É como se olhar pela câmera eliminasse o desejo. Você acha que isso acontece na prática?
PG|
Ah, tem que acontecer... o desejo tem que sair pela câmera.  Se for pessoal aí dá confusão. O Helmut Newton (fotógrafo alemão) falava isso. Guy Bourdin, todos eles. Porque a curtição é visual, não é sexual.

RM| Mesmo que seja uma mulher que você se interessaria se estivesse num bar, por exemplo, você acha que é diferente quando ela entra no estúdio pra ser fotografada?
PG|
No estúdio ela passa a ser a inspiração para uma imagem fotográfica. Pode ser um homem também, não importa o que tem na frente da lente. A gente tem que ter uma relação com as coisas que fotografa também, não só com os seres, senão você não consegue alcançar uma intensidade no teu trabalho. Então, não funciona fazer uma foto legal com uma pessoa que a gente tenha uma relação pessoal. Mas pode até ser. Já fiz retratos de ex-mulheres e tal, mas são duas coisas diferentes. Porque na verdade todo bom fotógrafo é um voyeur.  Ele tem que ter prazer em ver coisas, em ficar apreciando, contemplando as coisas. Porque fotógrafo trabalha 24 horas. Eu tô praticamente o tempo todo gerando dentro do meu cérebro imagens que depois, conscientemente ou subconscientemente, vão aparecer quando eu fizer uma foto.  Eu também dou liberdade pro subsconsciente aparecer, porque não quero aquela  aquela coisa assim, quadrada.
 
 
 RM| Voltando ao assunto anterior: depois de trabalhar como assistente, quando você começou a fotografar profissionalmente?
PG|
Virei assistente desse mesmo fotógrafo inglês em outro estúdio, e depois de uns meses já estava fotografando. Fazia fotos pra publicidade, o que me rendeu uma rotina de trabalho muito boa. Mas sempre convivi com artistas, estudantes de arte, sempre tive uma queda pra esse lado. E esse inglês não queria buscar um caminho mais autoral dentro da fotografia dele, e eu sim. Daí resolvi sair. Daí que dia 20 de novembro de 1980 eu abri meu próprio estúdio, e já tinha um cliente fixo que mantinha toda a estrutura do estúdio, que era num apartamento. Düsseldorf tem aqueles apartamentos antigos, com pé direito alto. Tinha um charme especial. Ali que eu comecei a desenvolver minha própria linguagem fotográfica, que contaminou toda a minha  fotografia, seja para publicidade ou arte. Um olhar mesmo. Desde o início eu quis isso. Quem me contrata já quer mesmo a minha linguagem, já busca isso.

RM| Falando da série dos Bildnis; a gente sabe que um dos grandes atrativos do retrato é o olhar do modelo, a tensão que se estabelece ali. Nos teus Bildnis todos os modelos estão de olhos fechados...
PG|
Porque os Bildnis também são o anti-retrato. Eles não querem mostrar a pessoa como ela é.

RM| Você me disse outro dia que apesar de usar a fotografia como suporte não liga muito pra câmeras. Como assim?
PG|
Eu sempre comprei câmeras para aquilo que eu precisava, mais nada. Também nunca fui de ir em clubinho de fotógrafos, ficar falando sobre câmera, que essa tem tantos megapixels, que aquela é legal. Eu tenho um fascínio pelo aparelho, porque com ele a gente pode criar imagens, mas nunca fico naquela piração que a câmera é isso, é aquilo...já trabalhei com 6x6, fole, Polaroid, 35mm. A câmera digital só facilita as coisas, mas não resolve um problema imagético. Isso está na cabeça do fotógrafo.
 
RM| Você nunca leu um manual de câmera na vida, Paulo?
PG|
Já, já. Leio quando preciso saber como funciona, né? Mas o que eu quero explicar é o seguinte:  quando comecei a fazer minhas primeiras fotos, em 1980 na Alemanha,  o fotógrafo que quisesse trabalhar com still-life em publicidade tinha que ter no mínimo uma câmera de fole com back de 8x10 polegadas, quase do tamanho de uma folha A4. Mas eu não fiz assim. Muito pelo contrário, comprei uma Nikon F3 (câmera de 35mm, que produz um negativo de 24x36mm, bem menor que a chapa de 8x10 polegadas) e uma lente de 55mm micro e comecei a fazer stills com esse equipamento. Essa foi uma das primeira fotos que fiz com ela (Paulo pega um de seus vários catálogos e mostra a imagem,”3 Esponjas Coloridas”, uma composição abstrata em azul, vermelho e amarelo) .
 
 RM| Você ficou quanto tempo na Alemanha?
PG|
No total, vivi 33 anos na Alemanha. E agora estou de volta, há sete anos. Passei mais tempo lá que aqui, mas nunca perdi o contato com o Brasil.

RM| Saiu de Düsseldorf e veio pra praia do Campeche. Que diferença isso trouxe para a tua fotografia?
PG|
Eu tenho que me deixar inspirar pelas coisas que acontecem em torno de mim mesmo. Essa inspiração já foi Düsseldorf e agora é o Campeche. Mas não sinto assim uma saudade de lá. Até gostaria de voltar pra visitar, mas agora não acho o momento certo pra isso. Minha decisão de vir morar aqui foi exatamente pra fazer um processo brasileiro dentro da minha fotografia.

RM| E agora teu estúdio é a praia.
PG|
É, tô vivendo meu sonho tropical (risos). Quando cheguei aqui um amigo de São Paulo, meu sócio eterno, o Kikyto, veio me visitar, viu a praia e fez essa observação: “Paulo, então isso tudo agora é o seu novo estúdio”. Ele como fotógrafo, inteligente e rápido, logo entendeu a história.

RM| Você tem quantos anos, Paulo?
PG|
Vou fazer 59.

RM| Tá firme, hein?
PG|
A gente faz o que pode (risos).

RM| Conservado no Prosecco.
PG|
É (risos).

RM| Paulo, você sempre fala no “teu amor”, que pelo que eu sei é italiana e atende pelo nome de Ticiana . Ela parece ter uma importância fundamental na tua formação como fotógrafo, né?
PG|
Foi ela quem me despertou pra essa coisa da arte, da fotografia. Conheci Ticiana em 1970, de férias na Itália. Desci pela costa Adriática, atravessei, fui pra Roma e subi pela Riviera Italiana. Fui com minha irmã e uma amiga. Viajamos por mais de dez semanas...

 RM| Férias longas.
PG|
É, (risos). Então a gente chegou num camping, viajando de fusca e montamos a nossa tenda. Logo começou a reunir um pessoal em volta, principalmente por causa da minha irmã, que era muito bonita. Daí teve uma festa lá tradicional da Itália. Era um cortejo, enfeitaram nosso carro com flores e tal. Daí ela apareceu caminhando ao lado do carro, com aqueles óculos John Lennon, toda estilosa, fumando cigarro Muratti Ambassador, super envolvente. Tinha 17 anos. Era época dos hippies, né? A gente se olhou, eu perguntei o nome dela e disse: “ó, a minha tenda é aquela ali. Não queres passar lá depois”? (risos)

RM| E ela passou?
PG|
Passou (risos).

RM| E vocês tiveram uma paixão fulminante.
PG|
É. Hoje ela vive em Locarno, na Suíça italiana e sempre tá aqui em ‘Campeche Beach’ (risos).

RM| Vocês tiveram essa história em 70 e depois ficaram um longo período sem se ver, certo?
PG|
É, eu casei, ela casou e a gente ficou sem se ver por 22 anos. E graças a Lygia Roussenq, eu a reencontrei através da internet, em 2003. Hoje a gente vive uma situação muito interessante. Apesar dela morar lá e eu aqui, vivemos mais intensamente que muitos casais que estão debaixo do mesmo teto.

RM| E o que te fez ter vontade de voltar pro Brasil, em 2002?
PG|
Sempre tive vontade de voltar, mas até 2000, quando vim pra Exposição dos 500 Anos, em São Paulo, convidado pelo Emanoel Araújo, que era diretor da Pinacoteca do Estado, era difícil aqui no Brasil realizar fotograficamente as coisas que eu queria realizar. Quando você vive num país como a Alemanha, que busca a excelência em tudo chega num nível de exigência que o Brasil não alcançava na época.  Isso em 2000, porque de lá pra cá melhorou mil por cento. Então: em 98 eu fiz uma exposição em Berlim. O Gilberto Chateubriand (colecionador, diplomata e empresário brasileiro. Filho de Assis Chateaubriand, possui a maior coleção de arte brasileira, em torno de 7.000 obras) estava expondo uma parte do acervo dele na Haus der Kulturen der Welt,  em Berlim,  visitou minha exposição e comprou dois Bildnis. Hoje ele tem 22 fotografias minhas na sua coleção. Depois disso muitas coisas começaram a acontecer. Como eu não tinha currículo brasileiro na época, com essa compra o pessoal foi conhecendo meu trabalho aqui. Daí vim pra exposição e conheci o Diógenes Moura, e depois fizemos outra exposição, individual, com onze Bildnis na Pinacoteca de São Paulo. Depois fiz em Florianópolis, no MASC, a série “Cabeças de SC”, 108 retratos, dava quase 100 metros de fotografias na parede.  Aí as coisas começaram a me puxar pra cá, e mudei minha perspectiva, de uma vida urbana em Düsseldorf para uma vida praiana no Campeche.
 
 RM| E você já sabia que queria morar especificamente no Campeche?
PG|
Ah, já sabia desde 96, seis anos antes de vir definitivamente. Vim visitar meu irmão e fui fazer um passeio no Campeche. Era inverno, tava um baita vento sul, um frio danado e saí caminhando pela praia. Vi aquela beleza e pensei:  “Se um dia voltar a morar no Brasil é aqui que eu quero ficar”. Logo depois, achei uma nota de dez reais na areia (risos). “Vai ver que é aqui que vou ganhar dinheiro”, pensei (risos).

RM| É mais fácil para um fotógrafo de arte ser aceito e respeitado na Alemanha que no Brasil?
PG|
É que no Brasil a tradição fotográfica vem dos clubes de fotografia e do jornalismo, essa é a origem. Na Alemanha, além destas influências tem a influência da Bauhaus (escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda que funcionou entre 1919 e 1933 na Alemanha, um dos símbolos do modernismo europeu).  Já na época eles usavam fotografia apenas como suporte para criar imagens, e não simplesmente reproduzir a realidade. Eu sempre adorei trabalhar com manipulação de imagem. A câmera permite outros tipos de interpretações além da documentação.

RM| Com a exposição “Paraíso Tropical”, que inaugura agora em novembro em Joinville, você encerra sua “trilogia dos trópicos”. O que podemos esperar de ti na próxima fase?
PG|
Eu tenho algumas coisas prontas, uma nova série de retratos que fiz de personalidades, Antônio Fagundes, Arnaldo Antunes, Elke Maravilha, Ed Motta, Carlos Miéle, Ana Hickmann...e também fotografei uma série de objetos achados aí (aponta com o queixo para o mar do Campeche, a 300 metros da janela do apartamento). Mas ainda não posso falar sobre isso (risos). Mas o pessoal que já viu adorou (risos).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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