Fala Fotógrafo

Cabral redescobre Cabral


 


Na ilha há 14 anos, o fotógrafo de "Anjos Proibidos" agora faz cinema e sonha: "Quero ganhar um Oscar".

          
Texto e entrevista | Caio Cezar
 
 


 Aos 51 anos, Fábio Cabral tem empolgação e fôlego típicos dos adolescentes. Filho de portugueses, o médico que virou fotógrafo gesticula muito e se exalta quando defende seu trabalho. Lamenta o caminho que a fotografia de publicidade tomou no mercado na era digital: "hoje em dia o melhor fotógrafo é o mais barato", sentencia.
Há 14 anos em Florianópolis, Cabral sente-se cada vez mais atraído pelo cinema, e está com a mesa de sua casa no Canto da Lagoa abarrotada de projetos para a telona. "Estou num processo de transformação na minha fotografia, pra encontrar minha essência profissional, que é a direção de atores e modelos", diz.
 Entre xícaras do bom expresso do Café Compasso, durante duas horas a Revista Mural conversou com o fotógrafo, que falou sobre sua trajetória na profissão, a polêmica que cercou seu livro "Anjos Proibidos"e outros assuntos.



REVISTA MURAL| Já marcamos e desmarcamos esta entrevista três vezes. Tá difícil te encontrar na ilha, hein, Fábio?
FÁBIO CABRAL|
Tá, né velho? É que eu tô viajando bastante, fundamentando meu trabalho fora daqui.

RM| Você é formado e pós-graduado em Medicina, e só começou na fotografia aos 24 anos. Como você se interessou pela profissão?
FC|
Eu fiz Medicina na OSEC. Prestei vestibular porque a faculdade era perto da represa de Guarapiranga e eu tinha um Hobbie Cat (pequeno veleiro para até 4 pessoas), então minha curtição era ir pra aula e velejar depois (risos).

RM| Meu pai (Marco Cezar, fotógrafo) também velejou por muito tempo, tinha um veleiro de madeira…lembro disso na minha infância.
FC|
Eu e teu pai temos bastante em comum. O tio da minha ex-mulher é um grande amigo de infância do teu pai.

RM| Quem é, quem é?
FC|
Era da família da Sônia Braga, não lembro o nome…

RM| Meu velho namorou a Sônia Braga…
FC|
Então, esse cara era da família da Sônia e é tio da minha ex-mulher. 

RM| Mundo pequeno. Enfim, conta como você começou.
FC|
Comecei na fotografia por uma razão muito doida. Eu era médico, tinha um emprego de professor na faculdade e dirigia o centro de saúde em dermatologia sanitária de lá. Na época eu fazia pós-graduação em sanitarismo e saúde pública, que era o que mais me empolgava, porque eu sempre tive essa obsessão por cura, eu gosto de trabalhar com a humanidade pensando em cura, e não em rentabilidade. Fui trabalhar com hanseníase, que era a moléstia de maior estigma na epoca.

RM| E você curtia a faculdade?
FC|
Ah, curtia, porque a maioria os cursos na OSEC eram cursos mais femininos, tipo pedagogia, psicologia, então era uma mulherada só. Maior curtição a faculdade.

RM| Não tinha como não gostar. Você era muito mulherengo nessa época, Fábio?
FC|
Ah, eu sempre apreciei muito os encantos  do sexo frágil.

RM| Tá, mas você ainda não contou como foi o começo de tudo.
FC|
Pois é. Eu já tava casado com a Lenita John, e meus grandes amigos nessa época eram todos fotógrafos, craques do fotojornalismo: a Cristina Villares, o Marcos Rosa, o Rui Teixeira, um que veio pra cá e virou roqueiro, o Silvano Bellini. Eu gostava daquele ambiente. Vivia no meio dos fotógrafos e tocava trompete numa banda de jazz, para dar vazão ao meu lado artístico. Depois vendi esse trompete e comprei minha primeira câmera semi-profissional, uma Nikkomat.

 RM| E não parou mais.
FC|
É. Eu tava casado com a Lenita. Daí cheguei pra Liana John, que era irmã da Lenita e minha “ídala”, jornalista já consagrada na época . Disse: “Pô, Liana, eu tô lá no centro de saúde mas ando meio descontente. Acho que eu quero ser fotógrafo. E mais: quero ser fotógrafo de publicidade”. Ela em vez de me dar uma força, me jogou um balde de água fria: “Como assim? Você é um cara formado, pós graduado, você acha que ser fotógrafo é assim? Minha irmã casou com um médico”. Eu tava buscando um apoio psicológico num momento difícil, de depressão, e ela me disse: “Você nunca vai conseguir”.

RM| E aí?
FC|
Daí que um mês depois eu tava separado da Lenita e do resto da família dela, (risos). Vendi meu trompete e comprei a Nikkomat. Comecei a botar uns filminhos ali e fui fotografar na night, fazer exatamente aquilo que o Marco Cezar faz. Naquela época tinha o Victoria Pub, que era de um amigo meu. Fazia um mural com as minhas 10x15, como tem no El Divino hoje. Essas fotos eram vendidas pros clientes, e era dali que saía um dinheirinho. Passei cinco anos com a máquina pendurada no pescoço para as pessoas me reconhecerem como fotógrafo.

RM| E aí?
FC|
Aí pintou a Vento Leste, uma surf shop que eu montei em sociedade com o Mauro Fazzi, um amigo que tinha mais tino comercial. Fizemos um "Foto Surf Shop" lá, com uma franquia da Curt (antiga empresa de produtos e serviços fotográficos). A gente recolhia os filmes da galera do surf, que sempre estava lá, pra revelar. Fazia umas promoções do tipo “revele um filme e ganhe uma parafina”(risos). Daí comprei uma lente de 500mm e comecei a fotografar surf e vender as fotos pra galera.

RM| E a fotografia de publicidade?
FC|
Apareceu um cara na loja que foi crucial na minha vida, o Osvaldo. Ele era fotógrafo contratado de uma produtora de audiovisual que chamava MikSom e fazia lançamentos de produtos com projeção de slides 35mm, uma loucura. Quarenta carrosséis de slides sendo projetados ao mesmo tempo, tudo programado por computador. Era quase um filme, só que a partir de imagens de still. Daí o Osvaldo me chamou pra trabalhar lá, porque um dos fotógrafos tinha sido mandado embora.

RM| Mas nessa época você já tinha um portfólio legal?
FC|
Tinha umas fotos de Surf e de shows, né? Porque todo mundo faz umas fotinhos de shows. Aliás, fiz uma foto do show da tua banda (Coletivo Operante) que ficou muito legal, lá no Acústico Brognoli. Depois te mando.

RM| Beleza, valeu. Daí o Osvaldo te chamou...
FC|
O Osvaldo praticamente me colocou lá dentro. Nunca tinha entrado num estúdio e já entrei com carteira assinada, como fotógrafo. Tinha lá um haze (luz de estúdio muito utilizada para retratos) e um flash meter (equipamento para medir a intensidade da luz) de vareta. Entrou o produtor: “Vamos fotografar”. Era uma campanha da Bombril, e eu nem sabia o que era um cabo de sincronismo. Daí o Osvaldo sabia da situação e largava o trampo dele no estúdio do lado pra me dar umas dicas: “faz assim, faz assado”.

 RM| Você ia pra lá todo dia, era tipo emprego fixo mesmo?
FC|
Todo dia, com carteira assinada e horário. Chegava lá de manhã e ficava esperando o produtor chegar com o trabalho, que podia ser qualquer coisa. Interna, externa, carro, produto de limpeza, pessoas, de tudo.

RM|  E a surf shop nesse rolo?
FC|
Cheguei pro Mauro, que era meu sócio e disse: “Maurão, acabei de arranjar um emprego de fotógrafo. Toca aí a loja que agora ela é só sua. Quando você tiver grana me paga a minha parte”. Abrí mão do negócio. Na verdade a surf shop foi um trampolim para a fotografia.

RM| E você ganhava legal na MikSom?
FC|
Ganhava legal, sim. Entrei ganhando o equivalente a uns mil e quinhentos dólares na época. Pra mim era legal, minha primeira grana de verdade com foto. Fiquei um ano e oito meses lá, praticamente 24 horas por dia. Dormia nos estúdios, com isopor como colchão, saco de areia de travesseiro, embrulhado no fundo preto e na curva do fundo infinito (risos). Então os donos da empresa viam que eu tava afim mesmo. E também comecei a propor fotos mais com a minha cara, diferentes. Entrei como o último fotógrafo e em um ano e meio eu era o primeiro, escolhia meus trabalhos. Uma vez fotografei o lançamento da caminhonete D-20 ou D-30, não lembro. Tava toda a diretoria da Chevrolet na pista de provas, que era onde a gente fotografava os carros em externa. Aí eu comecei a fazer coisas diferentes. Subí na caçamba, botei a câmera perto da roda, comecei a propor coisas pra enobrecer o audiovisual deles. A galera da Chevrolet ficou doida com meu trabalho, isso repercutiu dentro da empresa e daí comecei a fazer praticamente só Chevrolet. Mas foi por linguagem, nunca puxei saco de ninguém lá.

RM| E quando foi que você saiu desse estúdio?
FC|
Uns amigos meus montaram a revista Fluir. Aliás, a primeira edição foi fechada na minha surf shop, porque em cima da loja eu tinha um laboratório preto e branco. A galera da Fluir não tinha ampliador, então eles prismavam o fotolito lá. Daí comecei a viver essa relação com a revista.

RM| Mesmo não sendo mais sócio na surf shop, pelo jeito você tava sempre lá.
FC|
Ah, porque a surf shop era um point dessa galera, e o Mauro sempre foi meu amigo. Daí o pessoal da Fluir me convidou: “Cabral, sai da MikSom e vamos montar um estúdio”.  Pedí demissão da MikSom e montei o tal estúdio com a galera. Chamava Art Fluir, e a gente produzia os anúncios que seriam publicados na revista. Pega uma Fluir de 85, 86, que foi o tempo áureo: se tivesse 40 páginas de anúncio eu produzia e clicava 38. Então eu não fotografava surf, mas a publicidade do surf.

RM| A gatinha da Town & Country, da OP, da Hang Loose...
FC|
Exatamente. Era eu que fotografava.

RM| E aí você foi para o Estúdio Abril em 89, certo?
FC|
Isso. Porque rolou o seguinte: em 87 o pessoal da Editora Abril encostou na Fluir. Eu era o diretor da Art Fluir, atendia, pegava os briefings e fotografava. Na época eu já queria me aproximar do mercado de moda, queria fazer o que o Trípoli fazia. Olhava as fotos dele na revista Etiqueta e babava, babava. Pensei: ”Eu quero ser esse cara”. Era uma fotografia muito arrojada. Pra mim ele era o melhor fotógrafo do Brasil, e ainda é até hoje. Adoro aquele velho italiano. Depois nos conhecemos e viramos grandes amigos. Ele escreveu o prefácio de “Anjos Proibidos”.

 RM| Uma honra pra você, né?
FC|
Demais, demais...anos depois o Trípoli foi para os Estados Unidos e a revista Etiqueta ficou meio órfã de fotógrafos. Entrei na revista e comecei a fazer o meu trabalho lá. Foi uma satisfação pra mim substituir o Trípoli.

RM| Aí você já trabalhava no Estúdio Abril.
FC|
Era diretor do Estúdio Azul, da Editora Azul, um braço da Editora Abril. O (fotógrafo) Pedro Martinelli era diretor do Estúdio Abril. Formei muitos profissionais lá. Um dos meus maiores orgulhos é a Priscilinha Prade (Priscila Prade, fotógrafa), filha do Péricles, que aos 16 anos de idade era minha assistente.  Aprendeu tudo no Estúdio Azul, e hoje é uma fotógrafa famosa, fazendo editoriais, trabalhando um monte, super legal. Formei muita gente lá.

RM| Foi mais ou menos nessa época que você lançou “Anjos Proibidos”, um livro que deu a maior polêmica. Podemos falar um pouco disso?
FC|
Tranqüilo. Na época eu colecionava – e coleciono até hoje – livros do David Hamilton (fotógrafo inglês, famoso por seminus de adolescentes), que foi o cara que fez a imagem pueril da ninfeta, da nudez adolescente como se fosse um sonho. Eu sempre me inclinei muito por esse trabalho. Daí comecei a vislumbrar meninas com pouca idade, com menos de 18 anos, que na real é a idade das modelos hoje em dia, não é? Aí o pessoal fala: “o Cabral fotografou crianças”. Não são crianças, são meninas de 15, 16 anos. Elas só têm menos de 18. E eu percebia um erotismo, uma sensualidade nessas meninas quando elas apareciam no estúdio pra fazer um casting. Daí pensei: “Nossa! Eu vou fotografar isso, vou transformar isso num trabalho de arte fotográfica fundamentada nos livros do Hamilton.”

RM| E foi aquele rolo.
FC|
  É. Formatei o livro e lancei na mais fechada galeria de arte que tinha em São Paulo, a Paulo Figueiredo. Quinhentos exemplares, assinados e numerados, como se fosse uma gravura.

RM| Era caro o livro?
FC|
Cinqüenta dólares. Na época era caro.

RM| E hoje em dia estão vendendo o “Anjos Proibidos por dez mil reais no Mercado Livre, você sabia?
FC|
Sei, claro. Tava dando uma pesquisada na Internet e vi. Eu liguei pro livreiro, que me disse: “Tenho o livro em perfeitas condições e está assinado pelo autor”. Daí eu falei: “Eu sou o autor”. Aí o cara pirou, queria saber se eu tinha mais livros pra vender e tal. Eu tenho só quatro exemplares, que estão na casa dos meus pais e que vou guardar pra sempre.

RM| Aí você lançou e deu aquela confusão com o tal promotor de justiça que dizia que os livros eram pornografia infantil.
FC|
É que o livro teve uma exposição muito grande na mídia. O vernissage foi uma puta festa, vinho da Fasano, coquetel com salmão, dois links de televisão ao vivo, página inteira na Folha de São Paulo, aquele buchicho todo. Aí um promotor chamado Munir Cury viu aquilo e tentou aplicar o código da criança e do adolescente pra pegar um vácuo na imprensa e tentar se promover.

RM| As fotos não são nada pornográficas...
FC|
Cara, eu não era um aventureiro.Eu era diretor do Grupo Abril! Todas as fotos foram feitas com a presença dos pais das garotas.

RM| O Paulo Greuel, na entrevista da edição passada disse que no estúdio o tesão do fotógrafo não pode ser genital, tem que ser visual. Você concorda?
FC|
Sem dúvida. E também tem o respeito e a idolatria pelo sagrado feminino, sabe? Porque a gente sabe que as mulheres sempre tiveram muito poder. Na história da humanidade os homens sempre fizeram de tudo pra tirar esse poder, porque têm medo. Mas hoje as mulheres já ocupam o mesmo espaço dos homens, tá bem melhor. Então eu sempre tive essa idolatria pelo feminino. Tanto que quando eu comecei a fotografar já fui por esse caminho.

 RM| Aí, você tava em Las Leñas...
FC|
Foi muito engraçado, porque eu lancei o livro numa terça e na quinta fui pra Las Leñas fazer uma temporada de esqui, coisa que eu faço todo ano há muito tempo. Enquanto eu tava lá esquiando o promotor apreendeu os livros como se fosse um pacote de drogas, fechou a galeria e ficou falando na imprensa que ia me prender, que eu era um aventureiro e tal. Quem me deu a notícia foi o (apresentador de TV) Otávio Mesquita, que tava lá em Las Leñas. Me mandou um bilhete que dizia: "Cabral, desce pro hotel que deu algum problema lá. Tua cara está em todos os jornais". Cheguei no hotel tinha telefonema da Veja, da Folha, todo mundo querendo falar comigo.

RM| E você teve que se explicar?
FC|
Não falei com ninguém, porque não sabia direito o que tava acontecendo. Só falei com a Fernanda Cirenza, da Folha, que era minha amiga e deu um furo de reportagem. Ela me disse que a Folha já tinha comprado minha briga, que tava do meu lado e achava a atitude do promotor um retrocesso, uma censura. Disse que tava todo mundo comentando, o Ziraldo, o Caetano Veloso achando que era repressão.

RM| E como terminou a história?
FC|
Eu voltei e fui indiciado. Contratei um dos maiores advogados de São Paulo, o Eduardo Mullayert, que foi secretário de Segurança de São Paulo e é um cara muito intelectual, muito ligado às artes. Não é que eu contratei: ele estava me esperando para pegar o caso.

RM| Ele mesmo se contratou pra te defender.
FC|
Foi ele que conseguiu me acalmar, porque eu tava me sentindo ultrajado. Quando eu saí do indiciamento tinha uma parede de fotógrafos e cinegrafistas, parecia que era o Ronaldinho e a Cicarelli (risos). Foram dois anos e meio de processo, e fui absolvido por unanimidade, em sentença irrevogável. O juiz viu que era uma trabalho de arte.

RM| Além desse você tem mais dois livros, certo? "SLZ 48h, com fotos de São Luiz do Maranhão e "Some Women", com fotos de mulheres.
FC|
Na verdade são quatro livros ao todo. Eu participei do livro "Arquitetura do Brasil", onde a revista Arquitetura e Construção convidou fotógrafos de outras áreas para interpretarem as regiões do Brasil. Eu fiz Florianópolis, as casas açorianas.

RM| "Some Women" tem fotos de várias celebridades. Qual você mais gostou de fotografar, se fosse pra citar só uma.
FC|
Eu sempre tive uma característica muito forte de obter sempre a minha imagem, a minha interpretação, fotografando quem quer que seja, o Pelé ou o cara da esquina. Sempre gostei de dirigir pessoas, por isso que meu caminho cada vez mais é o cinema. Então, em "Some Women" tem atrizes tipo Sônia Braga, Bruna Lombardi, Adriane Galisteu, Ana Paula Arósio e ali todas se parecem. Porque transformei todas elas nas minhas mulheres, mulheres idealizadas visualmente por mim.

RM| E qual delas você mais gostou de fotografar?
FC|
Olha, cada menina é uma menina...Mas tem duas que foram especiais, em dois momentos diferentes: Ana Paula Arósio e Sônia Braga.

RM| No teu site a primeira imagem que aparece é a Ana Paula Arósio, toda despenteada, de maquiagem borrada...
FC|
Fiz essa foto num momento em que ela era vendida como princesinha, garota Capricho. Aí nessas fotos eu transformei a princesinha em gata borralheira.

 RM| Você é meio genioso, né?
FC|
Ah, não sei, eu não puxo saco, não babo ovo, não faço política. Gosto das pessoas pela essência, pelo que elas são, não pelo que elas têm.  Hoje sou um homem de 51 anos e tenho consciência dos meus defeitos e meus avanços. Sei que sou uma pessoa difícil e muito sensível. Se eu não gosto de um cara, por mais interesse comercial que eu tenha, não vou conseguir me relacionar, e isso é tão inerente a mim que fecha algumas portas profissionais. Eu gosto é de gente boa, gente de coração limpo.

RM| Você acha que em cidades menores como Florianópolis, pelo fato de todo mundo se conhecer isso acontece mais,?
FC|
Quando morava em São Paulo, 70% do meu trabalho era publicidade, de onde vinha o dinheiro, e 30% de editorial. Quando saí de lá, e já faz 14 anos que moro em Floripa, eu saí do editorial porque aqui ele nao existe. Mantive a publicidade e tentei trazer esse mercado pra cá. E vou te dizer que consegui bons avanços. Não posso reclamar. Fiz grandes trabalhos aqui. E fiz alguns trabalhos ruins também. Mas hoje em dia na publicidade o melhor fotógrafo é o mais barato (risos),  e essa não é a minha praia (risos).

RM| Como assim?
FC|
Eu falei isso numa grande agência em Sampa outro dia e o diretor geral concordou comigo: hoje em dia o melhor fotógrafo é o mais barato, bicho! Porque é esse preço que vai viabilizar a encomenda do cliente. Se a gente for olhar o grosso da publicidade no Brasil, a Veja, a Caras e tal, você vai concordar comigo. Não tem mais fotografia ali. O que eles fazem é uma arte final, com várias colagens em Photoshop. Não é uma fotografia autoral. E minha formação foi em cima da fotografia autoral. Fotógrafo precisa ter currículo, olhar e história para sua obra ter valor real.

RM| A foto que você vê ali pode ter sido feita por três ou quatro fotógrafos diferentes…
FC|
Ou por qualquer um! O diretor de arte compra sua câmerazinha, monta o lay-out, fotografa e transforma aquilo numa arte final pra ter os direitos de utilização. Agora, por outro lado, a fotografia na sua essência, a fotografia de “fine-art”, essa tá crescendo muito no mundo. Tem um grande movimento nesse sentido.

RM| Você já passou por experiências assim aqui em Floripa?
FC|
Aqui em Floripa de monte. Tem isso, do cara não querer trabalhar comigo por me achar sei lá, arrogante ou muito criterioso. E não é nada disso, bicho. Eu apenas pontuo meu trabalho em cima da maior qualidade profissional. Sou muito exigente no set, Caio. E nessa transformação da fotografia o fotógrafo passou a ser uma peça meio mandada pelo diretor de arte ao invés de uma dupla que trabalha em harmonia.

RM| O lay-out chega pronto e o fotógrafo que corra atrás.
FC|
Eu tive muitos problemas nesse sentido, porque queria propor uma linguagem e não deixavam. Pra mim isso é a mesma coisa que apertar o meu pescoço, então eu fico querendo brigar, chutar a canela. Agora tô aprendendo a ser um pouco mais tolerante nesse sentido, mas eu sempre fui muito brigão quando estou defendendo meu trabalho.

RM| Mas o mercado de Santa Catarina cresceu muito desde que você se mudou pra cá, não acha?
FC|
Cresceu muito, e sem falsa modéstia nenhuma posso dizer que a infra-estrutura de produção que existe hoje em Floripa deve muito a duas pessoas: ao João Rony e a mim mesmo. Porque nós ficamos batalhando pra que as coisas fossem feitas direito. Hoje a gente tem um parque de iluminação da Cine Suporte, a gente tem câmeras, estúdio, a HMI, a gente tem produtores, maquiadores e cabeleireiros, a gente tem motorista, eletricista, maquinista...hoje em dia a gente tem catering (empresas que fornecem alimentação nos sets de filmagem e fotografia) profissional, que há poucos anos atrás não tinha. A primeira vez que eu vim fazer uma produção aqui a produtora levou uns sanduíches enrolados em papel alumínio.

RM| E você acostumado com São Paulo.
FC|
Saí de São Paulo em 96, e tava num universo muito grande lá. Eu despachava campanhas com o Nizan Guanaes, o Washington Olivetto, o Camilo Magalhães, os caras mais criativos da época. Fiz campanhas enormes em SP, fui crescendo no mercado como um obcecado. Porque eu queria chegar no nível de um cara que é exemplo pra mim até hoje, um cara que se chama Luís Trípoli.

RM| Ah, esse é um craque. Você foi assistente dele?
FC|
Nunca fui assistente de ninguém. O Trípoli também nunca foi assistente de ninguém.

RM| Como foi a transição do negativo para o digital na tua fotografia?
FC|
  Foi bastante dolorosa, porque eu fiz parte da resistência contra o digital. Eu e vários fotógrafos importantes, formados na escola do negativo, do cromo 6x7. Só que eu fui resistente demais. Então eu entrei na digital quando não tinha mais laboratório pra revelar meus filmes. E achava uma porcaria, que não tinha resolução, contraste.

RM| Olhando em retrospecto, você não acha que foi um excesso de romantismo teu?
FC|
(Pensa) Foi, sim, foi. Tanto que eu continuei fazendo muito cromo 6x7 quando todo mundo já estava na digital.

RM| E hoje em dia?
FC|
Hoje é tranquilo, eu trabalho com as digitais de maior resolução possível, entrei nesse universo de cabeça, como todos nós fomos obrigados a entrar. Tenho um domínio legal dessa técnica. Mas ainda faço os meus ensaios como se eu tivesse trabalhando com filme. Não fico olhando na telinha da câmera a cada foto.

RM| Você é diretor de fotografia e pelo que sei planeja atuar como diretor mesmo. Como começou seu envolvimento com o cinema?
FC|
Comecei como diretor de fotografia em 1998, com o (diretor de cinema) Carlos Mendes, que é muito consagrado e tem vários prêmios em Cannes. Começamos a filmar juntos e deu muito certo, fizemos vários comerciais. Em 2002, o irmão dele, Odorico Mendes, que era super premiado e fazia os filmes do (cigarro) Hollywood, fez seu primeiro longa e me chamou. Filmei 524 latas de negativo com duas câmeras Arriflex. Tinha uma equipe de fotografia com 35 pessoas, entre maquinistas, iluminadores, eletricistas e tal. Foi ali que eu peguei o vírus do cinema.

RM| Como é o nome do filme?
FC|
O Dono do Mar. Inclusive eu tô com uma cópia e a gente tá tentando fazer uma exibição do filme aqui no Cinemark.

RM| E agora o teu caminho parece ser o cinema mesmo, né?
FC|
É. Todos os meus projetos para 2010 estão totalmente voltados para o cinema. Filme, dramaturgia...tenho um projeto de um programa pra tv, já fiz um piloto com o Gastão Moreira, tem um outro projeto de um programa sobre fotografia na GNT, dois documentários inscritos na lei municipal e um longa metragem que se chama Apartamento 701. Minha vida em 2009 foi ler roteiro e assistir filme. Estou num processo de transformação na minha fotografia, pra encontrar minha essência profissional, que é a direção de atores, direção de modelos.

RM| Vários projetos...
FC|
E tem um novo livro, de 353 páginas, capa dura, sobre meus 25 anos como fotógrafo.

RM| Você tem filhos?
FC|
Tenho dois, o Kim e a Dana, um garoto de 23 que mora na Austrália e uma menina de 13 que mora aqui em Floripa, meus filhos estão muito bem encaminhados e minha ex-mulher também. E tô já há 6 anos com a Eliana, que é a mulher da minha vida, fotógrafa também.  A gente tem essa relação de alma gêmea, sabe?

RM| Como você se imagina daqui há cinco anos?
FC|
Em Floripa ou Urubici, mais perto da montanha, fazendo meus filmes. E desenvolvendo meu trabalho de cura, de espiritualidade. Eu sou médium e atendo todas as segundas-feiras no Nosso Lar, ali em Forquilhinhas (Centro Espírita de Florianópolis). É um trabalho que chamo de medicina vibracional, muito interessante.

RM| Pra terminar, então: quem são os fotógrafos que você mais admira?
FC|
Brasileiros?

RM| Pode ser, pra começar.
FC|
Luís Trípoli, meu queridão. Gosto muito do Klaus (Mitteldorf), Araquém Alcântara, por aí vai. Paulinho Vainer, Bob Wolfenson. E falando de pessoas, gosto muito do teu pai, Marco Cezar. Pra mim é a imagem do fotógrafo de Florianópolis. Conhece todo mundo e tá sempre com a câmera no pescoço.

RM| E internacionais?
FC|
Helmut Newton, Richard Avedon e indiscutivelmente o David Hamilton, que inclusive foi pro cinema e fez vários filmes.

RM| Voltando a falar de "Anjos Proibidos": Por que você não vai atrás das meninas e fotografa de novo, agora com elas já adultas?
FC|
Não, pelo amor de Deus (risos)! Todo mundo me dá essa idéia, não quero, não.

RM| Pô, e eu achando que estava sendo original.
FC|
(risos) Não! Isso é uma coisa do passado. Agora eu quero saber é de lançar os meus filmes e ganhar um Oscar (risos).






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